quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A canção da chuva

 


Quando ele decidiu atravessar o oceano louco, era pra fugir mais de si do que da ausência de si. Era aquela cidade cinza que piorava as coisas, principalmente quando o inverno chegava mais frio do que em qualquer outro lugar que já esteve. Se bem que, atravessando o oceano louco, o frio talvez fosse maior, aquele frio que a gente vê pela tevê em Londres, Paris e outros lugares que parecem se renovar a cada sonho nosso de estar lá. “Mas aquele frio tem charme, é um frio que a gente se sente protegido, por isso eu vou!”

Seu sonho também era renovado – deixava para trás o que de si não gostava, culpa daquela “solidão das capitais”. Resolvidas todas as pendências burocráticas – e até algumas parecidas com as emocionais também –, estava pronto pra ir, castigar aquela cidade cinza que nunca lhe dera nada. Nem mesmo aquele amor prometido a cidade lhe presenteara, aquele amor que faz a gente fincar o coração mesmo numa terra estranha e sem graça, por amor valia a pena qualquer coisa. Mas o amor era só uma promessa, uma piada estranha e sem graça, era prato feito de restaurante, enlatado de supermercado, um rock de gente séria e sem sangue – “É tudo gente vampira!”

Passagens compradas, data marcada, só voltaria para visitas quando estivesse seguro que vencera a cidade cinza – ou talvez nem voltasse. “Pra quê? Ninguém me espera, não espero mais ninguém”. Na correria de arrumar as últimas coisas, entre barbeiro, roupas novas e um som pra curtir – disso não dava pra abrir mão! –, conheceu uma garota, mais uma garota da capital. Sorriu, disse oi, trocaram nomes e telefones, e rolou como sempre acabava rolando com todas as garotas.

Só que no outro dia ela ligou, fez visita, arrumou o apartamento bagunçado dele – ele dividia o aluguel com mais dois amigos –, sorriu, chorou, cantou, bebeu, beijou e não esqueceu! Foram dias assim, os últimos dias, intensos como a despedida de sua terra natal, fazia muito tempo. Mas era como se agora a despedida não fosse tão boa como era até então, quando fugir era o que valia.

Ela era incrível! Chorava com música bonita, ria das atrapalhadas dele, sorria pertinho da boca dele como que respirando o ar de seus pulmões, fechando os olhos e tocando os lábios macios, aos poucos, até o beijo suave. Depois, o puxava e tiravam a roupa, corpo lindo, e eles faziam o amor que ele não conhecia. Depois, fumava um baseado, colocava outro CD, cantava junto com os olhos fechados, a cabeça balançando como se ninguém estivesse vendo.

Mas ele via mais do que queria ver... ele via o amor que a cidade cinza um dia prometeu. “Mas você vai embora, que pena, então vamos curtir um pouco mais...” Com ela, ele esquecia que teria de atravessar o oceano louco, ser “feliz”, simplesmente. “O que é ser feliz, então?”, estava confuso, ficou com raiva de si. “Tá tudo pronto, gastei toda minha grana nessa viagem, isso só pode ser uma brincadeira do destino.” 

Não era, e pegou-se pensando nela, na música dela, no sorriso dela, no seu corpo nu, sentada à cama, balançando a cabeça com os olhos fechados, acompanhando “aquela música da chuva do Led”, enquanto lágrimas rolavam de seus olhos cerrados no final, quando o Plant gritava louco: “but I know, that I love you so...”(*). Pra ele, nada daquilo era igual às outras pseudo-aventuras da cidade cinza. A coisa ficou mais séria quando até chegou a brigar com os amigos do apartamento porque bagunçaram tudo o que ela tinha arrumado. Ele a defendeu, e ficou completamente sem defesa...

O pior que, na verdade na verdade, ele queria era novos ares principalmente porque acreditava no amor, e a cidade cinza não lhe dera a oportunidade de amar ninguém. Eram todas as aventuras filmes sem nexo, em preto e branco, chatos demais. “Aqui não é o meu lugar”, repetia pra si como um mantra, pra se convencer, e culpava os inocentes de serem demais culpados cibernéticos, porque nunca nunca, “que droga!”, havia sentido o calor daquele sorriso, daquele beijo, daquele choro, daquele riso... Nunca tinha ouvido uma música tão bonita, ou nunca tinha percebido como eram bonitas as músicas do Led Zeppelin... E nunca foi tão mais frio, quando chegou o dia de partir... “Maldita cidade”, só lhe dera o grande amor quando decidiu abandoná-la com seu cinza, sua sem-gracisse, seu frio seco e morto.

