quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Métrica da vaidade

 


A confortante chuva nestas noites de verão tem acalentado o meu silêncio, tem me devolvido um pouco mais de mim. Aos poucos.  Antes eu não me suportava, agora já me aturo.

Coleciono dias e noites quase iguais numa pasta da data do dia, é tudo do que preciso – uma trilha em círculos imperfeitos (não quero nada perfeito), regando as plantas sem precisar mudá-las de lugar.

Durmo cedo, acordo cedo. Reclamo da nova chefe e das demandas emergenciais – pra não perder o costume. E recebo um elogio no final do dia.

Um livro – uma boa história é minha melhor acompanhante à cama agora. Há capítulos de aventura, amor, drogas e sexo que me lembram que a vida também é e era assim. Mas estou me anestesiando de ar pra sobreviver.

A porta de saída do apartamento raramente me dá um porquê, e todos os outros tenho procurado enterrar. Não estou pronto. Nem pra apenas caminhar.

Eu abri mão de muita coisa – é o preço que pago, cordato e seguro, pra comprar de volta a minha paz. E ela nem é tão cara assim, mas há um especulador nesse mercado de almas querendo tudo pra si. Métricas de vaidade disfarçadas de um pedido de ajuda que, no final, custa muito muito caro só para mim.

Prefiro agora abandonar a casa se consumindo em suas chamas, a casa que não é mais minha, do que sempre me queimar no final. E assim fico bem. Olhando a chuva me salvar.

CRiga.




sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Lista de sobrevivência

 


Signo às coisas
Rumo ao espírito
Corpos aos desejos
Independência ao caminho
Amnésia à dependência
Música à sem-gracisse
Quadros às paredes
Verdade posta à mesa
Um sorriso singelo
Amarelo então que seja.

CRiga.




Me devolve meu verso quebrado

 


O que me dói
Não é a tua ausência.

É remover diariamente o pó de sempre
Dos cantos desse apartamento moribundo
E nem ali eu conseguir me encontrar.

Não é apostar abrigo
Em rasas possibilidades.

É este caminhar num silêncio profundo
Enquanto o mundo nega me devolver
A minha rima, ainda que quebrada
Numa esquina de noite qualquer.

O que me dói é a minha ausência
Minha falta de paciência
De parar e escrever um verso
Que não seja por você.

CRiga.




sábado, 24 de janeiro de 2026

A vida dá um curta a cada semana

 


Quando eu voltar do futuro
Numa blitz à meia-noite,

Eu não quero olhar para o relógio
Nem me comover parado no tempo
Polindo o cinza de um Fork Ka selvagem
Num dia ensolarado
Numa estrada que tem nome de funil.

Eu não espero a abóbora carruagem
Nem a bicicross cruzando a lua cheia.

Eu já aprendi a superar as tragédias do mar.
Já apunhalei a bruxa velha da Branca de Neve
Dormindo tranquila na cama do meu pai.

Já tive o privilégio de quebrar o vidro caro
Por alguma confusão de amor.

Já falei do vento que te levou.

Já falei do tempo
E de Drummond.

CRiga.




A minha preta



Era um sábado triste
De notícia triste
De tempo triste
De pessoas tristes.

Até os bonitos e as belas
Eram tristes, pobrezinhos.

Os bebês, as crianças, os casais
Brincavam tristes por obrigação.

Apenas aquela preta sorria.

E me enchia de alegria!

CRiga.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Para o meu vermelho preferido!

 


Aproveita que tou fácil, me chama
Praquele depois de amanhã talvez.

Avisa aí de novo o teu novo amor
Que eu pretendo revisitar projetos.

Tem jeito de amar que não é nada pop.
E tem jeito top de a gente ainda se falar.

Tem jeito de a gente se gostar!
Sem querer procurar sarna
Pra você sabe onde é que vai dar.

CRiga.




terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Em mim

 


Nesse labirinto o Minotauro já é um velho amigo
E sair daqui agora nem é mais questão de esforço -
É de se vale a pena me perder de novo
Em outro lugar.

CRiga.