sábado, 29 de agosto de 2026

Cansados de guerra

 


Meu dedo em riste que ainda insiste
Nem um dia congela
No medo da pressão do ar.

Mas nada me faz mais falta
Do que sentir a falta de alguém.

Aproveita agora
Amanhã teus planos serão tapetes.

Aproveita sempre –
Ontem os teus sonhos
Eram só projetos de computador.

A memória sempre falha, meu amor.
Vamos então trocar a roupa
E sair de noivos na noite nova?

No reduto reciclamos discursos
E só levamos um níquel de reconhecimento.

Recitamos O Capital com arte
Porque a morte é pena capital.

Afinal o que mais valia
Senão viver enganando o não?

Vem pro meu lado
Vem comer um morango mofado
E vestir o sobretudo da desilusão.

CRiga.




Virada

Procuro algo que mantenha minha meia luz
Uma ladeira de antigos ladrilhos
Cujos brilhos num beco do Centro
Reflitam os caquinhos charmosos
E preciosos de uma amiga lua cheia.

Um bar aberto
Uma ficha
Um jukebox
E um flashback.

Quem quieto decorando o corredor
Bate os dedos na fórmica do balcão
E ensaia um coro baixinho no refrão.

Quem vivo pede outra música
Outra cerveja, outra porção.

A madrugada que morria
Agora era o dia
Num domingo de sol
Sem pão nem padaria.

Era um bando entoando um rock inglês
Enquanto a água que corria o chão de histórias
Espumava apenas um cheiro de recomeço.

A cidade é nossa novamente
Tem gente que dorme
Tem gente que canta
Tem gente que acorda
Sem saber o que é dormir.

O que é partir sem cantar
Sem amar de novo
Aquele velho e surrado rock and roll.

CRiga.

 


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Casulo


Há uma sensação que persigo
Abrigo, dever cumprido.

Há uma sensação que devo muito.
Perigo, eterno medo de desiludir.

Ninguém nunca me viu por dentro.
Daqui saem etílicas borboletas
Secos dragões cujos sorrisos
São sinceros e preocupados.

Haverá memórias de fogueira.
Distantes, não farão revoluções.
Dúvida é se existirá um jardim amnésico
Cujas rosas não peçam documento
Pros beija-flores da madrugada.

Eu tenho a idade, só não tenho tempo.
Quero beijar sem culpa, de barba
Voar sem horários de museu.

Não quero crianças fingindo interesse
Nem a cor forçada na exótica fotografia
Calando as verdades das minhas rugas –

Elas poderão com falsa propriedade
Recitar poemas e apenas te enganar.

Nunca pisei o chão da maioria dos pés.
Nunca vivi o tempo das verdades eternizadas
Enlatadas numa festa de jubileu.

Eu durmo num casulo eterno.
Inferno pra mim
É me tornar.

CRiga.
(agosto/2018)





segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Já é tarde

 


O bom vinho mancha de leve a borda da taça
A solidão também é uma boa amiga
Se vier de mala desfaz logo na sala
E me dá o frio souvenir da tua viagem
Só não vem comigo pro meu quarto
Com esse ar de verão da idade
A vida acontece sem você
O resto é inteiro sem você
Só você não sabe
O quanto fui feliz.

CRiga.


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Cadafalso

 


A hora se arrasta nos ponteiros débeis da solidão
O que me resta senão puxar a corda, a forca
À força arrancar o capuz do carrasco
E finalmente encontrar você.

CRiga.  


Ele não era um cara legal

 


Eu não vi as flores nascendo do asfalto
Que é só onde sei procurar.

Na mesma galeria ninguém me disse nada
Algo que eu pudesse guardar.

Eu não ouvi a música da moda
Nem sou o idiota popular da roda.

Eu sou é o vidro que corta
Em vez do falso brilhante.

CRiga.




segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Deprê

 


Manhã insossa, inodora
A mesma hora que não passa.
Nada tem graça
A cama te puxa
O pouco te irrita.

A vida imita a morte num leito eterno.
Sorte?
Dia de chuva
De folga
De sono.

Como seguir
Como sentir
Como sentar pra um café
Ter alma, calma e fé?  

Falta energia
O dia é areia movediça
Preguiça infinita.

CRiga.