Desmofando Morangos
Cauê Rigamonti
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
A vida cavalga
É o inverno que muda as coisas, me faz lembrar de você de
novo como se eu fosse a culpada por não se feliz. Talvez seja mesmo, talvez
você nem se lembre mais de mim, então remexo velhos pertences e não me
encontro, só encontro você. Remexo números, não te encontro, ligo à
telefonista, simpática, quase chora comigo, esses homens que nos esquecem são
foda... Esse é o número mais próximo, então ligo, você não está mais lá, mas
alguém diz “ele está em tal lugar”. A telefonista me dá então a porra do número
do tal lugar, sem certeza penso te encontrar, alguém atende pelo teu nome, te
encontro, é você, meu antigo amor!
Simpático como sempre! Casado, mas simpático. Com um filho, mas tão amoroso como sempre. Mudei de casa, você não sabia, e você me disse que foi me procurar numa noite com flores e vinho às mãos, e que por isso não me encontrou. Mentirinha bonitinha, me conquistou. Que saudades de você, do seu beijo, do seu abraço, do seu amasso. Acho que aproveitei pouco, muito pouco, não te dei devida atenção, eu sei, me arrependo, sou libriana, quero tudo vindo, quase nada indo.
Mudei de jeito também, você não sabe? Não saio mais em tantas baladas, parei de fumar, me conheço mais, gosto mais de mim, estou só um pouquinho mais gordinha, sem tanta diferença, acredite, estou mais bonita. E não cavalgo mais, você acredita? Eu também. Só falta você pra completar, mas não tenho coragem de dizer. A vida cavalga, eu parei.
Determinado momento você disse que é importante agarrar as chances quando elas vêm. Não esperar que aconteça, apenas estar esperta para a hora que acontecer. Sei que não foi por querer, mas parece que isso me feriu lá dentro, sem você perceber. Eu sei que não foi por mal, meu amor, nada vai me fazer tão mal quanto esta vontade de te pedir desculpas sem tempo, essa vontade louca de voltar no tempo e te agarrar, esperar que aconteça e estar esperta para fazer acontecer.
Bem, me ligue um dia também. Vamos sair, quase eu disse, tomar um chope, você não pode, agora tem família e não vou insistir. É errado, nem sei se tenho coragem. Acho que teria, te beijar de novo como antes valeria. Matar-me mais um pouco por não ter você, recriar-me por segundos eternos nos teus braços que um dia me tiveram mulher.
É o inverno que muda as coisas assim, faz a gente amanhecer cinza com saudades do passado que passou entre os dedos, feito areia de ampulheta que a gente não agarrou. Eu te amava e não sabia, me perdoe, meu amor. Seja feliz, seja feliz, vou desligar. Eu ainda tenho a poesia que você fez pra mim, preciso desligar pra não chorar. A vida cavalga, eu não mais...
CRiga.
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Segredos de pelúcia
Dali a pouco ele chegaria,
provavelmente com um buquê de flores, um vinho, e depois da novela fazer amor,
na sala, no quarto dos pais ou no seu, cheio de bichinhos de pelúcia nas
prateleiras cor-de-rosa. Há quase um mês papai e mamãe viajavam pela Europa, e
ela sozinha porque tinha de ir pra faculdade - não ia. Mas o professor vinha na
casa dela. Nem novo, nem tão mais velho. Chegava todo dia na hora da aula com
um presentinho, um vinho, um licor, flores, jóias... Gostava muito era dos
bombons e de sua boa conversa.
Até aqueles seus dezenove anos não tinha experimentado nada assim. Nem sabia o que era se apaixonar. Poucos dias atrás tinha perdido a virgindade na cama dos pais, o professor. Todo dia ele vinha, todo dia ele falava muito, e ela se perdia no olhar dele, no beijo, no sofá, na cama. Aventura. Amor.
Mas aquele dia ele não chegava. ‘Tão pontual, gosta tanto de mim...’ A impaciência dela já chegava à perturbação. Foi pra faculdade procurar por ele. Ligou o carro, acelerou forte.
Na esquina, o escuro, mas ela viu: o professor e aquela loirinha da turma de Psicologia. Beijos e mãos passeando por baixo da saia da menina, por dentro do zíper da calça social do professor. E ela viu tudo, do meio da rua. Tudo parou, menos seu carro. Acelerou forte, muito forte, muito ódio. Dali a muito pouco, menos uma árvore na rua da faculdade, menos gente enganando gente nesse mundo confuso que era cor-de-rosa agora vermelho sangue, antes ursinhos de pelúcia agora ratos de esgoto, antes bombons de licor agora de ácido sulfúrico. Deu meia volta, não voltou pro lar.
