Pra gente cair bonito do alto do nosso pedestal
Quebrar a cara no asfalto real
E ser socorrido e recomposto
Pelo amor de alguém.
CRiga.
Cauê Rigamonti
Pra gente cair bonito do alto do nosso pedestal
Quebrar a cara no asfalto real
E ser socorrido e recomposto
Pelo amor de alguém.
CRiga.
Eu posso ainda não ser
O candidato a amor da vida de alguém
E tudo bem.
A gente deve aceitar nossa própria ausência
Mas perceber a presença que não pede licença.
Ontem mais um jovem tirou sua própria vida.
Amanhã
É aniversário da pessoa que mais amo nesse mundo.
A cada dia
A gente aprende que a vida é cuidar de amores
Entender as dores
E fazer escolhas que não precisam necessariamente rimar.
Porque arcar com as escolhas
É a forma mais verdadeira de liberdade
Que a vida pode nos presentear.
Mas escolha também
Sempre dedicar amor
A alguém.
CRiga.
Se um dia eu fosse prefeito, eu asfaltaria aquela ruazinha que dá na avenida da escola onde estudei.
***
Aquele era o caminho mais curto pra escola. Mas eu pensava duas vezes antes de seguir, dependendo do horário pra eu não chegar atrasado.
O problema nem era a trilha no meio do mato naquele terreno que hoje é condomínio. Problema era o fim da trilha dar numa pequena rua sem asfalto, onde moleques corriam, jogavam, lutavam e não se preocupavam com horários de escola.
Eu passava apressado não querendo ser notado. Garoto do outro lado do bairro que pegava atalho e acabava na “vila”. Impossível não ser zoado pelas costas, pela frente, pelos cantos. Eu era o garoto tipo filho de mamãe – mãe separada, faxineira de ônibus de viagem.
Maioria das vezes eu conseguia não precisar pegar a trilha. Mas as vezes que precisei não cabem nem na memória, porque devo ter deletado humilhações. Mas me lembro bem do mais valentão, que me chutava a bunda quando eu passava. O que mais falava, mais ria, mais zoava. E eu seguia em frente de cabeça baixa, sozinho no meio da rua de terra da vila.
***
Que bom que as férias chegaram! O mais legal foi um garoto novo na rua jogando com a gente – era o Cléber, sobrinho da vizinha da frente que veio passar uns dias na casa da tia. Mais velho, grandão, inteligente, gente boa. Encrenqueiro. Logo era o “dono da rua”, todos gostavam dele – inclusive minha irmã. Ficamos amigos de verão.
Um daqueles dias, correndo atrás de pipa que escapou do laço no manda busca, acabamos no meio da trilha caminho da escola. Cena de faroeste – a pipa já estava nas mãos do moleque valentão.
– Vamos embora, Cléber.
– Calma aí, por que a pressa?
– O menino já pegou.
– E daí? Vamos tomar!
– Não, daí que depois das férias tou ferrado, sozinho passando na rua dele...
– Como assim?
– Esse moleque sempre encrenca comigo...
– Ah é?! Esse moleque aí?! Vamos ver!
Meu coração disparou, e Cléber nem ouviu minha voz baixinha numa última tentativa: “não, dexa quéto...”
Com um tamanhão bem maior que o moleque valentão, Cléber foi chegando mansinho na sua direção:
– Ô moleque, dá esse pipa pra mim?...
E o valentão caminhando pra trás:
– Não, foi eu que peguei...
– Dá esse pipa pra mim?...
– Não...
Cléber num bote tomou a pipa da mão do valentãozinho:
– Dá essa porra aqui, moleque!
O menino foi embora com bico choroso, e Cléber se voltou todo dentes brancos me entregando o que sobrara da irrecuperável pipa que corremos atrás.
***
As aulas interromperam aquele verão. E eu tinha que passar de novo sozinho pela trilha. A vida segue...
Atravessei. Cheguei àquela mesma rua, do mesmo jeito, a Prefeitura ignorava asfaltar. E os moleques jogando taco – que eu jogava muito bem também, aliás, só que lá do outro lado, no meu bairro todo asfaltado.
Já na esquina entre a rua de terra e a avenida da escola, a bolinha de tênis acertou em cheio meu cocuruto, mas sem dor alguma. Gesto automático, me virei e o valentão na outra ponta da rua me olhava com uma expressão de “sem querer”:
– Ô, desculpa aí!...
Minha resposta serena foi apenas o polegar da mão direita pro alto. Virei e segui tranquilo o caminho pra escola – a partir daquele dia, sem mais medo nenhum do final da trilha. Na minha imaginação, tinha ali na esquina uma placa azul com o nome da rua que a Prefeitura resolveu asfaltar:
“Rua do Cléber”.
CRiga.
Um punhado de gente sem cultura.
Uma xícara de assunto polêmico.
666 colheres de malícia.
Uma pitada de maledicência.
Junte tudo e bata em alguém.
Deixe o fermento da fome fazer crescer
E leve ao fogo da intolerância.
Deixe assar reputações,
Depois grelhe no fogo das vaidades
E cubra com uma boa verba de jornal.
CRiga.
Está ali, ao lado do sofá
Que a gente junto já não curte mais.
Cerca, entrou no vaso vazio
Preciso comprar uma flor.
Mata, correu pra trás da cama
Não durmo nunca mais com você!
Está no quarto das crianças, brinca
Elas vão correr atrás de você também.
Não deixa passar pela sala sem perceber
Fiz meu cabelo só pra você.
Não joga fora assim
Você pode me machucar.
Queima então
Mas dois peguinhas só.
Desarma a ratoeira
Não precisa mais depois de tanto tempo,
Faz tanto tempo que te amo!
CRiga.
O bom dia
É a mão gelada d’alma penada
Tapando a tua boca
Congelando a tua voz.
O boa tarde
É o amigo calado sentado à mesa
Ao teu lado na refeição solitária –
Ele ajuda a pôr o prato e os talheres
E às vezes até dá comida na tua boca.
O boa noite
É a melatonina feito britadeira de asfalto
Forçando uma cova rasa na cama fria –
Um sono perturbado de manchetes
Viagens às pressas
E um nunca conseguir chegar.
Depois da confusa madrugada
Vem de novo a mão gelada
D’alma penada te acordar, te calar.
Virar de volta a moribunda areia da ampulheta
Nesse eterno déjà vu
Chamado estar só.
CRiga.
Durante a ceia escassa de nossa aldeia
Você trouxe o vinho da bebedeira
Brindou como um velho amigo que voltou.
Na noite do nosso sono confiante
Você portou-se como um amante
Roubou o ouro e apenas acusou.
De manhã jogou o velhinho de lado
Cercou o jardim com arame farpado
Botou soldado raso vigiando as flores.
Meio-dia tomou a casa de assalto
Gritou “todos de mãos pro alto”
E fez seu escritório em nosso quarto.
Daí
No novo almoço fez ode à tirania
Enfiou goela abaixo uma soberania
Prendeu padre, parente e vizinho.
Daí
Forjou Bíblia e Constituição
Sorriu arrogante na televisão
E deu de ombros ao que estava escrito.
E aí?
Como aceitar o novo inimigo?
E deixar solto o velho bandido?
Ignorar a verdadeira paz?
E aí?
Como acreditar no falso profeta?
Como encarar a face do poeta?
Os nossos dias já não voltam mais.
CRiga.