quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Ponto de desencontro

 


Só te chamei pra perguntar se é só eu quem sofre essa dor de desencontro. Se é sou eu quem sente esses sinais do tempo, nos sonhos, quando a gente se encontra e acorda triste, feito coração partido pela metade. Se só sou eu quem se sente boiando num céu azul de missões, feito enfeite pendurado no teto, de lá pra cá, à mercê dos ventos que entram pelas nossas janelas abertas. Por favor, fique e me diga que não sou eu apenas quem espera um dia, nesta vida ou não, estar ao lado da alma dos tempos imemoriais.

Sim, isto tudo parece loucura, é muito mais poesia romântica que sensatez, tudo bem: não precisa se sentir assim sem jeito por atender ao chamado de alguém que você não via há tempos, alguém que não consegue deixar-te apenas sobrevivente. Não me olhe assim, com esse rosto de quem quer condenar Nero à própria fogueira, e fugir deixando para trás as cinzas que também são suas. Eu sei que você se disfarça como eu, à espera, à espreita, de longe, não quero nem te desviar de qualquer caminho que te faça segura sobrevivente, apenas quero uma resposta que nos conforte por ora, o resto de nossas missões.

Eu só quero saber se você também sente um coração nublado de vez em quando, quando você acorda, uma vontade de uma lágrima apenas, no canto do rosto gelado, pra lamentar essa ausência de você mesmo. Só quero saber se você também carrega consigo estas mesmas saudades do que nunca foi, mas com rostos e almas tornadas penduricalhos brilhantes naquele teto azul de Deus sozinho lá em cima, brincando de missões.

Se você não quiser responder, tudo bem... Vamos voltar à vida de sobreviventes, com sorrisos e afetos fáceis e outros sinceros também, de luta intensa no silêncio descomunal e confortante de deuses solitários, perambulando por aí de jeans, tênis e óculos de aros pretos, procurando sentido nas fáceis multidões. Vamos voltar aos nossos tetos reais sem penduricalhos, sonos pesados de cansaço, sonhos de veludo, manhãs de cheiro de asfalto molhado e luzes amarelas refletidas no chão, dando o tom de desencanto pelo resto do dia. Pelo resto da vida.

Vamos enfim lamentar este encontro, ou apenas beber ao reencontro cômico regado a fantasias sinceras. E vamos rir disso tudo então, dizer como seria se você tivesse voltado a passar naquela minha rua, como seria se eu tivesse dado a resposta sincera, não aquela defensivinha de garoto bobo. Comemorar como a vida é louca, esse vaivém de gente que nos invade e que parte sem dizer adeus.

A gente pode então rir alto feito gente feliz, e não precisamos nem mais tocar nesse assunto tão amargo e perigoso. Forçando a hora de ir embora, vamos olhar nos relógios procurando muros, trincheiras e saídas de emergência nos ponteiros. Vamos fugir dessa situação embaraçosa e caótica de falar sobre coisas e tempos que precisam ser descoisadas e arrancadas do DNA das horas. Vamos fingir olhares apressados mas saudosos, firmes na despedida. Vamos nos despedir apenas com um tchau, foi legal, enfim...

Ou vamos talhar com o punhal seco dos tempos a ferida, olhares molhados, bocas trêmulas e mãos dadas sobre a mesa do bar vazio. Vamos escancarar essa doideira de sentir saudades do que nunca foi, mas deveria ter sido não fossem os ventos na janela sempre aberta de Deus. Vamos amaldiçoar os desencontros, e admitir que não estamos mais prontos pra reconstruir passados que não passaram. Vamos apenas pôr na mesa essa intensidade de nos sentir almas tão ligadas no tempo, que se encontram de quando em vez nos sonhos, em outra dimensão. Vamos fazer um pacto sem prazos nem condições – apenas de confiança nos planos de Deus e seus penduricalhos brilhantes que só precisam de polimento. Vamos chorar de verdade. Vamos chorar a verdade. Vamos esquecer da verdade.

E vamos embora, enfim, apenas demarcando território: eu sou seu, você é minha, e ponto final, os desencontros a gente resolve depois das missões. Um brinde, meu amor, um brinde aos nossos desencontros necessários à sobrevivência da poesia, e dos doces barulhinhos que fazem os penduricalhos do teto de Deus, quando bate um vento de saudades e eles se esbarram no Seu céu azulzinho de missões.