Hoje mamãe e papai não sabem em que casa noturna ela vende seu corpo. Uma cicatriz na alma, um mistério, e uma cara de menina que faz sucesso. Por vingança, cobra caro, muito caro. E muitos querem, porque ela chega atropelando com seu corpo de menina-mulher, fala pouco, os homens gostam de suas roupinhas tipo universitária de Moema. No quarto eles sorriem e sentem tesão com a prateleira e um ursinho de pelúcia encardidinho.
Mas ela exige respeito. Quem sabe um vinho, uma flor, menos caixa de bombom, muito lero ou aula de romantismo. Homem bom é o que chega, paga, come, e vai sem falar o nome. Deixa vazio o que vazio está. De manhã vai dormir, consciência tranquila e agarrada ao ursinho encardidinho. Menina-mulher que dorme enfiando a mão naquela bunda de pelúcia, contando os dólares do dia.
CRiga.
terça-feira, 6 de outubro de 2026
Lá vem o sol
Eu escuto um som daqueles, um Beatles de antigamente, um
Beatles da segunda fase. E o antigamente vira agora, a hora que eu queria ir
pra escola...
Eu era moço de família careta, ia à missa todo domingo, camisa branca debaixo da calça, lição em dia, nem pensar em poesia - papai condenava, mamãe não insistia.
Lia era loirinha, pele eternamente bronzeada, filha de hippie, e a escola nem mais ligava pra camiseta por cima da saia que não era a do uniforme – eram os tempos mudando. Ela ria bastante, ria muito, e eu me perguntava por que eu não ria também. Ela brilhava muito, tanto. E eu me perguntava por que as estrelas que eu via do meu quintal não eram tão brilhantes quanto era vê-la sorrir assim.
Papai chegava a cada quinze dias com aquele uniforme militar, mamãe preparava comidas e orações à mesa enquanto a tristeza era disfarçada de família modelo da classe média.
E eu só pensava em Lia... Passei a esperar a hora de ir à escola, apenas para sorrir com sua risada lá do canto da sala, de onde eu me escondia. E um dia, do nada, Lia virou o rosto - me pegou sorrindo com seu rindo. Eu me enrubesci, queria morrer encolhido verminho de laboratório na aula de ciências.
A sirene deu o final da aula, eu agradeci. Cabeça baixa, arrumei rápido meu material e quis partir, e Lia na minha frente me impediu passagem. Esperou pacientemente eu tomar coragem e levantar a cabeça zonza de vergonha.
– Não precisa fugir - ela disse, com um sorrisinho lindo.
– Não estou fugindo - respondi, com sorrisinho no canto da
boca.
– Você está mentido.
– Não estou fugindo - eu já sorrindo.
– OK. Não está fugindo. Mas está sorrindo. Pronto!
Perguntou meu nome e respondi, já naturalmente. Disparei a falar, mesmo coisas que ela não perguntara. Ela falou muito também, fomos conversando até o portão da escola. Era a hora de cada um pro seu caminho.
– Tchau, até amanhã - ela disse, como sempre, sorrindo.
– Tchau, até - respondi, braço parado no ar, vendo ela virar
a esquina.
Foi o dia mais feliz da minha vida. Voltei para casa radiante. Entrei correndo pelo portão de casa, livre, sorridente, abri a porta com tudo, e tchum: papai falava sério, mamãe chorava. Papai pegou mais malas do que de costume, olhou pra mim seco, como de costume, e saiu sem deixar falta – como de costume. Mamãe chorava e eu não sabia por que. Muito tempo depois eu descobri – chorava não o vazio que papai deixara, mas da vida que ele roubara.
Papai fora embora, ainda era o dia mais feliz da minha vida.
Dia seguinte, a mesma vontade louca de ir pra escola. Era hora! Fui correndo, não me aguentava em mim de vontade de ver Lia sorrindo. E lá no portão da escola ela estava, conversava com amigas, e me viu chegando.
– Pra que a pressa?
– Tou atrasado - primeira coisa que me veio à cabeça.
– Quinze minutos antes? Você não sabe mentir... - leu em
minha testa.
Qual não foi minha surpresa quando ela pegou na minha mão e disse: “não se preocupe”. Aquele dia não assisti a aula alguma, porque ela me levara àquela velha praça da esquina, um banco de jardim e uma mangueira que nunca percebi tão bela, não fosse Lia comentar, com poesia nos olhos. Naquele instante, percebi: Lia havia me capturado definitivamente.
