sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Cléber

 


Se um dia eu fosse prefeito, eu asfaltaria aquela ruazinha que dá na avenida da escola onde estudei. 

***

Aquele era o caminho mais curto pra escola. Mas eu pensava duas vezes antes de seguir, dependendo do horário pra eu não chegar atrasado.

O problema nem era a trilha no meio do mato naquele terreno que hoje é condomínio. Problema era o fim da trilha dar numa pequena rua sem asfalto, onde moleques corriam, jogavam, lutavam e não se preocupavam com horários de escola.

Eu passava apressado não querendo ser notado. Garoto do outro lado do bairro que pegava atalho e acabava na “vila”. Impossível não ser zoado pelas costas, pela frente, pelos cantos. Eu era o garoto tipo filho de mamãe – mãe separada, faxineira de ônibus de viagem.

Maioria das vezes eu conseguia não precisar pegar a trilha. Mas as vezes que precisei não cabem nem na memória, porque devo ter deletado humilhações. Mas me lembro bem do mais valentão, que me chutava a bunda quando eu passava. O que mais falava, mais ria, mais zoava. E eu seguia em frente de cabeça baixa, sozinho no meio da rua de terra da vila.

***

Que bom que as férias chegaram! O mais legal foi um garoto novo na rua jogando com a gente – era o Cléber, sobrinho da vizinha da frente que veio passar uns dias na casa da tia. Mais velho, grandão, inteligente, gente boa. Encrenqueiro. Logo era o “dono da rua”, todos gostavam dele – inclusive minha irmã. Ficamos amigos de verão.

Um daqueles dias, correndo atrás de pipa que escapou do laço no manda busca, acabamos no meio da trilha caminho da escola. Cena de faroeste – a pipa já estava nas mãos do moleque valentão.

         – Vamos embora, Cléber.

        – Calma aí, por que a pressa?

        – O menino já pegou.

        – E daí? Vamos tomar!

– Não, daí que depois das férias tou ferrado, sozinho passando na rua dele...

        – Como assim?

        – Esse moleque sempre encrenca comigo...

        – Ah é?! Esse moleque aí?! Vamos ver!

Meu coração disparou, e Cléber nem ouviu minha voz baixinha numa última tentativa: “não, dexa quéto...”

Com um tamanhão bem maior que o moleque valentão, Cléber foi chegando mansinho na sua direção:

        – Ô moleque, dá esse pipa pra mim?...

E o valentão caminhando pra trás:

         – Não, foi eu que peguei...

        ­– Dá esse pipa pra mim?...

        – Não...

Cléber num bote tomou a pipa da mão do valentãozinho:

         – Dá essa porra aqui, moleque!

O menino foi embora com bico choroso, e Cléber se voltou todo dentes brancos me entregando o que sobrara da irrecuperável pipa que corremos atrás.

***

As aulas interromperam aquele verão. E eu tinha que passar de novo sozinho pela trilha. A vida segue...

Atravessei. Cheguei àquela mesma rua, do mesmo jeito, a Prefeitura ignorava asfaltar. E os moleques jogando taco – que eu jogava muito bem também, aliás, só que lá do outro lado, no meu bairro todo asfaltado.

Já na esquina entre a rua de terra e a avenida da escola, a bolinha de tênis acertou em cheio meu cocuruto, mas sem dor alguma. Gesto automático, me virei e o valentão na outra ponta da rua me olhava com uma expressão de “sem querer”:

        – Ô, desculpa aí!...

Minha resposta serena foi apenas o polegar da mão direita pro alto. Virei e segui tranquilo o caminho pra escola – a partir daquele dia, sem mais medo nenhum do final da trilha. Na minha imaginação, tinha ali na esquina uma placa azul com o nome da rua que a Prefeitura resolveu asfaltar:

“Rua do Cléber”.

CRiga.



quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Massa de manobra

 


Um punhado de gente sem cultura.
Uma xícara de assunto polêmico.
666 colheres de malícia.
Uma pitada de maledicência.

