sexta-feira, 25 de setembro de 2026
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Still Stone
Eu não me atirei feito a primeira
Não estava no teu caminho
Nem no teu sapato.
Água que bate em mim
Desiste e segue seu curso.
Eu faltei quando a chuva
Finalmente fechou o verão.
Na amarelinha da rua da tua casa
Eu passei pelo céu e pelo inferno.
Eu só rolo num solo de guitarra
Não adianta querer me lapidar.
CRiga.
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Tupperware
Até que por aqui se esvaia o que é passado
Eu vou colocando coisinhas novas nos lugares.
Nada de tiranossauros de ouro nas prateleiras
Nem conjuntos de panelas espaciais de promoção.
O segredo é apenas não amaldiçoar o que se quebra
Porque o tempo é implacável contra o que não é eterno.
Se é que existe
Algo de fato eterno.
CRiga.
Tempo da serenidade
Letra cursiva numa carta de boas notícias
O cheiro da terra depois da chuva de primavera
Um café sem pressa nem satisfações
Uma fé de ateu, uma questão de escolha
A folha em branco que desafia
É mais um dia pra preencher
Com a história que é só minha.
CRiga.
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
A boca
Quando cala,
instaura a dúvida.
Se fala, é
preciso cuidado
Inclusive para
ouvir.
Pode declamar
poemas
Ou xingar o
motorista.
Dizer que ama
Que tome
cuidado na estrada.
Quando beija no
rosto
É carinho.
Nela é paixão!
Às vezes só selinho
De carinho com
paixão.
Engole sapos
e outras bocas
Mamilos e
mangas da estação.
Faz biquinho
na selfie
E não sabe se
portar sozinha no metrô.
Quando se
abre gargalhando é piada boa
Ou, no desenho
animado, é o vilão.
Quando sorri
é tanta coisa...
Gentileza
Leveza
Amor
Sedução
Felicidade
Lembrança boa
Um “olá”
Um “tchau”
Mal difícil
ser
Geralmente é
muito bom.
É maldita, é
da noite.
Cochicha
preces na igreja
Grita um nome
ao portão
Serve pra ir
a Roma
Ou pra puta
que pariu.
Sozinha sente
a lágrima correr salgada
E engole o
choro disfarçando a dor.
Às vezes
nunca falou
E as mãos
fazem a vez
E a voz.
Às vezes fala
demais
Inclusive com
as mãos –
Que digam os nossos
italianos!
Bate com ela
é baixaria.
Dela pra fora
pode até não ser sério
Mas às vezes
magoa.
Pode dizer
sobre tanta coisa boa...
Por que então
maldizer
Querer
estragar os dias?
Dos buracos
da cabeça
É o único sem
par.
Mas quando
pareia
Incendeia!
Numa ceia dizem
que traiu.
Em outros
tempos tristes
Entregou
inimigos à fogueira.
Hoje engana fiéis
Com fome de
Verdade.
E canta!
Inclusive,
paquera
Morde e
assopra.
Dilacera
Por ódio
E por amor.
CRiga.
sábado, 19 de setembro de 2026
Polyvox
Há uma voz em nós
Que às vezes é urro
Outras é sussurro
Que grita, incita.
E também canta
É santa no Padre Nosso Ave Maria
Brisa que sopra na calmaria
Trovão que amaldiçoa na tempestade.
Uma voz que acalma
Que excita ao ouvido
Que se lê nos gestos
Que se engole, sapos.
É rouca no inverno severo
Pouca na tristeza que consome.
Suave no drops de cereja
Arrepia na surpresa da paixão
Assusta quando é não
Apaixona de novo no tudo bem.
Uma só voz, uma voz só
Um coro de gente que protesta
Um coral que anima a festa
Que acompanha a procissão.
Uma voz que diz o caminho
A voz que fala com o coração.
CRiga.
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Aumenta o som
Porque lá eu quero soltar de novo
O meu grito
E inventar a independência
Dos erros que me perseguem.