Adeus, meu amor, até mais, até o próximo vento de janelas abertas. Até o teto azul finalmente nos soltar, e cairmos ex-penduricalhos, mas de pé, sem mais necessidade de polimento e de desencontros. Apenas nós, um encontro marcado, sem segredos, e uma casa com penduricalhos de anjinhos à porta. E aquele doce barulhinho à leve brisa, na varanda, aos finais das tardes que finalmente serão nossas.

CRiga.



terça-feira, 20 de outubro de 2026

Drummondear

 


Tudo é um poema
Um sal diferente
Ou açúcar de gente.

Um canto desencanto
Bonito que dói.

Ou sutileza da beleza
Quão incomunicável que arde o pulso
Na busca da mais perfeita tradução.

Punhal invisível atirado à multidão
Contra a alma sempre aberta.

E quem não acerta desconhece
A graça que a poesia tem.

CRiga.

20/10 - Dia do Poeta




segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Sabe aquele som?

 



O ronco de carro velho virando a esquina
Escapamento quebrado.

O pneu contra o asfalto molhado
Num sábado de chuva gentil.

Tua voz me falando preta
Esqueça
Esqueça...

CRiga.


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Guarda de patrimônio

 


Chegou em cima da hora ao trabalho, mas com seus mesmos passos calmos, a bota preta de borracha selando a calçada e um barulho abafado pra ninguém notar.

Ao cruzar o portão da escola, 19h30 em ponto, alguma coisa a menos pesava na sua mochila velha, e isso lhe preocupou por alguns instantes – como voltar para casa agora e buscar o que esqueceu? Não havia esquecido nada. Fazia pouco tempo que parara de beber, e não mais levava consigo ao trabalho a única companheira das noites solitárias e frias de vigia na escola mais velha da cidade.

E não queria mesmo ser notado, apesar de muitas vezes ter ido trabalhar com aquele seu sapato preto social reformado com graxa barata, tirado dos fundos da caixa de roupas velhas lá de onde morava sozinho. Uma única lembrança dos tempos de sapatos novos – o barulho do salto contra o asfalto. Chique, parecia gente importante!

Ao cruzar o portão da escola, mesmo com o barulhinho do salto, nenhum “boa noite”, “como vai?”, “mais um dia”. Até a merendeira que saía apressada nem olhava o rosto dele. Fazia era cara feia, duvidando que ele chegasse pra trabalhar. ele já faltara algumas vezes por causa de “seu problema”.

Problema passado e superado, ele repetia num mantra. Não que isso fosse um orgulho pra ele, afinal, quando bebia, parecia sentir-se menos só. Mas quase perdeu emprego, sorte que o serviço social tratou como doente. “É doença, a OMS considera o senhor um doente”, dizia a enfermeira. O que era mesmo OMS?

A mesma velha escola! Muito antes de ter que vagar por ela no escuro vigiando fantasmas, correra pretinho feliz no recreio. Uma das únicas lembranças – corria e brigava no pátio, não era moleque fácil. A mãe nem ligava mais pras reclamações.

Na sala de aula não conseguia prestar atenção. Notas ruins. Bagunça. Briga. Mal tinha amigos, a maioria estudiosa e comportada simplesmente o ignorava.

Voltava pra casa e não tinha pai pra tirar dúvida da lição. A mãe sempre um copo à mão, fatalmente caquinhos em mais uma madrugada a conversar com o chão de cimento. Ela morreu cedo, deixou apenas o barraco e poucos copos. Ele tinha lá seus 14 anos, e com ajuda de um vizinho aqui, um primo ali, conseguia enganar o destino. Começou a trabalhar muito cedo. Depois de muito tarde, de muito esforço, conseguiu manter-se guarda de patrimônio.

Mais uma noite de vigília naquela noite fria. Engraçado é que nunca se acostumava ao escuro da escola enquanto caminhava pelos corredores de onde dizia ver espíritos, almas sorridentes. O fantasma era ele, sua profissão era guardar fantasmas e alguns demônios também.

Quando criança, aluno daquela mesma escola, havia a professora mais bonita, só ela conseguia sua atenção, moleque difícil. Loirinha universitária de olhinhos azuis, um rosto de menina-mulher. Na paixão pueril de moleque, ele a adorava como deusa. Nunca falava, só observava de boca meio aberta, paixão.

