segunda-feira, 22 de junho de 2026

A begala


Aquela talvez fosse a última vez no dia em que entrava no apartamento recém adquirido. Depois de um dia inteiro fazendo a mudança – que, na verdade, não tinha grandes volumes –, me sentaria à pequena sala já mobiliada, e talvez tomasse mais uma latinha de cerveja. Logo que entrei, o velho e bom “Seu Carlos” estava em sua poltrona predileta, ainda nova porque comprara há pouco tempo, desde que já não podia mais dividir o sofá maior com sua esposa que morrera.

Ele me olhou bem fundo nos olhos. Não era um olhar bravo nem decidido a fazer qualquer mal. Era somente um olhar cansado, mas que em dado momento parecia ter descoberto uma verdade própria que não podia mais lutar contra. Seu Carlos estava com seu melhor terno, e me esperou sentar ao sofá maior, sempre me acompanhando com a cabeça calva, a boca seca e o bigode simpático, volumoso e grisalho. Sua velha e bela bengala de jacarandá estava apoiada no braço direito da poltrona. Olhou as palmas das mãos calejadas, arrumou o resto de cabelo que ainda existia, e pousou mais uma vez as mãos sobre os braços da poltrona. Suas pernas estavam cruzadas ao tornozelo. Levantou a cabeça a mim e disse, de maneira muito serena e aconchegante:

– Sabe... eu não deveria dizer isso, mas invejo vocês, que agora começam uma vida nova, juntos, neste pequeno apartamento onde um dia me refugiei.

– Sente muitas saudades daqui, Seu Carlos?

– Não... quer dizer, sim! Vim para cá, trouxe alguns móveis da casa onde morava com minha amada esposa, que morreu há alguns anos. Aqui eu reconquistei a paz, depois de perdê-la.

Enquanto Seu Carlos falava, fitava o teto e sorria também muito serenamente. Mais uma vez voltou os olhos a mim, já sério, mas nunca com aparência severa:

– Daí que quando vejo vocês se mudando para cá, para o mundo que me refugiei e reencontrei a paz, eu não me sinto muito bem.

– Mas o senhor também tem um belo novo lar...

– Eu sei. Sei bem que o lar que me espera é muito bonito, já me disseram. Ainda não fui lá, estou com receios... É uma bobagem, eu sei, mas às vezes pareço querer ficar...

– O senhor não atrapalharia aqui, mas acho que o senhor se sentirá melhor em sua nova casa...

– Não, eu sei que não devo ficar. Não posso ficar aqui com vocês, esse apartamento já não me pertence. É que a paz que construí aqui é difícil de deixar.

– Eu compreendo, Seu Carlos. Assim como compreendo que, com certeza, em seu novo lar reinará essa mesma paz.

–  Será? Tenho medo. Olha eu, um velho que já passou muitas coisas nessa vida, com medo... Tive medo na hora mais difícil da minha vida, quando perdi minha esposa e me sentia muito só. Eu chorava todos os dias, debruçado sobre nossa cama. Eu orava por ela, mas sentia muito sua falta. Parecia que alma dela se negava a ir embora daquela casa. Pouca coisa trouxe de lá para este apartamento, orei muito mais forte no dia que deixei a casa, e encontrei de novo a paz aqui. Vivi o resto dos meus anos sozinho aqui, mas feliz e com muita paz.

– E o senhor agora tem medo novamente?...

– Sim, um pouco. Mas, olha: da mesma forma que você tem certeza que minha nova casa também há a paz que preciso, tenho certeza de que vocês dois encontrarão a paz que procuram. Serão muito felizes, como eu fui.

– Temos então sua benção, Seu Carlos?

– Claro que têm! Glória e você serão muito felizes, podem ter certeza. O que me faltava era sentar aqui pela última vez, e dizer a você o que nunca tive a oportunidade de dizer: faça minha filha feliz, como eu fiz minha amada esposa feliz... Acho que agora começo a recuperar a coragem de me mudar daqui. Acho que era isso que me faltava. Muito obrigado!

Com seu jeito de bom velho, Seu Carlos levantou-se apoiado em sua velha bengala de jacarandá. Com as mãos apoiadas no topo dela, e com os pés juntos, me olhou ternamente e sorriu o sorriso de sua paz. Virou-se, caminhou até a porta, abriu, saiu, fechou e foi embora para sua nova casa.

Logo depois entra Glória, com a última caixa de seus pequenos pertences. Ela pára em frente à pequena sala, deixa a caixa ao chão, e senta comigo dividindo o sofá. Depois de um beijo longo, vira-se para mim:

– Nós vamos ser muito felizes!
– Eu sei que sim!

Ela se levantou, pegou a caixa ao chão e notou alguma coisa faltando na pequena sala:

–  Onde está aquela bengala de jacarandá que vimos aqui ontem?
–  Não sei...
–  Papai gostava muito dela. Acho que um de meus irmãos deve ter passado aqui e levado. Tudo bem, com qualquer um deles que estiver, está em boas mãos! Quase tudo que está aqui era dele, antes de morrer. Com o que tem aqui, já me sinto feliz! Com certeza, nós e este apartamento têm a benção dele!

– Sim, meu amor! Com certeza!

CRiga.



sábado, 20 de junho de 2026

É primavera nos becos

 


Não sabe os meus segredos
Medos
Vícios.

Nem tem obrigação de saber.

Eu sei
Os teus segredos
Os teus medos
Os teus vícios.

E eu nem tinha obrigação de saber.

A tua disponibilidade é uma cidade de sombras e escombros pra atravessar.

Desisti no meio do caminho, me desculpe -

Num canto de um beco escuro e frio
Um menino me estendeu a mão.

Ele trazia consigo os estragos da noite
Mas também os olhos de uma terna manhã de sol no parque.

Mãos dadas pegamos um atalho
Que dava na tarde ainda nublada
De uma avenida movimentada
Arquivada na memória de um coração.

Na fila do ônibus você estava
E amaldiçoava a solidão.

No walkman eu curtia um novo som
E na calçada eu seguia os rastros
Das flores da minha sempre nova estação.

CRiga.



Ao seu vulgar dispor

 


Sentirás a sorte de uma saudade inconsequente
A morte do poder dizer palavras que não assassinem expectativas
E que tragam novamente a novidade de uma certa paz.

E verás que teu o talento é transformar o diamante bruto
Em areia de ampulheta -

Uma hora a sensação do teu domínio
Simplesmente escorre entre os dedos
Num deserto de sentimentos.

CRiga.




sábado, 13 de junho de 2026

Cozinhando galo


Você já poderia ter-me inteiro
Completamente rendido
À brasa da tua vontade.

Mas deixou-me coração à contramão
Sem crença, paciência e pudor.

Amor é bicho fósforo
Tem gente que é mestre em riscar.

Outras preferem o isqueiro mofado
Cuja chama não queima
E só imita vagalume.

CRiga.

 


sexta-feira, 12 de junho de 2026

Like a legend

Melhor assim, na tola esperança
Com cheiro de jaqueta de couro.

Meu ouro cabe num três por quatro
Roto, desbotado
Dentro de um bolso furado.

CRiga.

 

A estas horas

 


Quase todos se entregam ao sono
Responsável ou digno
De quem pode ou consegue dormir.

Tranquilo

Sozinho

Consigo

Com um amigo

Um amante

Um fantasma.

Com um corpo apenas frio
Que nem mesmo a morte
Tem a sorte de ter ao lado.

CRiga.