segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Apenas o que eu preciso fazer

 


Me deixa claro
Por favor, se puder.

Me olha no olho
Me encara que nem daquela última vez
Se for capaz.

E eu nem me lembro mais
Se teve paz ou última vez.

Eu nem me lembro mais
Da última vez naquele qualquer cais
Que você tirou até sangue de mim.

Eu nem me lembro mais.

E tanto faz.

E tudo bem.

Depois a gente vê.

Porque depois no meu tempo vago
Não reclama –

É só poesia que me chama
É só poesia que eu sei fazer.

CRiga.




domingo, 22 de fevereiro de 2026

Tem um caminho na floresta

 


Eu ainda tenho medo de bruxa má.
Pensei tê-la matado num sonho
Enquanto ela dormia na cama dos meus pais.

Eu tenho medo de sair lá fora.
Encontrá-la passeando leve
Com aquele cachorro bobo e amável.

Ou vestida de um novo black-fake-rock
Pra beijar meninos-homens desavisados da noite escura.

Olha
Ela aprisiona com a chave daquela falsa delicadeza
Aquela da rainha linda precisando de autoafirmação –

Atrás do espelho só existe a confusão
De não saber voar com a vassoura que escolheu.

Por isso eu prefiro ficar em casa
E deixo a carruagem abóbora selvagem
Triste estacionada quase quebrada
Esperando a boa vontade de um cocheiro dela qualquer.  

E eu sei – é tudo fantasia.
Mas eu preciso me defender durante o dia
Durante a noite, durante todo e a qualquer momento.

Eu só preciso é sobreviver.

A lua tá é cheia de ouvir lamento
E eu não vou ficar tentando quebrar feitiços
Dos famosos fajutos para-sempres.

Porque no fim, de noite, na madrugada
Sou só eu que não consigo mais dormir.

Se a bruxa má voltou pra me assombrar
Que ria
Que viva
Que voe
Amaldiçoe como quase sempre fez.

Que curta, como um dia profetizou.
Eu sei que tenho culpa
Mas houve os dias em que você me perdoou.

Prossigo então na solitude de uma janela aberta
Enquanto a chuva me sussurra verdades nas folhas das árvores
Que estiveram aqui muito antes de você.

Eu te amo, mas não quero mais me perder
Nem na floresta, nem na festa
De um silêncio que só tenta pedir perdão
E dizer adeus
Enquanto você tapa os ouvidos
Com novos amigos, amores e afazeres.

Tem um caminho na floresta
E ele é escuro.

E ainda bem que eu sei
Que ele não leva mais até você.

CRiga.






domingo, 15 de fevereiro de 2026

Substituir, conceito vago

 


Um copo quebrado
É apenas
Um copo que se quebrou.

Não adianta mais procurar
Aquele velho licor
Nos cacos que restaram.
E recolha! Cortar-se é normal.

Tranque-os no quase Para Sempre
De uma caixa quase fechada
Porque no fundo sem fundo
Ninguém mais merece se ferir.

Um copo novo
Na cristaleira que não há
É apenas um copo
Que um dia também vai se quebrar.

CRiga.




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Métrica da vaidade

 


A confortante chuva nestas noites de verão tem acalentado o meu silêncio, tem me devolvido um pouco mais de mim. Aos poucos.  Antes eu não me suportava, agora já me aturo.

Coleciono dias e noites quase iguais numa pasta da data do dia, é tudo do que preciso – uma trilha em círculos imperfeitos (não quero nada perfeito), regando as plantas sem precisar mudá-las de lugar.

Durmo cedo, acordo cedo. Reclamo da nova chefe e das demandas emergenciais – pra não perder o costume. E recebo um elogio no final do dia.

Um livro – uma boa história é minha melhor acompanhante à cama agora. Há capítulos de aventura, amor, drogas e sexo que me lembram que a vida também é e era assim. Mas estou me anestesiando de ar pra sobreviver.

A porta de saída do apartamento raramente me dá um porquê, e todos os outros tenho procurado enterrar. Não estou pronto. Nem pra apenas caminhar.

Eu abri mão de muita coisa – é o preço que pago, cordato e seguro, pra comprar de volta a minha paz. E ela nem é tão cara assim, mas há um especulador nesse mercado de almas querendo tudo pra si. Métricas de vaidade disfarçadas de um pedido de ajuda que, no final, custa muito muito caro só para mim.

Prefiro agora abandonar a casa se consumindo em suas chamas, a casa que não é mais minha, do que sempre me queimar no final. E assim fico bem. Olhando a chuva me salvar.

CRiga.




sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Lista de sobrevivência

 


Signo às coisas
Rumo ao espírito
Corpos aos desejos
Independência ao caminho
Amnésia à dependência
Música à sem-gracisse
Quadros às paredes
Verdade posta à mesa
Um sorriso singelo
Amarelo então que seja.

CRiga.




Me devolve meu verso quebrado

 


O que me dói
Não é a tua ausência.

É remover diariamente o pó de sempre
Dos cantos desse apartamento moribundo
E nem ali eu conseguir me encontrar.

Não é apostar abrigo
Em rasas possibilidades.

É este caminhar num silêncio profundo
Enquanto o mundo nega me devolver
A minha rima, ainda que quebrada
Numa esquina de noite qualquer.

O que me dói é a minha ausência
Minha falta de paciência
De parar e escrever um verso
Que não seja por você.

CRiga.




sábado, 24 de janeiro de 2026

A vida dá um curta a cada semana

 


Quando eu voltar do futuro
Numa blitz à meia-noite,

Eu não quero olhar para o relógio
Nem me comover parado no tempo
Polindo o cinza de um Fork Ka selvagem
Num dia ensolarado
Numa estrada que tem nome de funil.

Eu não espero a abóbora carruagem
Nem a bicicross cruzando a lua cheia.

Eu já aprendi a superar as tragédias do mar.
Já apunhalei a bruxa velha da Branca de Neve
Dormindo tranquila na cama do meu pai.

Já tive o privilégio de quebrar o vidro caro
Por alguma confusão de amor.

Já falei do vento que te levou.

Já falei do tempo
E de Drummond.

CRiga.