segunda-feira, 1 de junho de 2026

Flor

 


Delicada, porém selvagem.
Corajosa, porém cuidadosa.
Exótica, linda, poderosa.

Te espero, te cultivo
Meu jardim agora é fértil
Forte e paciente.

CRiga.






sábado, 23 de maio de 2026

Mudança

 


E o amor onde cabe
Quando a gente ajeita as coisas no lugar?

Só no sótão
Pó no porão.

No cadeado enferrujado do portão
A gente sabe que um dia precisa trocar.

Na mala velha que ainda prefere a viagem
Mas que volta triste ao escuro mofado
Do guarda-roupa remontado.

No caco da última porcelana do casamento
Que escapou por acidente da caixa de papelão.

No porta-retratos novo sobre a velha escrivaninha
Ainda com o recorte da modelo de revista.

No solo final de Confortably Numb
Que o disco riscado nunca deixa terminar.

O amor, quando acaba,
Cabe em qualquer lugar.

CRiga.




domingo, 17 de maio de 2026

Presença

 


Fotografa então o meu espírito desbotado
E empresta um pouco do teu talento
À minha segunda-feira sem cor.

Meu domingo sem nenhuma dor
Minha semana de amor pendente
Pra gente um dia compartilhar.

Meus 242 beijos
Meu abraço ainda quente, o desejo
De me afogar em teu pescoço.

O esboço de uma nova poesia
Eu não mais ousaria te enviar.

Há apenas essa doce presença morena
Uma sentença serena, porém marcante
Feito a arte elegante
De uma fotografia em preto e branco.

CRiga.



sábado, 16 de maio de 2026

Questão de ter o que escolher

 


O importante é poder mudar os planos
Bem no meio da trajetória de um dia,

Do que não ter planos
Nem trajetória
Nem dia.

CRiga.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Um conformar-se na amiga angústia

 

Sim, não me sento no trono de um apartamento.
Não, eu não tenho tempo pra saber se aguento.

Já aviso – sem tempo e sem porque
Você sabe bem onde isso vai dar.

Sim, pode ser na morte
Destino certo de quem é vivo.

Mas à sorte, sim
Procurando sentido no que parece vivo.

Mas é difícil, e como é!

Não é questão de ser demais seletivo –
É esta a vida que te acontece
Ou não acontece.

Cansa viver de vazio.
Cansa saber que não posso tudo o que quero
E muito mais não saber o que de fato quero.

Não me espera, me deixa.
Não é entrega nem rudez.

É apenas um cansaço morno no peito
Um “aceito” o que vier, o que tem de ser

Mas que seja na minha trilha então!

Mesmo na obrigação daquele seco “ter que”
Ou naquele chato “arrumar um jeito”
De apenas sobreviver.

CRiga.



 

 


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Um domingo de frente fria

 


Sei que você veio até aqui
Espiar com uma desculpa de “coisas pra devolver”
Na boba esperança de me ver.

Num domingo de chuva anunciando uma semana cinza
O azul da atenção dos meus olhos tranquilos
Poderia bem repor qualquer cor para você.

A carona do amigo combinado namorado de mentira
O brinco novo, o jeito forçado de pressa
“Qualquer coisa mando recado”
“Não sei se vou poder atender”.

Nada mais me arrasta até o teu domínio
Você está indo embora, já é hora
Nem precisa cantar pneu –

Eu sou agora o cheiro do asfalto molhado
O som da chuva que acalma
Na hora de dormir,

As coisas úteis que restaram pra amar
Todas guardadas em seu devido lugar.

CRiga.