domingo, 26 de abril de 2026

Diariamente

 


Vou gastar todas as letras, frases e poemas
Como quem lima a faca até a pedra gastar-se inteira
E restar apenas o pozinho cinza encrustado no fio
Que vai embora com a água da última lágrima
Numa da manhã de sol cortante
Independente, importante
Sem mais você boiando na poeira
Refletida no calendário da geladeira.

CRiga.


Not enough time


Talvez eu não tenha de fato
O talento nato pra te conquistar
Numa mera qualquer sexta-feira.

Talvez eu desperdice o sábado numa ladeira
Tentando te fazer entender numa prece
Que nem tudo simplesmente acontece
Só a partir do teu olhar tão lindo.

Mas eu tenho todo o domingo!
A sensação certeira de que você
Durante a noite, o dia
Gostaria de me ler, de me ter
De me ver, cílio contra cílio
Olhar afundado no olhar.

Eu nunca vou deixar de compartilhar
O que de mim eu sei o que é bom
E que talvez não faça parte mesmo do teu entendimento
Do que é ter o talento
Pra conquistar um coração.

O teu coração de fim de sexta-feira
E de um sábado inteiro sonolento
Esperando a sorte numa noite incerta
Num outro bar de fraco movimento.

Eu ainda tenho um caderno em branco
E um coração aberto aos dias da semana.

Eu tenho o talento de ouvir o tempo
Que me diz
Que quem não me quis
Não entendeu a poesia.

CRiga.



 

Clarice

 


Clarice
Sempre teve cara de Clarice.

Nem sempre foi Clarice.

Sempre foi clara, meiguice
Vezes foi bem perto
Outras, distante.

Vezes foi medo
Na menstruação atrasada
Vezes foi desejo de brincar
De ensinar a ler
A escrever
E a cantar na brincadeira de roda.

Clarice sempre foi filha
Que nem mesmo a porralouquice da juventude
Pôde fazer esquecer.

Clarice sempre foi pura
Foi menina, mulher
Orgulho do pai coruja
Amiga do pai amigo
Loira, morena, ruiva
Esperta, alegre
Líder de torcida
Chefe de acampamento.

Aba do boné pra trás, moleca
Boneca de cera, jóia psicodélica.

Clarice sempre foi diferente
Atriz de teatro
Cantora com o violão na praia
E um luau sob o eterno verão.

Ela sempre teve cara de Clarice
De magia
Paz
E energia.

Clarice
Cara de lua
Brilho de estrela
E calor do sol.

Nem sempre foi Clarice
Mas sempre teve cara de filha.

Não demora pra chegar em casa, Clarice
Não demora pra nascer, meu amor!

Cauê,
9 de fevereiro de 2000


 


sábado, 25 de abril de 2026

Premeditado

 


Pelos meus cálculos o resultado
Acaba sendo sempre o mesmo –

Zero, um vazio imenso na noite em branco.

Prova dos nove.

Prova de fogo.

No final do jogo o que não sei de fato
É apenas te esquecer.

Pra disfarçar à mesa do bar
Enquanto espero você chegar
Finjo que falo com alguém
Que planejo algo importante.

Eu já não tenho mais aquela voz
Pra acompanhar o refrão de “Black”.

Mas o que aprendi muito bem
Nas noites escuras que você não vem
É assassinar expectativas.

Nisso me tornei o melhor
E mais perigoso serial-killer da cidade.

Metódico
Preciso
Indiferente
Anônimo.

Minhas pistas são poemas
Meus motivos meus dilemas
A polícia dos teus olhos
Nunca vão me capturar.

Sequestrar tua sombra apenas num boato
O cálculo exato do crime perfeito:

Prendê-la então no frio cativeiro
O porão escuro que plantaste faz tempo
Bem no fundo deste peito.

CRiga.




À francesa (ode à sobriedade)

 


Pra fazer o tipo, te impressionar
Juro esta noite sair daquele jeito
O meu jeito
Daquele mesmo nosso bar,

Cambaleando
Te amando como nunca
E sempre amei.

Embriagado
Apenas de você.

CRiga.




quinta-feira, 23 de abril de 2026

Autodefesa

 


Arregimentei exércitos para te matar
E você, covarde,
Simplesmente se escondeu em mim.

CRiga.

 


Troque a roupa da poesia

 


Renovar o armário, o repertório
Revolver a alma, a rima
Armar-se da calma, do clima
E devolver-se ao começo.

Relembrar que um dia
Havia a pureza baunilha
Em vez do fermento da experiência.

Atirar contra ti num bilhete
Este amor inconsequente
Insistente, bobo
Bom.

Desmofar o morango esquecido
Numa desbotada lancheira da infância.

Desnudar a alma armada com a elegância
De um singelo e bem-apessoado
Novo poema de amor.   

CRiga.