sexta-feira, 17 de abril de 2026

Egotrip da Vingança

 


Vou viver no limite íngreme
Da minha alma que já não é tão pura.

E se você não vier de branco
Feito anjo me salvar do devaneio
Vou ser mármore tão negra.

E se você não sorrir
E se você não me ouvir
E se você não me abraçar
E se você não existir...

E se você não vier?

Se você não vier
Vou renascer das cinzas do que já sou.

Eu sou as cinzas que boiam no teu ar
Que aterrorizam teus olhos sem cor
Numa trágica noite de inverno
Depois de o vento insano sem direção
Invadir a tua casa decorada
Morango de prateleira.

Só que você, metódica,
Limpa a tua casa com talento
Lava o rosto petrificado
Com sabonete neutro, água morna
E vai dormir
Como se não existisse o dia
Em que você me deu um beijo.

Como se eu não existisse
Como se eu fosse pedra vulgar
Ou mármore tão negra.

Como se eu fosse ressuscitar
Sem limites
No teu seguro lar tão puro.

Como se eu fosse o retrato velho
Sobre a triste escrivaninha de cedro
Esquecida no sótão escuro.

Como se eu fosse vírus
Esperando tua hemorragia
Me libertar do desespero.

Como se eu fosse o fóssil
Daquele tiranossauro rex
Que um dia quis ser bonzinho.

Como se eu fosse fácil
Como se eu fosse frágil
Como se eu tossisse sangue
Feito poeta do Romantismo.

Vou viver no fútil limite
Desta alma que só queria
Ter você de fato um dia.

E se você vier assistir a meu desespero
Vou sorrir sarcástico
Dar adeus com a cabeça
Virar as costas
E voar sobre o penhasco.

E só sobrará teu eco dissonante
Entre as montanhas seculares
Naquela trágica noite de inverno:

"Eu amo você...cê...cê...”

E ficará esperando resposta
No limite íngreme do penhasco
E ficará me esperando voltar de branco
Feito anjo
Pra te salvar da tentação
De vir comigo devanear.

E ouvirá só o som da lágrima
Contra a rocha seca
Que não ressoa eco
Nem alivia a dor.

E rezará por mim
E pedirá minha proteção.

E lembrará dos dias em que nunca fui anjo
E quando roubei um beijo teu.

E desejará com a alma eu não estar te vigiando
E continuar não sendo anjo
Só pra roubar outro beijo teu.

E você viverá no limite íngreme
Da tua alma então tão negra.

Perdida no vale das pedras
Nas mármores tão puras.

Perdida nas noites escuras
Que eu fundei
Enquanto amei você.

CRiga.




quinta-feira, 16 de abril de 2026

O pranto de uma vida


Eu ando vivo
Chorando tudo o que guardei.

Vou dormir com olhos encharcados
E acordo afogado em lágrimas de tormento.

O sal do meu alimento é a água do meu pranto.
Quando canto embargo a voz.

Eu choro tudo o que a vida me deve
Fecho os olhos e disparam cavalos selvagens.

Só me falta o ombro do meu amigo
Mas eu ando, eu vivo, eu sinto saudades.

Eu hoje acordei mais cedo
Só pra poder chorar um pouco
Antes de bater o ponto.

CRiga.



 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Me permita a poesia seca, sem rima

 


Me permita ser triste
E até conseguir de novo chorar.
Tem vezes que na vida só é importante
Colocar pra fora a dor
Sem rima, sem lirismo.

Houve uma juventude que de tão pura
Escrevia o que não sentia:

“Solidão é sólida
Sólida como pedra
Pedra dura que não quebra
Quero gritar, quero chorar”.

Este sonhador-fingidor já não existe mais
Resta apenas a figura que perambula perdida
Pela tosca vida de bares e avenidas.

Sabe barata tonta que sai do bueiro?
Comida sem tempero, você sente falta do sal.
Um novo mal de amor que se inventa?
Que até tenta te atrair a atenção – mas que no fim
É apenas mais uma decepção.

Na noite da volta de um certo salvador
Meu coração foi finalmente atropelado
Pelo meu caminhão lotado de desilusões.

Estatelado no asfalto implacável
Nem mesmo marca deixou
Porque o sangue secou
Mas nada nunca se cicatriza.