Junte tudo e bata em alguém.
Deixe o fermento da fome fazer crescer
E leve ao fogo da intolerância.

Deixe assar reputações,
Depois grelhe no fogo das vaidades
E cubra com uma boa verba de jornal.

CRiga.


quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Não deixe fugir aquela ideia de poesia

 


Está ali, ao lado do sofá
Que a gente junto já não curte mais.

Cerca, entrou no vaso vazio
Preciso comprar uma flor.

Mata, correu pra trás da cama
Não durmo nunca mais com você!

Está no quarto das crianças, brinca
Elas vão correr atrás de você também.

Não deixa passar pela sala sem perceber
Fiz meu cabelo só pra você.

Não joga fora assim
Você pode me machucar.

Queima então
Mas dois peguinhas só.

Desarma a ratoeira
Não precisa mais depois de tanto tempo,

Faz tanto tempo que te amo!

CRiga.




sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Estar só

 


O bom dia
É a mão gelada d’alma penada
Tapando a tua boca
Congelando a tua voz.

O boa tarde
É o amigo calado sentado à mesa
Ao teu lado na refeição solitária –
Ele ajuda a pôr o prato e os talheres
E às vezes até dá comida na tua boca.

O boa noite
É a melatonina feito britadeira de asfalto
Forçando uma cova rasa na cama fria –
Um sono perturbado de manchetes
Viagens às pressas
E um nunca conseguir chegar.

Depois da confusa madrugada
Vem de novo a mão gelada
D’alma penada te acordar, te calar.

Virar de volta a moribunda areia da ampulheta
Nesse eterno déjà vu
Chamado estar só.

CRiga.



quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O inimigo vem para o jantar

 


Durante a ceia escassa de nossa aldeia
Você trouxe o vinho da bebedeira
Brindou como um velho amigo que voltou.

Na noite do nosso sono confiante
Você portou-se como um amante
Roubou o ouro e apenas acusou.

De manhã jogou o velhinho de lado
Cercou o jardim com arame farpado
Botou soldado raso vigiando as flores.

Meio-dia tomou a casa de assalto
Gritou “todos de mãos pro alto”
E fez seu escritório em nosso quarto.

Daí
No novo almoço fez ode à tirania
Enfiou goela abaixo uma soberania
Prendeu padre, parente e vizinho.

Daí
Forjou Bíblia e Constituição
Sorriu arrogante na televisão
E deu de ombros ao que estava escrito.

E aí?
Como aceitar o novo inimigo?
E deixar solto o velho bandido?
Ignorar a verdadeira paz?

E aí?
Como acreditar no falso profeta?
Como encarar a face do poeta?
Os nossos dias já não voltam mais.

CRiga.




quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Ponto de desencontro

 


Só te chamei pra perguntar se é só eu quem sofre essa dor de desencontro. Se é sou eu quem sente esses sinais do tempo, nos sonhos, quando a gente se encontra e acorda triste, feito coração partido pela metade. Se só sou eu quem se sente boiando num céu azul de missões, feito enfeite pendurado no teto, de lá pra cá, à mercê dos ventos que entram pelas nossas janelas abertas. Por favor, fique e me diga que não sou eu apenas quem espera um dia, nesta vida ou não, estar ao lado da alma dos tempos imemoriais.

Sim, isto tudo parece loucura, é muito mais poesia romântica que sensatez, tudo bem: não precisa se sentir assim sem jeito por atender ao chamado de alguém que você não via há tempos, alguém que não consegue deixar-te apenas sobrevivente. Não me olhe assim, com esse rosto de quem quer condenar Nero à própria fogueira, e fugir deixando para trás as cinzas que também são suas. Eu sei que você se disfarça como eu, à espera, à espreita, de longe, não quero nem te desviar de qualquer caminho que te faça segura sobrevivente, apenas quero uma resposta que nos conforte por ora, o resto de nossas missões.