CRiga.
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Pra quem quer olhar
Os olhos não mentem. Isso é fato.
Sentem muito quando sofrem
E quando querem riem alto.
Eles olham no fundo da alma.
Acalmam, eles também abraçam
Beijam e até te comem...
Os olhos se vestem de lápis e rímel
Óculos escuros e lentes mentirosas –
São perigosas as suas meninas.
Farol no caminho dos cegos
Tortos quando o amor os cega.
São pretos castanhos azuis verdes
Amarelos e até vermelhos.
A morte na verdade tem olhos brancos.
São francos quando a alma os aperta.
Os olhos enxergam até a bebida
Escondida debaixo do casaco.
Os olhos não negam a facilidade
E nem a doce boba felicidade
Quando olham com o coração.
Flecham. Fecham a avenida.
Moem, destroem a rival.
Sambam no feriado de carnaval
Depois rezam fechados pedindo colírio
E perdão.
O padre tem olhos severos
Destes que inventam o olhar de Deus.
O diabo tem olhares sinceros
Destes que convertem até os ateus.
CRiga.
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
A canção da chuva
Quando ele decidiu atravessar o oceano louco, era pra fugir
mais de si do que da ausência de si. Era aquela cidade cinza que piorava as
coisas, principalmente quando o inverno chegava mais frio do que em qualquer
outro lugar que já esteve. Se bem que, atravessando o oceano louco, o frio
talvez fosse maior, aquele frio que a gente vê pela tevê em Londres, Paris e
outros lugares que parecem se renovar a cada sonho nosso de estar lá. “Mas
aquele frio tem charme, é um frio que a gente se sente protegido, por isso eu
vou!”
Seu sonho também era renovado – deixava para trás o que de
si não gostava, culpa daquela “solidão das capitais”. Resolvidas todas as
pendências burocráticas – e até algumas parecidas com as emocionais também –,
estava pronto pra ir, castigar aquela cidade cinza que nunca lhe dera nada. Nem
mesmo aquele amor prometido a cidade lhe presenteara, aquele amor que faz a
gente fincar o coração mesmo numa terra estranha e sem graça, por amor valia a
pena qualquer coisa. Mas o amor era só uma promessa, uma piada estranha e sem
graça, era prato feito de restaurante, enlatado de supermercado, um rock de
gente séria e sem sangue – “É tudo gente vampira!”
Passagens compradas, data marcada, só voltaria para visitas quando estivesse seguro que vencera a cidade cinza – ou talvez nem voltasse. “Pra quê? Ninguém me espera, não espero mais ninguém”. Na correria de arrumar as últimas coisas, entre barbeiro, roupas novas e um som pra curtir – disso não dava pra abrir mão! –, conheceu uma garota, mais uma garota da capital. Sorriu, disse oi, trocaram nomes e telefones, e rolou como sempre acabava rolando com todas as garotas.
Só que no outro dia ela ligou, fez visita, arrumou o apartamento bagunçado dele – ele dividia o aluguel com mais dois amigos –, sorriu, chorou, cantou, bebeu, beijou e não esqueceu! Foram dias assim, os últimos dias, intensos como a despedida de sua terra natal, fazia muito tempo. Mas era como se agora a despedida não fosse tão boa como era até então, quando fugir era o que valia.
Ela era incrível! Chorava com música bonita, ria das atrapalhadas dele, sorria pertinho da boca dele como que respirando o ar de seus pulmões, fechando os olhos e tocando os lábios macios, aos poucos, até o beijo suave. Depois, o puxava e tiravam a roupa, corpo lindo, e eles faziam o amor que ele não conhecia. Depois, fumava um baseado, colocava outro CD, cantava junto com os olhos fechados, a cabeça balançando como se ninguém estivesse vendo.