Pernas moles no hall do aeroporto, ela disse que viria pra se despedir. “Não vou resistir...”, pensava que poderia jogar pro alto essa coisa de atravessar o oceano louco. “Chance assim não deve haver nem em outro continente...” Mas ela não vinha, demorava demais, e já chegava a hora de ele embarcar. “A gente precisa conversar pra eu me convencer (porra, isso é música do Ritchie), por que ela não vem logo? Como vou ter certeza? Como vou embarcar nessa? Como foi que eu embarquei nessa?”

E ela não vinha, “ela não vem... melhor assim”. E seguiu o corredor, já era a segunda chamada de embarque. Aquele dia chovia mais do que os outros dias anunciando o inverno. “Foi tudo um sonho. Amor assim não pode existir, justo na hora de partir”. A chuva desafiava a vidraça do aeroporto, e cada passo passava mais firme, mais compassado. “Agora não dá para voltar atrás. Adeus, adeus!...”

Pela janelinha redonda daquele boeing enorme, viu duas mãos grudadas nas janelas do hall do aeroporto, onde as pessoas se despediam dos passageiros ou simplesmente ficavam vendo aviões decolarem. Mãozinhas imóveis, ela não se despedia, só olhava, não ria nem chorava. A cidade ficava mais cinza, e ele quis acreditar que são as pessoas que colorem seus dias, e que ele podia colorir. Só que então por que nunca se esforçou nas tintas que tinha, sempre preferiu se defender e culpar o mundo?

Agora, o apocalipse calado, olhando do hall, palmas estateladas manchando o vidro com suas impressões digitais, fones de ouvido e um walkman, e ele tinha a impressão que aquilo não era uma despedida. Era um filme, um filme cuja única cor eram seus olhos brilhando verdes do hall, era seu vestido chita azul e seu casaco marrom de lã de ovelha – a chuva, o inverno! “Que inferno! O avião podia quebrar, forçando mais uma espera dos passageiros por pelo menos meia hora, que fosse, o suficiente pra eu me convencer.”

As turbinas ligaram, o avião começou a taxiar pela pista, preguiçoso, em câmera lenta. Uma cabecinha acompanhava lá do hall, sem sorrir, sem chorar. E ele viu então os olhos dela se cerrarem, e a cabecinha acompanhar uma canção. Na fita cassete do walkman dela, o Led rolava triste, na explosão das guitarras e bateria – “I felt the coldness of my winter/I never thought it would ever go/I cursed the gloom that set upon us/But I know, that I love you so/But I know, that I love you so...” (*).

E ele viu os olhos cerrados, viu mais uma vez as lágrimas dela que corriam no final do refrão, enquanto o bichão de asas de metal levantava. “But I know, that I love you so”. “Adeus, adeus”, este filme não poderia terminar diferente, com chuva e cinza. “Adeus, minha música sempre foi triste, triste assim...” A cidade cinza sempre foi triste, ele sabia. O adeus silencioso e imóvel também era. “Mas sei que te amo muito... adeus, adeus...” Um dia a tristeza vai passar, ou vai voltar, doer, quem sabe... “Agora, só o velho continente me espera, com um novo rock and roll. O velho continente precisa ser novo, um novo rock and roll!”

No hall, ela secou as lágrimas com as costas das mãos macias, e sentia-se tão rouca e cansada como Plant no final da canção. A música cessou, e a chuva cessara também naquele entardecer. O avião levantava voo, levava ele pro outro lado do oceano, enquanto o bichão ficava cada vez menor e sumia no pôr-do-sol, um sol brilhante, onde foi parar o frio?

“O frio foi embora, e ele também já se foi”.

No lado B do cassete no walkman dela, já rolava um velho rock and roll. “As pedras vão rolar. As pedras precisam rolar!...”

(*) “The Rain Song” – Led Zeppelin

(2003)

CRiga.



