Chegou em cima da hora ao
trabalho, mas com seus mesmos passos calmos, a bota preta de borracha selando a
calçada e um barulho abafado pra ninguém notar.
Ao cruzar o portão da escola, 19h30 em ponto, alguma coisa a menos pesava na sua mochila velha, e isso lhe preocupou por alguns instantes – como voltar para casa agora e buscar o que esqueceu? Não havia esquecido nada. Fazia pouco tempo que parara de beber, e não mais levava consigo ao trabalho a única companheira das noites solitárias e frias de vigia na escola mais velha da cidade.
E não queria mesmo ser notado, apesar de muitas vezes ter ido trabalhar com aquele seu sapato preto social reformado com graxa barata, tirado dos fundos da caixa de roupas velhas lá de onde morava sozinho. Uma única lembrança dos tempos de sapatos novos – o barulho do salto contra o asfalto. Chique, parecia gente importante!
Ao cruzar o portão da escola, mesmo com o barulhinho do salto, nenhum “boa noite”, “como vai?”, “mais um dia”. Até a merendeira que saía apressada nem olhava o rosto dele. Fazia era cara feia, duvidando que ele chegasse pra trabalhar. ele já faltara algumas vezes por causa de “seu problema”.
Problema passado e superado, ele repetia num mantra. Não que isso fosse um orgulho pra ele, afinal, quando bebia, parecia sentir-se menos só. Mas quase perdeu emprego, sorte que o serviço social tratou como doente. “É doença, a OMS considera o senhor um doente”, dizia a enfermeira. O que era mesmo OMS?
A mesma velha escola! Muito antes de ter que vagar por ela no escuro vigiando fantasmas, correra pretinho feliz no recreio. Uma das únicas lembranças – corria e brigava no pátio, não era moleque fácil. A mãe nem ligava mais pras reclamações.
Na sala de aula não conseguia prestar atenção. Notas ruins. Bagunça. Briga. Mal tinha amigos, a maioria estudiosa e comportada simplesmente o ignorava.
Voltava pra casa e não tinha pai pra tirar dúvida da lição. A mãe sempre um copo à mão, fatalmente caquinhos em mais uma madrugada a conversar com o chão de cimento. Ela morreu cedo, deixou apenas o barraco e poucos copos. Ele tinha lá seus 14 anos, e com ajuda de um vizinho aqui, um primo ali, conseguia enganar o destino. Começou a trabalhar muito cedo. Depois de muito tarde, de muito esforço, conseguiu manter-se guarda de patrimônio.
Mais uma noite de vigília naquela noite fria. Engraçado é que nunca se acostumava ao escuro da escola enquanto caminhava pelos corredores de onde dizia ver espíritos, almas sorridentes. O fantasma era ele, sua profissão era guardar fantasmas e alguns demônios também.
Quando criança, aluno daquela mesma escola, havia a professora mais bonita, só ela conseguia sua atenção, moleque difícil. Loirinha universitária de olhinhos azuis, um rosto de menina-mulher. Na paixão pueril de moleque, ele a adorava como deusa. Nunca falava, só observava de boca meio aberta, paixão.
Entre sua concentração absorta de tola paixão e qualquer coisa que entrava pelos ouvidos, conseguiu aprender alguma coisinha e já se pegava falando sozinho e tão bonito pra ela: “linda, linda, lin...”
E o inesperado:
Risadas. Muitas risadas naquele dia de fim de mundo. Seu rosto agora era fogo de vergonha. A professora apenas sorriu consigo, mãos a tampar os olhos negaceando com a cabeça num gesto de lamentar. E ele, no desespero de tentar pelo menos colar caquinhos de um mundo quebrado mesmo, feito todos os copos que a mãe deixava escapar nos fins de noite, levantou o braço, firme, como o aluno mais inteligente e exibido da sala, querendo responder, querendo falar, querendo gritar:
- Não fique
assim, é verdade!... você é linda, você me salva, professora, não lamente nada
não, professora...
Risadas sufocavam a sala de aula, até que foi salvo pelo sinal sonoro de um recreio em que não correria nem arrumaria briga.
Nunca mais voltara à escola.
Agora, como guarda de patrimônio, sentado ali no escuro da madrugada na mesma sala, na carteira do meio, pegou-se braço esticado e rosto petrificado olhando o nada do quadro negro. E uma quase voz saindo a romper o silêncio ensurdecedor: “lin...”. Aqueles fantasmas de sua profissão às vezes o traíam. E seus demônios sempre iam embora, zombando de sua cara.
Levantou, saiu trôpego, lento, agarrando paredes e rasgando desenhos de alunos do dia. Ao lado da sala ainda jazia uma escritura velha feita a canivete, no cimento: “eu te amo, professora”. Suas mãos enrugadas passavam leves digitais sobre o pequeno vandalismo de moleque apaixonado.
A manhã já vinha, um sol patético despontava melancólico no pátio. Naquele mais um fim de turno, fez questão de não cumprimentar ninguém já que ninguém lhe dava bola mesmo, apesar de ele levantar sempre a cabeça na espera de um sorriso de bom dia. Fantasmas não têm direito a bom dia nem a boa noite.
No caminho de volta, uma padaria abria as portas. Ele sentou. Pediu cachaça. Fantasmas não têm direito de beber, sofrer, nem sorrir. Mas bebeu. Uma, duas, três, quatro. E sorriu, torto.
Fantasmas não têm direito de falar. Mas falou, falou muito, provocou. Alguém levantou um revólver, e mesmo sem direito de sorrir, continuou sorrindo torto. E tomou tiro na cara. Manhã corriqueira de periferia.
Fantasmas não têm direito nem a boa morte. Mas morreu, e transferiu o problema à assistência social. Mais um problema corriqueiro, limpar cadáver, arrumar vaga, enterrar. Mas tudo muito burocraticamente ágil, lindo.
Dia seguinte, começo de turno, o guarda substituto, de sapatos sociais reciclados, tentando desesperadamente dar boa noite à mesma merendeira mal humorada, naquele início do seu primeiro dia de trabalho. Entrou procurando alento na escola vazia e fria. A penumbra começava a cobrir o pátio. Fechou o portão da escola, tirou do bolso uma garrafinha. Tomou um gole longo, virou as costas e foi à primeira ronda.
Fantasmas gargalhavam do corredor.
CRiga.