Me permita hoje então ser triste
Até não conseguir mais chorar.
Agora só me é importante
Estar distante
Caminhar só durante a permissiva tarde
E implorar que o sono me traga ao menos um sonho bom.

Me permita não declamar palavras bonitas
Me permita mais uma recaída – 
Eu sempre soube que cada precipício à frente
Tem altura diferente, o tombo é sempre maior.

Me permita dizer que além das pontadas de dor
Meu coração também sustenta, sim
Aquela diminuta esperança de uma foto 3x4
Guardada no bolso do surrado jeans.

Me permita lembrar de um amigo que já morreu
Que já me deu seus ombros e seus ouvidos –
Eu também ouvi suas dores numa tarde
Quando no final daquela rua mudou de assunto
E sacou uma doce luz de carta de correio:

“Olha como ela é bonita!”

É essa a esperança que eu quero ter!

Mas eu ainda estou no escuro
Ainda não sei se procuro
Ou acredito na distração do Tempo.

Por agora, se ainda vale a rima 
Eu prefiro sangrar,
Eu preciso chorar.

CRiga.

Pior dor é encarar-se só
Aprender a só ser,
Como diz mestre Gil. 



 

 

Enfarte

 


Não dá para escrever os meu belos outonos
Dizer flores aos atentos ouvidos
Se o peito seco, sem a tua água
É apenas mágoa que te ama e te dilacera
Na espera de um poema
Que não seja mais por você.

Eu ando lendo coisas lindas
Conhecendo gente interessante
Que me dão, além de atenção,
Um número de telefone.

Eu ando vendo os dias me tomando posse
O tempo é o meu total e soberano dono.
Mas às vezes ele me perde no vazio da tarde
No sono que não vem
E então volto a ser apenas a areia que sobrou
Da ampulheta que você quebrou.

Eu queria ser o poeta da esquina
Que rima o desejo ao encontro
Leveza à sutileza da conquista
Amor ao fogo de um corpo
Paixão ao para-sempre
Enquanto a lenha crepitar na chama vermelha.

Mas de seco meu coração craquelou, se esfarelou
Implodiu e só tenta te odiar com originalidade.

Toda cidade viu –
Eu não corri por você
Nem chorando nem sorrindo.

Toda cidade mentiu –
Eu não morri por você
Apenas naquela noite de domingo.

CRiga.




segunda-feira, 13 de abril de 2026

Até estourar o coração

 


Sim
Tua dor dói em mim
Quando me pede ajuda
Apenas um ombro
A mulher fera também chora
Eu sei o que te aflige
Me aflige também
Tua alegria mesmo que plantada em outros olhos
Outros beijos e outros braços
Me dá orgulho da tua alma aberta
Que teve bela coragem de partir.

Sim
Eu acho que isso é amor.

Mas minha dor dói só em mim
O que te peço é a distância
Sou apenas um escombro
O homem perdido também caminha
E você sabe o que me atinge
Sempre soube, e você me atingiu
Minha tristeza posta à mesa em bares e avenidas
Outros ouvidos e olhos de verdade
Me deram o orgulho de continuar
Até rasgar o coração na esquina
E ter coragem de esquecer você.

CRiga.




Um amor pra vida

 


Numa noite a dor no peito
Depois a salvo numa tarde.

E do nada ela ligou pra mim.

Disse pra me cuidar
E sem precisar dizer mais
Me lembrou que as coisas passam.

Disse o pouco que me bastou
Pra me sentir amado novamente.

Um dia pegava no meu pé
E eu disse, com carinho:
“Cuida da sua vida”.

E ela respondeu
Com amor:
“Estou cuidando”.

CRiga.




sexta-feira, 10 de abril de 2026

“I love The Smiths”

 


Às vezes eu não sei onde estou
Na caraia da puta que pariu que me meti
Naquela noite que não tem mais hora.

O que eu sei, agora,
É que eu ainda sou foda!

Seja pra te dar minha atenção
Na púbere tentativa
De roubar um beijo teu.

Seja uma conversa sobre a vida
Sobre o que incita
Nosso bom demônio que dorme.

Saiba que aqui nessa cidade de pedras
Existe um oceano escuro de possibilidades.

De lindas e doces maldades
Que a gente ainda sabe fazer tão bem.

I love The Smiths
And I almost died.

And I love Pearl Jam too
And I´m still alive.

CRiga.