Apenas um rótulo psiquiátrico

 

O que resta
Não tem festa
Nem fresta pra escapar.

Não tem alguém pra dizer
Nem um ‘vai ficar tudo bem’

Sensação de morte certa
A qualquer instante
E tudo bem.

O breaknews que te sacode no dia
Não devolve sentido às coisas à noite.

O que presta?
A mescla da vontade de dormir
À de não mais acordar?

O cheiro do asfalto molhado na avenida
E o som do pneu dos carros que não cessam
Nos dias chuvosos e sem direção.

A sensação de solidão eterna eterna
Ninguém ninguém te acompanha
Te dá a mão pra sair da cama
Ou simplesmente te compreende.

Uma vontade de chorar
Sem saber por que
Ou ter por que chorar.

(26.ago. e 10.set.2026)

CRiga.


 

sábado, 29 de agosto de 2026

Cansados de guerra

 


Meu dedo em riste que ainda insiste
Nem um dia congela
No medo da pressão do ar.

Mas nada me faz mais falta
Do que sentir a falta de alguém.

Aproveita agora
Amanhã teus planos serão tapetes.

Aproveita sempre –
Ontem os teus sonhos
Eram só projetos de computador.

A memória sempre falha, meu amor.
Vamos então trocar a roupa
E sair de noivos na noite nova?

No reduto reciclamos discursos
E só levamos um níquel de reconhecimento.

Recitamos O Capital com arte
Porque a morte é pena capital.

Afinal o que mais valia
Senão viver enganando o não?

Vem pro meu lado
Vem comer um morango mofado
E vestir o sobretudo da desilusão.

CRiga.




Virada

Procuro algo que mantenha minha meia luz
Uma ladeira de antigos ladrilhos
Cujos brilhos num beco do Centro
Reflitam os caquinhos charmosos
E preciosos de uma amiga lua cheia.

Um bar aberto
Uma ficha
Um jukebox
E um flashback.

Quem quieto decorando o corredor
Bate os dedos na fórmica do balcão
E ensaia um coro baixinho no refrão.

Quem vivo pede outra música
Outra cerveja, outra porção.

A madrugada que morria
Agora era o dia
Num domingo de sol
Sem pão nem padaria.

Era um bando entoando um rock inglês
Enquanto a água que corria o chão de histórias
Espumava apenas um cheiro de recomeço.

A cidade é nossa novamente
Tem gente que dorme
Tem gente que canta
Tem gente que acorda
Sem saber o que é dormir.

O que é partir sem cantar
Sem amar de novo
Aquele velho e surrado rock and roll.

CRiga.

 


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Casulo


Há uma sensação que persigo
Abrigo, dever cumprido.

Há uma sensação que devo muito.
Perigo, eterno medo de desiludir.

Ninguém nunca me viu por dentro.
Daqui saem etílicas borboletas
Secos dragões cujos sorrisos
São sinceros e preocupados.

Haverá memórias de fogueira.
Distantes, não farão revoluções.
Dúvida é se existirá um jardim amnésico
Cujas rosas não peçam documento
Pros beija-flores da madrugada.

Eu tenho a idade, só não tenho tempo.
Quero beijar sem culpa, de barba
Voar sem horários de museu.

Não quero crianças fingindo interesse
Nem a cor forçada na exótica fotografia
Calando as verdades das minhas rugas –

Elas poderão com falsa propriedade
Recitar poemas e apenas te enganar.

Nunca pisei o chão da maioria dos pés.
Nunca vivi o tempo das verdades eternizadas
Enlatadas numa festa de jubileu.

Eu durmo num casulo eterno.
Inferno pra mim
É me tornar.

CRiga.
(agosto/2018)





segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Já é tarde

 


O bom vinho mancha de leve a borda da taça
A solidão também é uma boa amiga
Se vier de mala desfaz logo na sala
E me dá o frio souvenir da tua viagem
Só não vem comigo pro meu quarto
Com esse ar de verão da idade
A vida acontece sem você
O resto é inteiro sem você
Só você não sabe
O quanto fui feliz.

CRiga.


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Cadafalso

 


A hora se arrasta nos ponteiros débeis da solidão
O que me resta senão puxar a corda, a forca
À força arrancar o capuz do carrasco
E finalmente encontrar você.

CRiga.