sábado, 18 de abril de 2026

Um outono sem conspirações

 


O outono e sua faca cortante
De ódio contido e dissonante.

Frio seco feito lâmina na cara que encara a avenida
Feito um doce crime com sabor
Licor de ácido na boca da noite.

Céu de estrelas atrás da fumaça
A feia urbanidade vira poesia.

Durante o dia uma boba fuga pro café subversivo
Na mesma esquina do beco sujo
E com a ex-secretária do velho partido
Tramar revoluções embaixo de cobertores.

O outono e sua face de sensações
Contra o sentido da areia da ampulheta.

Violeta murcha, rosa que não a vermelha
Dor no peito que não o sangue
Da autoritária bala de borracha.

O outono e seu eterno vinho pela metade
Escondido embaixo do casaco da cidade.

Já não somos mais tão jovens
Nem temos mais tantas conspirações.

O outono agora é só a impressão
Da tola importância que demos às boinas
Cadernos nos bares
E falsas revoluções.

O outono e sua faca cortante
De tantas desilusões.

CRiga.




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