Eu só quero saber se você também sente um coração nublado de vez em quando, quando você acorda, uma vontade de uma lágrima apenas, no canto do rosto gelado, pra lamentar essa ausência de você mesmo. Só quero saber se você também carrega consigo estas mesmas saudades do que nunca foi, mas com rostos e almas tornadas penduricalhos brilhantes naquele teto azul de Deus sozinho lá em cima, brincando de missões.

Se você não quiser responder, tudo bem... Vamos voltar à vida de sobreviventes, com sorrisos e afetos fáceis e outros sinceros também, de luta intensa no silêncio descomunal e confortante de deuses solitários, perambulando por aí de jeans, tênis e óculos de aros pretos, procurando sentido nas fáceis multidões. Vamos voltar aos nossos tetos reais sem penduricalhos, sonos pesados de cansaço, sonhos de veludo, manhãs de cheiro de asfalto molhado e luzes amarelas refletidas no chão, dando o tom de desencanto pelo resto do dia. Pelo resto da vida.

Vamos enfim lamentar este encontro, ou apenas beber ao reencontro cômico regado a fantasias sinceras. E vamos rir disso tudo então, dizer como seria se você tivesse voltado a passar naquela minha rua, como seria se eu tivesse dado a resposta sincera, não aquela defensivinha de garoto bobo. Comemorar como a vida é louca, esse vaivém de gente que nos invade e que parte sem dizer adeus.

A gente pode então rir alto feito gente feliz, e não precisamos nem mais tocar nesse assunto tão amargo e perigoso. Forçando a hora de ir embora, vamos olhar nos relógios procurando muros, trincheiras e saídas de emergência nos ponteiros. Vamos fugir dessa situação embaraçosa e caótica de falar sobre coisas e tempos que precisam ser descoisadas e arrancadas do DNA das horas. Vamos fingir olhares apressados mas saudosos, firmes na despedida. Vamos nos despedir apenas com um tchau, foi legal, enfim...

Ou vamos talhar com o punhal seco dos tempos a ferida, olhares molhados, bocas trêmulas e mãos dadas sobre a mesa do bar vazio. Vamos escancarar essa doideira de sentir saudades do que nunca foi, mas deveria ter sido não fossem os ventos na janela sempre aberta de Deus. Vamos amaldiçoar os desencontros, e admitir que não estamos mais prontos pra reconstruir passados que não passaram. Vamos apenas pôr na mesa essa intensidade de nos sentir almas tão ligadas no tempo, que se encontram de quando em vez nos sonhos, em outra dimensão. Vamos fazer um pacto sem prazos nem condições – apenas de confiança nos planos de Deus e seus penduricalhos brilhantes que só precisam de polimento. Vamos chorar de verdade. Vamos chorar a verdade. Vamos esquecer da verdade.

E vamos embora, enfim, apenas demarcando território: eu sou seu, você é minha, e ponto final, os desencontros a gente resolve depois das missões. Um brinde, meu amor, um brinde aos nossos desencontros necessários à sobrevivência da poesia, e dos doces barulhinhos que fazem os penduricalhos do teto de Deus, quando bate um vento de saudades e eles se esbarram no Seu céu azulzinho de missões.

Adeus, meu amor, até mais, até o próximo vento de janelas abertas. Até o teto azul finalmente nos soltar, e cairmos ex-penduricalhos, mas de pé, sem mais necessidade de polimento e de desencontros. Apenas nós, um encontro marcado, sem segredos, e uma casa com penduricalhos de anjinhos à porta. E aquele doce barulhinho à leve brisa, na varanda, aos finais das tardes que finalmente serão nossas.

CRiga.



terça-feira, 20 de outubro de 2026

Drummondear

 


Tudo é um poema
Um sal diferente
Ou açúcar de gente.

Um canto desencanto
Bonito que dói.

Ou sutileza da beleza
Quão incomunicável que arde o pulso
Na busca da mais perfeita tradução.

Punhal invisível atirado à multidão
Contra a alma sempre aberta.

E quem não acerta desconhece
A graça que a poesia tem.

CRiga.

20/10 - Dia do Poeta