sábado, 25 de abril de 2026

Premeditado

 


Pelos meus cálculos o resultado
Acaba sendo sempre o mesmo –

Zero, um vazio imenso na noite em branco.

Prova dos nove.

Prova de fogo.

No final do jogo o que não sei de fato
É apenas te esquecer.

Pra disfarçar à mesa do bar
Enquanto espero você chegar
Finjo que falo com alguém
Que planejo algo importante.

Eu já não tenho mais aquela voz
Pra acompanhar o refrão de “Black”.

Mas o que aprendi muito bem
Nas noites escuras que você não vem
É assassinar expectativas.

Nisso me tornei o melhor
E mais perigoso serial-killer da cidade.

Metódico
Preciso
Indiferente
Anônimo.

Minhas pistas são poemas
Meus motivos, meus dilemas
A polícia dos teus olhos
Nunca vão me capturar.

Sequestrar tua sombra apenas num boato
O cálculo exato do crime perfeito:

Prendê-la então no frio cativeiro
O porão escuro que plantaste faz tempo
Bem no fundo deste peito.

CRiga.




À francesa

 


Pra fazer o tipo, te impressionar
Juro esta noite sair daquele jeito
O meu jeito
Daquele mesmo nosso bar,

Cambaleando
Te amando como nunca
E sempre amei.

Embriagado
Apenas de você.

CRiga.




quinta-feira, 23 de abril de 2026

Autodefesa

 


Arregimentei exércitos para te matar
E você, covarde,
Simplesmente se escondeu em mim.

CRiga.

 


Troque a roupa da poesia

 


Renovar o armário, o repertório
Revolver a alma, a rima
Armar-se da calma, do clima
E devolver-se ao começo.

Relembrar que um dia
Havia a pureza baunilha
Em vez do fermento da experiência.

Atirar contra ti num bilhete
Este amor inconsequente
Insistente, bobo
Bom.

Desmofar o morango esquecido
Numa desbotada lancheira da infância.

Desnudar a alma armada com a elegância
De um singelo e bem-apessoado
Novo poema de amor.   

CRiga.




terça-feira, 21 de abril de 2026

"To pretend"

 


Pretendo te odiar com a originalidade decente
De um anjo decadente que recuperou as asas
Mas desaprendeu a voar.

Pretendo me salvar
Antes de o meu inferno te engolir –
Vou negar a mão, te deixar escorrer leve
Na lava incandescente que habita dormindo
O fundo de um coração agora vulcão.

Pretendo poder ser feliz de novo em público
Tirar meus óculos escuros na multidão
E sentir o brilho azul dos olhos combinar
Com o simples dia que seguirá sem você.

Pretendo ser o blasé mais amável da cidade
Quando por acaso te encontrar sem querer.
Não me verá sangrar, nunca mais enfarto
Parto minha cara em mil
Mas nenhuma expressão você terá de mim.

Pretendo aprender a dizer verdades
Escrever maldades que você não vai ler.

Pretendo te odiar quieto como num coma profundo
Num túnel branco sem fim, sem destino –
No leito santo dormirá um menino sorrindo

Imóvel
Inacessível.

CRiga.




Uma pureza de office boy

 


Já não corro mais atrás de faróis verdes
Mas também não fico parado na calçada
Frente à avenida de uma vida sem carros.

Nem por isso morro.

Eu não corro mais por você
Não morro mais por você.

Não fico mais parado na sua
Na rua
Esperando você me atropelar.

E por isso não sofro.

Eu já não sou mais aquele bobo office boy
Talvez um pouco daquele tolo romântico sem teto 

Novos edifícios sobem encobrindo a visão
Ruas amanhecem contrariadas em contramão
Mas a gente nunca muda por completo.

Eu agora vou tranquilo pela calçada, sem pressa
De alcançar meus poucos e renovados ideais
Nada grande, nada absurdo
Nada da solidão de um quarto escuro.

Os carros não cessam na avenida
E mesmo que a cidade pareça encolher
E comer as quebradas calçadas de antigamente,

Eu sigo em frente, na paz de um olhar azul
Num sorriso guardado a quem cruzar o meu caminho
Disposto a se atropelar de caminhões
Carregados apenas de boas intenções.

CRiga.




segunda-feira, 20 de abril de 2026

Fotografando espíritos

 


A espera parece mais longa quando a chuva cai. Meus amores, minhas dores – no asfalto molhado todos perambulam com seus guarda-chuvas furados, cada um com sua cor em uma via sem volta.

A espera é fera que hiberna nas trevas da alma. Ruge uma dor que ecoa do fundo da caverna úmida e que cheira a mato molhado.

Quem espera sempre dança a valsa da solidão no silêncio da casa fria. Casa com o padre, reza com o bêbado caído na esquina.

Me espera, não vai agora. Eu tenho cartões postais em branco pra gente sonhar. Um vestido de festa e outro de casamento. Um baú vazio, uma garrafa intocada de licor. Uma cama de solteiro, a gente joga o colchão no assoalho.

A chuva da espera molhou toda a minha casa – distraída deixei janela aberta pra alguém me invadir, eu queria ter asas pra voar até você. A espera parece mais alta quando o céu se abre e o sol não traz mais novidades.

A espera se transforma com as nuvens sombrias em torno da lua, na noite que cai da minha estante e se quebra mil caquinhos, um porta-retratos ainda com foto de revista e um anjo azul de bibelô empoeirado, lembrança de um sobrinho que nasceu, cresceu e viajou ao estrangeiro.

A espera é acreditar em filho de virgem. Uma prece, me esquece, me marca num muro, prefiro ser Madalena. Me atira na vida – mas não me espere chorar.

No compasso do ponteiro do relógio parado vou te atraindo pra armadilha: serei a bruxa que vai te transformar no sapo, serás meu anfíbio de estimação, e você terá que esperar um beijo meu te libertar de novo. Só que meus lábios secarão com o ar de outono, e estaremos presos um ao outro.

A espera é o brejo feio e fedido da floresta negra das fábulas que assustam as crianças. É a impossibilidade de contar belas histórias aos casacos pendurados na cadeira da sala de jantar. É a solidão dos deuses loucos. É o dedo em todas as feridas da trouxa autocompaixão. Rasgar a carne, sangrar líquidos sem cor, chorar lágrimas imaginárias e etílicas de guaraná. E dormir soluçando baixinho esperando o despertador tocar pra espera recomeçar com o dia sem as flores à porta.

Café amargo, janela aberta, estou pronta – que venham então as cartas em branco que ontem enviei pra mim.

CRiga.