Mas ele via mais do que queria ver... ele via o amor que a cidade cinza um dia prometeu. “Mas você vai embora, que pena, então vamos curtir um pouco mais...” Com ela, ele esquecia que teria de atravessar o oceano louco, ser “feliz”, simplesmente. “O que é ser feliz, então?”, estava confuso, ficou com raiva de si. “Tá tudo pronto, gastei toda minha grana nessa viagem, isso só pode ser uma brincadeira do destino.”
Não era, e pegou-se pensando nela, na música dela, no sorriso dela, no seu corpo nu, sentada à cama, balançando a cabeça com os olhos fechados, acompanhando “aquela música da chuva do Led”, enquanto lágrimas rolavam de seus olhos cerrados no final, quando o Plant gritava louco: “but I know, that I love you so...”(*). Pra ele, nada daquilo era igual às outras pseudo-aventuras da cidade cinza. A coisa ficou mais séria quando até chegou a brigar com os amigos do apartamento porque bagunçaram tudo o que ela tinha arrumado. Ele a defendeu, e ficou completamente sem defesa...
O pior que, na verdade na verdade, ele queria era novos ares principalmente porque acreditava no amor, e a cidade cinza não lhe dera a oportunidade de amar ninguém. Eram todas as aventuras filmes sem nexo, em preto e branco, chatos demais. “Aqui não é o meu lugar”, repetia pra si como um mantra, pra se convencer, e culpava os inocentes de serem demais culpados cibernéticos, porque nunca nunca, “que droga!”, havia sentido o calor daquele sorriso, daquele beijo, daquele choro, daquele riso... Nunca tinha ouvido uma música tão bonita, ou nunca tinha percebido como eram bonitas as músicas do Led Zeppelin... E nunca foi tão mais frio, quando chegou o dia de partir... “Maldita cidade”, só lhe dera o grande amor quando decidiu abandoná-la com seu cinza, sua sem-gracisse, seu frio seco e morto.
Pernas moles no hall do aeroporto, ela disse que viria pra se despedir. “Não vou resistir...”, pensava que poderia jogar pro alto essa coisa de atravessar o oceano louco. “Chance assim não deve haver nem em outro continente...” Mas ela não vinha, demorava demais, e já chegava a hora de ele embarcar. “A gente precisa conversar pra eu me convencer (porra, isso é música do Ritchie), por que ela não vem logo? Como vou ter certeza? Como vou embarcar nessa? Como foi que eu embarquei nessa?”
E ela não vinha, “ela não vem... melhor assim”. E seguiu o corredor, já era a segunda chamada de embarque. Aquele dia chovia mais do que os outros dias anunciando o inverno. “Foi tudo um sonho. Amor assim não pode existir, justo na hora de partir”. A chuva desafiava a vidraça do aeroporto, e cada passo passava mais firme, mais compassado. “Agora não dá para voltar atrás. Adeus, adeus!...”
Pela janelinha redonda daquele boeing enorme, viu duas mãos grudadas nas janelas do hall do aeroporto, onde as pessoas se despediam dos passageiros ou simplesmente ficavam vendo aviões decolarem. Mãozinhas imóveis, ela não se despedia, só olhava, não ria nem chorava. A cidade ficava mais cinza, e ele quis acreditar que são as pessoas que colorem seus dias, e que ele podia colorir. Só que então por que nunca se esforçou nas tintas que tinha, sempre preferiu se defender e culpar o mundo?
Agora, o apocalipse calado, olhando do hall, palmas estateladas manchando o vidro com suas impressões digitais, fones de ouvido e um walkman, e ele tinha a impressão que aquilo não era uma despedida. Era um filme, um filme cuja única cor eram seus olhos brilhando verdes do hall, era seu vestido chita azul e seu casaco marrom de lã de ovelha – a chuva, o inverno! “Que inferno! O avião podia quebrar, forçando mais uma espera dos passageiros por pelo menos meia hora, que fosse, o suficiente pra eu me convencer.”
