segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Um engano de vida

 


Na sua solidão de fila no caixa-eletrônico, pensava em relatórios e contas.  “Oi!”, ela disse, tão linda menina. “Não se lembra de mim, não é?”, emendou, logo com um beijinho no rosto. Não se lembrava. “Ah, devem ser os óculos novos...”. Tirou.

Ele ainda franzia levemente as sobrancelhas, como quem se esforçava em tentar lembrar. “Puxa, não se lembra?”, insistiu ela, olhinhos tristezinhos. Os óculos dele, de aros pretos, também eram novos - por isso os tirou pensando estar com a vista atrapalhada.

“Ai meu Deus, me desculpe... pensei que fosse um amigo meu... desculpe”, foi-se, encolhida, correndinha.

Ele ficou olhando ela ir, parado no tempo, esperando um beijinho de volta. Desabou na decepção de se lembrar quem ele mesmo era. Devagar, vagando, colocou de volta os óculos novos, e reafundou-se em sua solidão de filas, relatórios e contas exatas do salário. Tudo consumido no sustento do lar materno, nada sobraria no fim do mês. Nada.

Só a voz da mãe, irritante: “bonitos óculos, meu filho... você ficou muito bem”.

CRiga.




quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Still Stone

 


Eu não me atirei feito a primeira
Não estava no teu caminho
Nem no teu sapato.

Água que bate em mim
Desiste e segue seu curso.

Eu faltei quando as chuvas de março 
Finalmente fecharam o verão.

Na amarelinha da rua da tua casa
Eu passei pelo céu e pelo inferno.

Eu só rolo num solo de guitarra
Não adianta querer me lapidar.

CRiga.




terça-feira, 22 de setembro de 2026

Tupperware

 


Até que por aqui se esvaia o que é passado
Eu vou colocando coisinhas novas nos lugares.

Nada de tiranossauros de ouro nas prateleiras
Nem conjuntos de panelas espaciais de promoção.

O segredo é apenas não amaldiçoar o que se quebra
Porque o tempo é implacável contra o que não é eterno.

Se é que existe
Algo de fato eterno.

CRiga.