Entre sua concentração absorta de tola paixão e qualquer coisa que entrava pelos ouvidos, conseguiu aprender alguma coisinha e já se pegava falando sozinho e tão bonito pra ela: “linda, linda, lin...”

E o inesperado:

 - Você mesmo, sabe a resposta? – a perguntava perguntou, sorrindo lindo apenas para mais um de seus alunos.

 Pego de assalto, mesmo pretinho sentiu-se enrubescer, mas respondeu, firme:

             - Linda! 

Risadas. Muitas risadas naquele dia de fim de mundo. Seu rosto agora era fogo de vergonha. A professora apenas sorriu consigo, mãos a tampar os olhos negaceando com a cabeça num gesto de lamentar. E ele, no desespero de tentar pelo menos colar caquinhos de um mundo quebrado mesmo, feito todos os copos que a mãe deixava escapar nos fins de noite, levantou o braço, firme, como o aluno mais inteligente e exibido da sala, querendo responder, querendo falar, querendo gritar:

- Não fique assim, é verdade!... você é linda, você me salva, professora, não lamente nada não, professora...

Risadas sufocavam a sala de aula, até que foi salvo pelo sinal sonoro de um recreio em que não correria nem arrumaria briga.

Nunca mais voltara à escola.

Agora, como guarda de patrimônio, sentado ali no escuro da madrugada na mesma sala, na carteira do meio, pegou-se braço esticado e rosto petrificado olhando o nada do quadro negro. E uma quase voz saindo a romper o silêncio ensurdecedor: “lin...”. Aqueles fantasmas de sua profissão às vezes o traíam. E seus demônios sempre iam embora, zombando de sua cara.

Levantou, saiu trôpego, lento, agarrando paredes e rasgando desenhos de alunos do dia. Ao lado da sala ainda jazia uma escritura velha feita a canivete, no cimento: “eu te amo, professora”. Suas mãos enrugadas passavam leves digitais sobre o pequeno vandalismo de moleque apaixonado.

A manhã já vinha, um sol patético despontava melancólico no pátio. Naquele mais um fim de turno, fez questão de não cumprimentar ninguém já que ninguém lhe dava bola mesmo, apesar de ele levantar sempre a cabeça na espera de um sorriso de bom dia. Fantasmas não têm direito a bom dia nem a boa noite.

No caminho de volta, uma padaria abria as portas. Ele sentou. Pediu cachaça. Fantasmas não têm direito de beber, sofrer, nem sorrir. Mas bebeu. Uma, duas, três, quatro. E sorriu, torto.

Fantasmas não têm direito de falar. Mas falou, falou muito, provocou. Alguém levantou um revólver, e mesmo sem direito de sorrir, continuou sorrindo torto. E tomou tiro na cara. Manhã corriqueira de periferia.

Fantasmas não têm direito nem a boa morte. Mas morreu, e transferiu o problema à assistência social. Mais um problema corriqueiro, limpar cadáver, arrumar vaga, enterrar. Mas tudo muito burocraticamente ágil, lindo.

Dia seguinte, começo de turno, o guarda substituto, de sapatos sociais reciclados, tentando desesperadamente dar boa noite à mesma merendeira mal humorada, naquele início do seu primeiro dia de trabalho. Entrou procurando alento na escola vazia e fria. A penumbra começava a cobrir o pátio. Fechou o portão da escola, tirou do bolso uma garrafinha. Tomou um gole longo, virou as costas e foi à primeira ronda.

Fantasmas gargalhavam do corredor.

CRiga.



Nuance

 

Você não acredita
Onde é
Que você foi me perder.

Foi no maldito do refrão
Quando eu pedi só um pouquinho
Da tua atenção.

CRiga.


(pra quê) Guardar poema

 


A gente não precisa logo querer mostrar
Bobagem queimar largada.

Daí a gente guarda no bolso furado
Da velha calça jeans
Um guardanapo de batom borrado.

Mas a segunda-feira vem de lava-roupas
Afiada
E leva embora numa só lavada
Toda boa história de amor.

CRiga.


quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Ilha

 


Perigo é se apegar
À esperança que vem de um mar de possibilidades.
As ondas têm tamanhos diferentes
Mas trazem e levam de volta
As mesmas ilusões da areia onde você está.

CRiga.