terça-feira, 21 de abril de 2026

"To pretend"

 


Pretendo te odiar com a originalidade decente
De um anjo decadente que recuperou as asas
Mas desaprendeu a voar.

Pretendo me salvar
Antes de o meu inferno te engolir –
Vou negar a mão, te deixar escorrer leve
Na lava incandescente que habita dormindo
O fundo de um coração agora vulcão.

Pretendo poder ser feliz de novo em público
Tirar meus óculos escuros na multidão
E sentir o brilho azul dos olhos combinar
Com o simples dia que seguirá sem você.

Pretendo ser o blasé mais amável da cidade
Quando por acaso te encontrar sem querer.
Não me verá sangrar, nunca mais enfarto
Parto minha cara em mil
Mas nenhuma expressão você terá de mim.

Pretendo aprender a dizer verdades
Escrever maldades que você não vai ler.

Pretendo te odiar quieto como num coma profundo
Num túnel branco sem fim, sem destino –
No leito santo dormirá um menino sorrindo

Imóvel
Inacessível.

CRiga.




Uma pureza de office boy

 


Já não corro mais atrás de faróis verdes
Mas também não fico parado na calçada
Frente à avenida de uma vida sem carros.

Nem por isso morro.

Eu não corro mais por você
Não morro mais por você.

Não fico mais parado na sua
Na rua
Esperando você me atropelar.

E por isso não sofro.

Eu já não sou mais aquele bobo office boy
Talvez um pouco daquele tolo romântico sem teto 

Novos edifícios sobem encobrindo a visão
Ruas amanhecem contrariadas em contramão
Mas a gente nunca muda por completo.

Eu agora vou tranquilo pela calçada, sem pressa
De alcançar meus poucos e renovados ideais
Nada grande, nada absurdo
Nada da solidão de um quarto escuro.

Os carros não cessam na avenida
E mesmo que a cidade pareça encolher
E comer as quebradas calçadas de antigamente,

Eu sigo em frente, na paz de um olhar azul
Num sorriso guardado a quem cruzar o meu caminho
Disposto a se atropelar de caminhões
Carregados apenas de boas intenções.

CRiga.




segunda-feira, 20 de abril de 2026

Fotografando espíritos

 


A espera parece mais longa quando a chuva cai. Meus amores, minhas dores – no asfalto molhado todos perambulam com seus guarda-chuvas furados, cada um com sua cor em uma via sem volta.

A espera é fera que hiberna nas trevas da alma. Ruge uma dor que ecoa do fundo da caverna úmida e que cheira a mato molhado.

Quem espera sempre dança a valsa da solidão no silêncio da casa fria. Casa com o padre, reza com o bêbado caído na esquina.

Me espera, não vai agora. Eu tenho cartões postais em branco pra gente sonhar. Um vestido de festa e outro de casamento. Um baú vazio, uma garrafa intocada de licor. Uma cama de solteiro, a gente joga o colchão no assoalho.

A chuva da espera molhou toda a minha casa – distraída deixei janela aberta pra alguém me invadir, eu queria ter asas pra voar até você. A espera parece mais alta quando o céu se abre e o sol não traz mais novidades.

A espera se transforma com as nuvens sombrias em torno da lua, na noite que cai da minha estante e se quebra mil caquinhos, um porta-retratos ainda com foto de revista e um anjo azul de bibelô empoeirado, lembrança de um sobrinho que nasceu, cresceu e viajou ao estrangeiro.

A espera é acreditar em filho de virgem. Uma prece, me esquece, me marca num muro, prefiro ser Madalena. Me atira na vida – mas não me espere chorar.

No compasso do ponteiro do relógio parado vou te atraindo pra armadilha: serei a bruxa que vai te transformar no sapo, serás meu anfíbio de estimação, e você terá que esperar um beijo meu te libertar de novo. Só que meus lábios secarão com o ar de outono, e estaremos presos um ao outro.

A espera é o brejo feio e fedido da floresta negra das fábulas que assustam as crianças. É a impossibilidade de contar belas histórias aos casacos pendurados na cadeira da sala de jantar. É a solidão dos deuses loucos. É o dedo em todas as feridas da trouxa autocompaixão. Rasgar a carne, sangrar líquidos sem cor, chorar lágrimas imaginárias e etílicas de guaraná. E dormir soluçando baixinho esperando o despertador tocar pra espera recomeçar com o dia sem as flores à porta.

Café amargo, janela aberta, estou pronta – que venham então as cartas em branco que ontem enviei pra mim.

CRiga.



sábado, 18 de abril de 2026

Um outono sem conspirações

 


O outono e sua faca cortante
De ódio contido e dissonante.

Frio seco feito lâmina na cara que encara a avenida
Feito um doce crime com sabor
Licor de ácido na boca da noite.

Céu de estrelas atrás da fumaça
A feia urbanidade vira poesia.

Durante o dia uma boba fuga pro café subversivo
Na mesma esquina do beco sujo
E com a ex-secretária do velho partido
Tramar revoluções embaixo de cobertores.

O outono e sua face de sensações
Contra o sentido da areia da ampulheta.

Violeta murcha, rosa que não a vermelha
Dor no peito que não o sangue
Da autoritária bala de borracha.

O outono e seu eterno vinho pela metade
Escondido embaixo do casaco da cidade.

Já não somos mais tão jovens
Nem temos mais tantas conspirações.

O outono agora é só a impressão
Da tola importância que demos às boinas
Cadernos nos bares
E falsas revoluções.