As turbinas ligaram, o avião começou a taxiar pela pista, preguiçoso, em câmera lenta. Uma cabecinha acompanhava lá do hall, sem sorrir, sem chorar. E ele viu então os olhos dela se cerrarem, e a cabecinha acompanhar uma canção. Na fita cassete do walkman dela, o Led rolava triste, na explosão das guitarras e bateria – “I felt the coldness of my winter/I never thought it would ever go/I cursed the gloom that set upon us/But I know, that I love you so/But I know, that I love you so...” (*).
E ele viu os olhos cerrados, viu mais uma vez as lágrimas dela que corriam no final do refrão, enquanto o bichão de asas de metal levantava. “But I know, that I love you so”. “Adeus, adeus”, este filme não poderia terminar diferente, com chuva e cinza. “Adeus, minha música sempre foi triste, triste assim...” A cidade cinza sempre foi triste, ele sabia. O adeus silencioso e imóvel também era. “Mas sei que te amo muito... adeus, adeus...” Um dia a tristeza vai passar, ou vai voltar, doer, quem sabe... “Agora, só o velho continente me espera, com um novo rock and roll. O velho continente precisa ser novo, um novo rock and roll!”
No hall, ela secou as lágrimas com as costas das mãos macias, e sentia-se tão rouca e cansada como Plant no final da canção. A música cessou, e a chuva cessara também naquele entardecer. O avião levantava voo, levava ele pro outro lado do oceano, enquanto o bichão ficava cada vez menor e sumia no pôr-do-sol, um sol brilhante, onde foi parar o frio?
“O frio foi embora, e ele também já se foi”.
No lado B do cassete no walkman dela, já rolava um velho rock and roll. “As pedras vão rolar. As pedras precisam rolar!...”
(*) “The Rain Song” – Led Zeppelin
(2003)
CRiga.
Apenas um rótulo psiquiátrico
O que resta
Não tem festa
Nem fresta pra escapar.
Não tem alguém pra dizer
Nem um ‘vai ficar tudo bem’
Sensação de morte certa
A qualquer instante
E tudo bem.
O breaknews que te sacode no dia
Não devolve sentido às coisas à noite.
O que presta?
A mescla da vontade de dormir
À de não mais acordar?
O cheiro do asfalto molhado na avenida
E o som do pneu dos carros que não cessam
Nos dias chuvosos e sem direção.
A sensação de solidão eterna eterna
Ninguém ninguém te acompanha
Te dá a mão pra sair da cama
Ou simplesmente te compreende.
Uma vontade de chorar
Sem saber por que
Ou ter por que chorar.
(26.ago. e 10.set.2026)
CRiga.
sábado, 29 de agosto de 2026
Cansados de guerra
Meu dedo em riste que ainda insiste
Nem um dia congela
No medo da pressão do ar.
Mas nada me faz mais falta
Do que sentir a falta de alguém.
Aproveita agora
Amanhã teus planos serão tapetes.
Aproveita sempre –
Ontem os teus sonhos
Eram só projetos de computador.
A memória sempre falha, meu amor.
Vamos então trocar a roupa
E sair de noivos na noite nova?
No reduto reciclamos discursos
E só levamos um níquel de reconhecimento.
Recitamos O Capital com arte
Porque a morte é pena capital.
Afinal o que mais valia
Senão viver enganando o não?
Vem pro meu lado
Vem comer um morango mofado
E vestir o sobretudo da desilusão.
CRiga.
Virada
Procuro algo que mantenha minha meia luz
Uma ladeira de antigos ladrilhos
Cujos brilhos num beco do Centro
Reflitam os caquinhos charmosos
E preciosos de uma amiga lua cheia.
Um bar aberto
Uma ficha
Um jukebox
E um flashback.
Quem quieto decorando o corredor
Bate os dedos na fórmica do balcão
E ensaia um coro baixinho no refrão.
Quem vivo pede outra música
Outra cerveja, outra porção.
A madrugada que morria
Agora era o dia
Num domingo de sol
Sem pão nem padaria.
Era um bando entoando um rock inglês
Enquanto a água que corria o chão de histórias
Espumava apenas um cheiro de recomeço.
