domingo, 22 de março de 2026

Mês três

 

Misterioso como geralmente o mês de março
Me comove e me salva.

Eu nunca espero dele qualquer milagre,
Mas ele vem, emolda de novo
A letra cursiva
E me surpreende.

Quando um dia desse mês
Eu finalmente me reencontrar,
A forma da letra será apenas um detalhe
Que não caberá mais
Na linha de qualquer caderno azul.

CRiga.




A primeira e a talvez última por você


Quero que alguém me leve
Bem perto do fim do mundo.

À beira do precipício
À fronteira do impossível.

Acima das nuvens
Nos recônditos do inferno.

Quero sim que você sinta falta dos meus olhos
Te comendo a alma numa nuvem azul.

Quero o lugar onde haja uma rosa pra comprar do jardineiro
Mesmo que não haja mais você pra florear.

Mesmo que não haja qualquer você
Ou qualquer rosa ou qualquer jardim.

Porque eu já sei de todas as esquinas quebradas
Dos infernos e dos nadas mais.

Já sei das esperanças perdidas
Das lembranças esquecidas
Dos dias que a gente viveu
E das noites que a gente morreu de prazer.

Eu sei de tudo e um pouco mais.

Só não sei se você topa vir comigo
Descobrir o que já é.

Conhecer você.
Porque teus olhos e tua boca
Me fazem sentir uma vontade louca
De ouvir música brasileira.

Para Luana

CRiga



 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Todo carro vermelho na esquina daquele bar

 


Eu espero que lá de dentro do seu novo carro
Você me olhe de soslaio
Me redescubra
E me sorria.

Que pare naquela mesma esquina
E abra a porta em câmera lenta.

Como num filme, o cabelo novo esvoaçado
Num falso descuido de mulher
Que pensa que sabe muito bem o que quer.   

Espero que desfile em frente ao velho bar
Me encarando esperando um sinal.

“Incomodo?

Nunca. Senta aqui comigo. Deixa eu te explicar.

Você foi rude...

Não sou eu. Mas foi preciso.

Preciso?

Preciso e necessário.

Não entendi...

Eu sei, você nunca entende mesmo...

Não entendo o quê?

Não entende que você não pode ter tudo.

Mas eu não te quero mais.

Eu sei...”

Mas quer o balcão do meu coração!

Cotovelo se fazendo distraída
Apoiado na fórmica vermelha desbotada
Num lamento do que não deu certo
Apenas pra você.

Mas chegastes atrasada, como sempre.
Agora na porta há apenas uma placa fria
Tinta fresca amiga e sincera –  

 ‘Estamos sob nova direção’.

 CRiga.



domingo, 8 de março de 2026

Falta simplicidade pra gente

 

Passei o dia comprando lâmpadas de led
À noite faltaram velas quando a luz acabou.

Isso não é sobre ligar o interruptor
Nem sobre a cera que estraga o tapete.

CRiga.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Soul

 


Quando a gente esmorece
Quando a gente estremece
Esquece que tudo transita
Inclusive o verbo, o verso
A vida.

CRiga.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ácido de sobreviver

 


Não ligo pra café, não gosto de carnaval
Desligo minha rede social
Tiro minha barba, não quero ser igual
Eu sobrevivo o invisível da multidão.

Eu não te odeio, mas também não te quero mais
Eu só espero que você me deixe em paz
Para trás, que seja, em qualquer porão
Isso não é uma competição.

Eu não vou ao samba porque você resolveu gostar
De sambar, de beijar.
Eu não vou beijar porque você resolveu “curtir”
Não vou sair à procura de substituição.

Eu vou é para o rock que era “nosso”
Apenas pular cantar dançar gritar
Porque é isso que eu sei fazer
Sem precisar me entregar a ninguém.

Sem precisar deixar de ser autêntico
O garoto tímido da paz dos olhos azuis
Que não vai querer usar ninguém
Pra se sentir vivo ou melhor que alguém.

CRiga.




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Apenas o que eu preciso fazer

 


Me deixa claro
Por favor, se puder.

Me olha no olho
Me encara que nem daquela última vez
Se for capaz.

E eu nem me lembro mais
Se teve paz ou última vez.

Eu nem me lembro mais
Da última vez naquele qualquer cais
Que você tirou até sangue de mim.

Eu nem me lembro mais.

E tanto faz.

E tudo bem.

Depois a gente vê.

Porque depois no meu tempo vago
Não reclama –

É só poesia que me chama
É só poesia que eu sei fazer.

CRiga.