segunda-feira, 4 de maio de 2026

On the road num solo de “Free Bird”

 


Contra tudo
Contra todos
Contra mim mesmo.

Saí na velha noite fria conhecida de domingo
Tentando conquistar tudo
Enganar a todos
E me reencontrar.

Noites que se parecem, todas iguais.
Mas eu as conheço, todas –
Até aquela em que quase morri
Sangue seco e coração na goela.

Assim como as noites de domingo
Eu também te conheço muito bem!
Você acha que não, mas eu conheço…

Sabe como?
Quando me perco em você.

Sei de todas as rotas
Recônditos
Quebradas
Que me fizeram enlouquecer.

Sei de todas as esquinas
Cruzamentos
Encruzilhadas
Que me fizeram quebrar a cara contra os muros.

E eu te quero mesmo assim…
Até você amassar
Gastar
Tripudiar
Neste coração que é só teu.

Ele é feito pneu remold on the road –
Só preciso saber o que me segura nas tuas curvas
Quando me perco.

Depois é só ligar o rádio
E continuar viajando nessa estrada
Naquele longo e belo solo de guitarra.

CRiga.




sexta-feira, 1 de maio de 2026

Elegância

 


Faltava o arremate
A assinatura depois do ponto final.

Um encontro por acaso
Um discurso preparado há milênios imemoriais.

Faz tempo que te espero atento nesse bar
A tempo de me desculpar.

Te relembrar que alguém sempre ganha
E que o outro
Nem sempre precisa perder.

Pede pra mim o meu sorriso
Você pode, ele é teu.

Mas já aviso:

Beijá-lo é o infinito!

 CRiga.




Entre o sol e a lua

 


Pessoas nuas e confusas
São apenas pessoas que a gente encontra
Nas noites que não têm mais fim.

Mas minha roupa tá aqui pra te vestir –

No cobertor de meu abraço
Só fica com frio quem quiser sentir.

Para Andreza

CRiga.


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Classificado de jornal

 


É preciso escrever uma poesia
De dia, na noite quebrada
Na esquina mal iluminada
Cacos de vidro viram diamante.

Precisa-se de um poeta
Dizia a placa à entrada principal
Um classificado de jornal:

“Alugo vagalumes –
Pago com letras a vista
Que enxergar apenas poesia”.

CRiga.




domingo, 26 de abril de 2026

Diariamente

 


Vou gastar todas as letras, frases e poemas
Como quem lima a faca até a pedra gastar-se inteira
E restar apenas o pozinho cinza encrustado no fio
Que vai embora com a água da última lágrima
Numa da manhã de sol cortante
Independente, importante
Sem mais você boiando na poeira
Refletida no calendário da geladeira.

CRiga.


Not enough time


Talvez eu não tenha de fato
O talento nato pra te conquistar
Numa mera qualquer sexta-feira.

Talvez eu desperdice o sábado numa ladeira
Tentando te fazer entender numa prece
Que nem tudo simplesmente acontece
Só a partir do teu olhar tão lindo.

Mas eu tenho todo o domingo!
A sensação certeira de que você
Durante a noite, o dia
Gostaria de me ler, de me ter
De me ver, cílio contra cílio
Olhar afundado no olhar.

Eu nunca vou deixar de compartilhar
O que de mim eu sei o que é bom
E que talvez não faça parte mesmo do teu entendimento
Do que é ter o talento
Pra conquistar um coração.

O teu coração de fim de sexta-feira
E de um sábado inteiro sonolento
Esperando a sorte numa noite incerta
Num outro bar de fraco movimento.

Eu ainda tenho um caderno em branco
E um coração aberto aos dias da semana.

Eu tenho o talento de ouvir o tempo
Que me diz
Que quem não me quis
É porque apenas não conhece bem
A graça que a poesia tem.

CRiga.



 

Clarice

 


Clarice
Sempre teve cara de Clarice.

Nem sempre foi Clarice.

Sempre foi clara, meiguice
Vezes foi bem perto
Outras, distante.

Vezes foi medo
Na menstruação atrasada
Vezes foi desejo de brincar
De ensinar a ler
A escrever
E a cantar na brincadeira de roda.

Clarice sempre foi filha
Que nem mesmo a porralouquice da juventude
Pôde fazer esquecer.

Clarice sempre foi pura
Foi menina, mulher
Orgulho do pai coruja
Amiga do pai amigo
Loira, morena, ruiva
Esperta, alegre
Líder de torcida
Chefe de acampamento.

Aba do boné pra trás, moleca
Boneca de cera, jóia psicodélica.

Clarice sempre foi diferente
Atriz de teatro
Cantora com o violão na praia
E um luau sob o eterno verão.

Ela sempre teve cara de Clarice
De magia
Paz
E energia.

Clarice
Cara de lua
Brilho de estrela
E calor do sol.

Nem sempre foi Clarice
Mas sempre teve cara de filha.

Não demora pra chegar em casa, Clarice
Não demora pra nascer, meu amor!

Cauê,
9 de fevereiro de 2000