O outono e sua faca cortante
De tantas desilusões.

CRiga.




sexta-feira, 17 de abril de 2026

Egotrip da Vingança

 


Vou viver no limite íngreme
Da minha alma que já não é tão pura.

E se você não vier de branco
Feito anjo me salvar do devaneio
Vou ser mármore tão negra.

E se você não sorrir
E se você não me ouvir
E se você não me abraçar
E se você não existir...

E se você não vier?

Se você não vier
Vou renascer das cinzas do que já sou.

Eu sou as cinzas que boiam no teu ar
Que aterrorizam teus olhos sem cor
Numa trágica noite de inverno
Depois de o vento insano sem direção
Invadir a tua casa decorada
Morango de prateleira.

Só que você, metódica,
Limpa o teu lar com talento
Lava o rosto petrificado
Com sabonete neutro, água morna
E vai dormir
Como se não existisse o dia
Em que você me deu um beijo.

Como se eu não existisse
Como se eu fosse pedra vulgar
Ou mármore tão negra.

Como se eu fosse ressuscitar
Sem limites
No teu seguro lar tão puro.

Como se eu fosse o retrato velho
Sobre a triste escrivaninha de cedro
Esquecida no sótão escuro.

Como se eu fosse vírus
Esperando tua hemorragia
Me libertar do desespero.

Como se eu fosse o fóssil
Daquele tiranossauro rex
Que um dia quis ser bonzinho.

Como se eu fosse fácil
Como se eu fosse frágil
Como se eu tossisse sangue
Feito poeta do Romantismo.

Vou viver no fútil limite
Desta alma que só queria
Ter você de fato um dia.

E se você vier assistir a meu desespero
Vou sorrir sarcástico
Dar adeus com a cabeça
Virar as costas
E voar sobre o penhasco.

E só sobrará teu eco dissonante
Entre as montanhas seculares
Naquela trágica noite de inverno:

"Eu amo você...cê...cê...”

E ficará esperando resposta
No limite íngreme do penhasco
E ficará me esperando voltar de branco
Feito anjo
Pra te salvar da tentação
De vir comigo devanear.

E ouvirá só o som da lágrima
Contra a rocha seca
Que não ressoa eco
Nem alivia a dor.

E rezará por mim
E pedirá minha proteção.

E lembrará dos dias em que nunca fui anjo
E quando roubei um beijo teu.

E desejará com a alma eu não estar te vigiando
E continuar não sendo anjo
Só pra roubar outro beijo teu.

E você viverá no limite íngreme
Da tua alma então tão negra.

Perdida no vale das pedras
Nas mármores tão puras.

Perdida nas noites escuras
Que eu fundei
Enquanto amei você.

CRiga.




quinta-feira, 16 de abril de 2026

O pranto de uma vida


Eu ando vivo
Chorando tudo o que guardei.

Vou dormir com olhos encharcados
E acordo afogado em lágrimas de tormento.

O sal do meu alimento é a água do meu pranto.
Quando canto embargo a voz.

Eu choro tudo o que a vida me deve
Fecho os olhos e disparam cavalos selvagens.

Só me falta o ombro de um amigo
Mas eu ando, eu vivo, eu sinto saudades.

Eu hoje acordei mais cedo
Só pra poder chorar um pouco
Antes de ter que bater o ponto.

CRiga.



 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Me permita a poesia seca, sem rima

 


Me permita ser triste
E até conseguir de novo chorar.
Tem vezes que na vida só é importante
Colocar pra fora a dor
Sem rima, sem lirismo.

Houve uma juventude que de tão pura
Escrevia o que não sentia:

“Solidão é sólida
Sólida como pedra
Pedra dura que não quebra
Quero gritar, quero chorar”.

Este sonhador-fingidor já não existe mais
Resta apenas a figura que perambula perdida
Pela tosca vida de bares e avenidas.

Sabe barata tonta que sai do bueiro?
Comida sem tempero, você sente falta do sal.
Um novo mal de amor que se inventa?
Que até tenta te atrair a atenção – mas que no fim
É apenas mais uma decepção.

Na noite da volta de um certo salvador
Meu coração foi finalmente atropelado
Pelo meu caminhão lotado de desilusões.

Estatelado no asfalto implacável
Nem mesmo marca deixou
Porque o sangue secou
Mas nada nunca se cicatriza.

Me permita hoje então ser triste
Até não conseguir mais chorar.
Agora só me é importante
Estar distante
Caminhar só durante a permissiva tarde
E implorar que o sono me traga ao menos um sonho bom.

Me permita não declamar palavras bonitas
Me permita mais uma recaída – 
Eu sempre soube que cada precipício à frente
Tem altura diferente, o tombo é sempre maior.

Me permita dizer que além das pontadas de dor
Meu coração também sustenta, sim
Aquela diminuta esperança de uma foto 3x4
Guardada no bolso do surrado jeans.

Me permita lembrar de um amigo que já morreu
Que já me deu seus ombros e seus ouvidos –
Eu também ouvi suas dores numa tarde
Quando no final daquela rua mudou de assunto
E sacou uma doce luz de carta de correio:

“Olha como ela é bonita!”

É essa a esperança que eu quero ter!

Mas eu ainda estou no escuro
Ainda não sei se procuro
Ou acredito na distração do Tempo.

Por agora, se ainda vale a rima 
Eu prefiro sangrar,
Eu preciso chorar.

CRiga.

Pior dor é encarar-se só
Aprender a só ser,
Como diz mestre Gil.