Desmofando Morangos
Cauê Rigamonti
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Timidez
O ártico na boca do estômago é simplesmente te ver chegar, e
chegou, com atraso, um arraso entrando na sala! A aula passa, eu olho, você
conversa, a professora chama sua atenção. Você apenas sorri, recolhe o corpo à
carteira e finge que não foi com você. Foi pra mim que sorriu? Acho que sim!
Acho que não… A aula passa arrastada, eu engulo seco esse correr rápido demais
do meu coração. Finalmente o sino bate, é hora do recreio: agora é fogo gelado
no peito, a espera, a ansiedade, o bilhete escondido na mochila, ninguém vai
ver. Saio à sua procura, eu trouxe um lanche a mais pra dividir e você só anda
dando voltas no pátio junto a colegas, não para nem prum oi. Na volta, em fila
pra sala, todos sentam e eu só continuo olhando pra você. Esperança: trabalho
em grupo! Cruzo os dedos, é a professora que vai montar – não ficamos juntos,
será que um dia vamos ficar? Seus dedos passeiam por dentro da mochila
procurando não sei o quê, desfilam, reviram, puxam o caderno e lá se vai meu
bilhetinho ao chão... Um “não...” sai meio surdo da minha boca, a professora
observa, pergunta o que foi. Não foi, professora. Talvez nunca será...
CRiga.
Cafajestes
Eu me vejo manchando o teu vestido de casamento com o
vermelho sangue de meu ciúme doentio – calma, sem páginas policiais: apenas a
taça do vinho que a gente não tomou porque você estava tão atrasada pro
fatídico dia da noiva, eu te dei carona e nem cobrei a gasosa. Então vai meu
bem ficar tão lindamente atrasada pra gente brincar de rasgar vestido no ato
consumado da festa da tua felicidade muito bem disfarçada pela pesada maquiagem
cara, champanhe e padrinhos que gastaram uma graninha besta em presentes pra te
ver feliz nas fotos do futuro álbum. Nem aquela cena ridícula de novela das
oito existe mais nas igrejas pra eu te condenar, aquela que o padre pergunta se
há alguém que tenha algo a dizer contra esse casamento que fale agora ou
cale-se para sempre – diria mataram o mensageiro do amor com um tiro certeiro
no peito, e, menos poético, teu noivo comeu tua prima por trás na tua cama
ainda quente de manhã enquanto você tomava banho, tua família é uma farsa de
corruptos e gente de passados duvidosos, você é a única que presta um pouquinho
pra uma traiçãozinha nada demais antes do casamento... Mesmo na Santa Igreja
não saberia mentir tanto. Casamentinho de merda! Me devolve então a grana Maria
gasolina, Maria mãe de um deus que não acredito, Maria
vai-com-as-outras-foi-comigo, ah, Maria! Eu te amaria tanto se você não
dissesse sim, carregaríamos garrafas pelas ruas e cairíamos esquinas pelas
noites sem fim até que alcançássemos a cama mais uma noite, a gente gritando
urros de prazer na madrugada até o amanhecer te chamar praquele empreguinho de
merda e o meu eterno vagabundear fingindo trabalhar numa redação de jornal. E
só te trairia com escritos mais românticos, não marginais. E você se ofenderia.
E por vingança finalmente se casaria, certa de querer ser eternamente infeliz.
CRiga.
Um engano de vida
Na sua solidão de fila no caixa-eletrônico, pensava em
relatórios e contas. “Oi!”, ela disse,
tão linda menina. “Não se lembra de mim, não é?”, emendou, logo com um beijinho
no rosto. Não se lembrava. “Ah, devem ser os óculos novos...”. Tirou.
Ele ainda franzia levemente as sobrancelhas, como quem se
esforçava em tentar lembrar. “Puxa, não se lembra?”, insistiu ela, olhinhos
tristezinhos. Os óculos dele, de aros pretos, também eram novos - por isso os
tirou pensando estar com a vista atrapalhada.
“Ai meu Deus, me desculpe... pensei que fosse um amigo meu... desculpe”, foi-se, encolhida, correndinha.
Ele ficou olhando ela ir, parado no tempo, esperando um beijinho de volta. Desabou na decepção de se lembrar quem ele mesmo era. Devagar, vagando, colocou de volta os óculos novos, e reafundou-se em sua solidão de filas, relatórios e contas exatas do salário. Tudo consumido no sustento do lar materno, nada sobraria no fim do mês. Nada.
Só a voz da mãe, irritante: “bonitos óculos, meu filho... você ficou muito bem”.
CRiga.