Ficamos bem perto de uma loja de discos. Acabara de chegar o mais novo dos Beatles. E enquanto isso, não sei por que, eu falava do meu pai indo embora, já era hora, na sua secura de militar com mil amantes, e minha mãe chorando no sofá da sala, e um adeus pra mim, ainda bem, porque eu diria ‘ainda bem que vai embora’, e poderia ganhar um tapa na cara que nem naquele dia quando derrubei refrigerante na sua mesa, ou mesmo quando eu cantava alto uma música dos Beatles da primeira fase bem no meio de sua santa biblioteca intocada, o cemitério da família.
No meio do meu repertório demais real, eu nunca tinha visto Lia tão quieta, prestando atenção em tudo, sorrindo aquele riso de paz misturado à menina por quem me apaixonei muito muito tempo antes de parar na minha frente, e eu dizendo tudo aquilo sem medo nem vontade de me tornar aquele verminho da aula de ciências.
– Eu gosto de você também – Lia me respondeu, com um brilho no olhar que nunca me esqueci.
Simplesmente, nos beijamos. E aquela tarde já eterna era perfeita, enquanto ouvíamos George Harisson dar um toque de esperança às fraquezas humanas, anunciando um amor não anunciado: “Here come the sun, the smiles returning to the faces/ Here comes the sun, And I say it's all right”.
Voltei pra casa boiando de felicidade, já não tão rápido demais. Só desabei quando vi, em frente de casa: um caminhão de mudanças levava todas as nossas coisas, mamãe dando ordens, homens carregando móveis. Não tive forças pra fazer mamãe mudar de ideia, e sabia não ter nem o direito de fazê-la ficar naquela casa de vidas secas. Era a sua vez, ela era ainda jovem, e os tempos eram outros.
Não tive nem como dizer adeus a Lia, e enquanto partíamos com o caminhão nos seguindo, eu a procurava em todas as esquinas pra acenar, pra gritar que voltaria pra ela nem que não houvesse mais Lennon ou McCartney, esquinas, praças com mangueiras, escolas. E naquele momento louco, eu a via em todas as esquinas, e ela não estava em nenhuma delas, talvez apenas estivesse em seu quarto, olhos brilhando no espelho esperando o dia seguinte pra gente se ver. Eu talvez nunca saberia.
E a gente não se viu. A gente era um nunca mais cravado na agulha do disco riscado - algo impedia a música de simplesmente continuar, parou num solo, não era simplesmente virar o lado ou trocar de disco e continuar a vida. A música cessou feito “Let it Be” com os Beatles, o sonho tinha mesmo acabado...
Tempos depois mamãe comprou o Abbey Road na casa nova pra renascer. E a cada vez que ela ouvia pra renascer, eu morria um pouco me lembrando de tudo que deixei pra trás. Nem soube se Lia me esperou no portão da escola de novo, nunca soube se me odiou, se chorou saudades, ou se sorriu o mesmo sorriso de brilho - porque pra ela sempre foi tempo de brilhar.
Cresci, comecei a trabalhar, deixei o cabelo crescer como Lia tinha dito que seu pai era. Seu pai perfeito, amigo, companheiro, inteligente, fã dos Beatles da segunda fase. Comprei todos os discos depois de Sgt. Peppers, só pra tentar sorrir como Lia sorria. Mas não conseguia...
Pelo menos o emprego, como já “antigamente” na escola, era a hora mais esperada: eu vendia discos. Os Beatles já haviam se separado há um bom tempo, e tocar qualquer deles já não vendia tanto assim. Numa sexta-feira, quase na hora de fechar, naquele final de tarde brilhantemente melancólico, o sol indo embora por entre os prédios naquela avenida sem movimento, desafiei moda e gerente e rolei o demodê Abbey Road.
Viajei sozinho no balcão. E eu escutava um som daqueles, um Beatles de antigamente, um Beatles da segunda fase. E o antigamente era o agora, a hora que eu queria ir pra escola...
...quando ouvi do meio das bancadas dos discos, uma vozinha cantarolando, acompanhando George Harisson:
- “The smiles returning to the faces...”
Lia!...
– Este disco que está tocando não está na prateleira. Propaganda enganosa – doce, Lia dizia sorrindo, um olharzinho pedinte misto de emoção e explosão contida.
– Comprei o último. Não há mais à venda. Eu guardei pra você
– respondi sorrindo, agora sem precisar mentir.
– Viu como a verdade sempre parece mais verdadeira. Só que
este eu já tenho. Só não tenho mais você, eu não tenho... – ela disse, e eu me
dei conta que nunca havia visto Lia chorar.
– Agora você tem, Lia, agora tem! – e eu cantarolei com
Harrison o finalzinho da canção:
“Here come the sun,
And I say
It's all right”.
CRiga.