A cidade é nossa novamente
Tem gente que dorme
Tem gente que canta
Tem gente que acorda
Sem saber o que é dormir.
O que é partir sem cantar
Sem amar de novo
Aquele velho e surrado rock and roll.
CRiga.
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Casulo
Há uma sensação que persigo
Abrigo, dever cumprido.
Há uma sensação que devo muito.
Perigo, eterno medo de desiludir.
Ninguém nunca me viu por dentro.
Daqui saem etílicas borboletas
Secos dragões cujos sorrisos
São sinceros e preocupados.
Haverá memórias de fogueira.
Distantes, não farão revoluções.
Dúvida é se existirá um jardim amnésico
Cujas rosas não peçam documento
Pros beija-flores da madrugada.
Eu tenho a idade, só não tenho tempo.
Quero beijar sem culpa, de barba
Voar sem horários de museu.
Não quero crianças fingindo interesse
Nem a cor forçada na exótica fotografia
Calando as verdades das minhas rugas –
Elas poderão com falsa propriedade
Recitar poemas e apenas te enganar.
Nunca pisei o chão da maioria dos pés.
Nunca vivi o tempo das verdades eternizadas
Enlatadas numa festa de jubileu.
Eu durmo num casulo eterno.
Inferno pra mim
É me tornar.
(agosto/2018)
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Já é tarde
O bom vinho mancha de leve a borda da taça
A solidão também é uma boa amiga
Se vier de mala desfaz logo na sala
E me dá o frio souvenir da tua viagem
Só não vem comigo pro meu quarto
Com esse ar de verão da idade
A vida acontece sem você
O resto é inteiro sem você
Só você não sabe
O quanto fui feliz.
CRiga.
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Cadafalso
A hora se arrasta nos ponteiros débeis da solidão
O que me resta senão puxar a corda, a forca
À força arrancar o capuz do carrasco
E finalmente encontrar você.
CRiga.
Ele não era um cara legal
Eu não vi as flores nascendo do asfalto
Que é só onde sei procurar.
Na mesma galeria ninguém me disse nada
Algo que eu pudesse guardar.
Eu não ouvi a música da moda
Nem sou o idiota popular da roda.
Eu sou é o vidro que corta
Em vez do falso brilhante.
CRiga.
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Deprê
Manhã insossa, inodora
A mesma hora que não passa.
Nada tem graça
A cama te puxa
O pouco te irrita.
A vida imita a morte num leito eterno.
Sorte?
Dia de chuva
De folga
De sono.
Como seguir
Como sentir
Como sentar pra um café
Ter alma, calma e fé?
Falta energia
O dia é areia movediça
Preguiça infinita.
CRiga.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Alma do Tempo
João pergunta a Maria:
“O que temos para comer?”
Maria, seca no olhar, responde:
“Nada, não, João...”
Eis que os olhares encontram
o brilho perdido da colher polida.
Presente de casamento
de um amigo que morreu solteiro,
sem pai nem mãe,
sem ninguém pra dividir a dor.
E eis que fala Maria a João:
“Te amo, mesmo assim...”
E João, molhado o olhar, responde:
“Te amo também, pra sempre!...”
CRiga.
segunda-feira, 13 de julho de 2026
terça-feira, 7 de julho de 2026
Das prioridades que viram tanto faz
Eu continuo aqui
Querendo a mesma coisa
A mais difícil
A mais recompensadora.
Cada vez mais sabendo por onde não andar
Onde não estar
Por quem não desperdiçar afeto.
Porque saber do não é um bom caminho
É um bom começo.
“Porque, no final,
Não importa muito aonde se chega -
E sim o caminho de se encontrar.”
CRiga.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Congelaram um coração
Pra que confiar
Se vai amaldiçoar.
Pra que ter
Se quer perder.
Pra que sentir
Se prefere fugir.
Enquanto isso alguém no céu
Raspa uma estrela
E colhe o cristal.
Na jornada o brilho nas mãos
Na terra firme o fogo morto
Da paixão que congelaram.
Assoprou, então, o pó que restou:
Desperdício, desperdício...
CRiga.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
quinta-feira, 25 de junho de 2026
quarta-feira, 24 de junho de 2026
Procissão de São João
Destrua os olhos roxos
Querendo esconder pecado.
O mais pecado dos pecados –
Ousar não ter pecado.
O suor do santinho a caminho
Daquela fontezinha artificial
Não purifica o asfalto caro
Amanhã forrado de santinhos
De campanha eleitoral.
Os fogos do céu são bonitos
Tão bonitos quanto o fogo
Debaixo das saias das meninas.
Não creio em fonte, creio no fogo
Que não mente nos olhos roxos
Que não sente por pecar
E que vive santo, sem machucar.
O pecado mora aqui mesmo
Não precisa procurar ao lado.
CRiga.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
O idioma do desejo
Não adianta chorar sobre a bebida derramada
Na noite dos cantores.
Bebida doce
E a menina enrolava a língua
Num púbere castelhano
E num inglês de pop sueco
Moreno latino americano.
Nem teve a chance de enrolar a língua
Também por doce embriaguez.
Não adianta se desculpar pela espanhola derramada
Entre os beijos, línguas
Que não queriam tradução.
Queriam apenas a luta ardente
Entre as bocas, o desejo –
Único idioma então corrente.
CRiga.
A begala
Aquela talvez fosse a última vez no dia em que entrava no
apartamento recém adquirido. Depois de um dia inteiro fazendo a mudança – que,
na verdade, não tinha grandes volumes –, me sentaria à pequena sala já
mobiliada, e talvez tomasse mais uma latinha de cerveja. Logo que entrei, o
velho e bom “Seu Carlos” estava em sua poltrona predileta, ainda nova porque
comprara há pouco tempo, desde que já não podia mais dividir o sofá maior com
sua esposa que morrera.
Ele me olhou bem fundo nos olhos. Não era um olhar bravo nem decidido a fazer qualquer mal. Era somente um olhar cansado, mas que em dado momento parecia ter descoberto uma verdade própria que não podia mais lutar contra. Seu Carlos estava com seu melhor terno, e me esperou sentar ao sofá maior, sempre me acompanhando com a cabeça calva, a boca seca e o bigode simpático, volumoso e grisalho. Sua velha e bela bengala de jacarandá estava apoiada no braço direito da poltrona. Olhou as palmas das mãos calejadas, arrumou o resto de cabelo que ainda existia, e pousou mais uma vez as mãos sobre os braços da poltrona. Suas pernas estavam cruzadas ao tornozelo. Levantou a cabeça a mim e disse, de maneira muito serena e aconchegante:
– Sabe... eu não deveria dizer isso, mas invejo vocês, que
agora começam uma vida nova, juntos, neste pequeno apartamento onde um dia me
refugiei.
– Sente muitas saudades daqui, Seu Carlos?
– Não... quer dizer, sim! Vim para cá, trouxe alguns móveis
da casa onde morava com minha amada esposa, que morreu há alguns anos. Aqui eu
reconquistei a paz, depois de perdê-la.
Enquanto Seu Carlos falava, fitava o teto e sorria também muito serenamente. Mais uma vez voltou os olhos a mim, já sério, mas nunca com aparência severa:
– Daí que quando vejo vocês se mudando para cá, para o mundo
que me refugiei e reencontrei a paz, eu não me sinto muito bem.
– Mas o senhor também tem um belo novo lar...
– Eu sei. Sei bem que o lar que me espera é muito bonito, já
me disseram. Ainda não fui lá, estou com receios... É uma bobagem, eu sei, mas
às vezes pareço querer ficar...
– O senhor não atrapalharia aqui, mas acho que o senhor se
sentirá melhor em sua nova casa...
– Não, eu sei que não devo ficar. Não posso ficar aqui com
vocês, esse apartamento já não me pertence. É que a paz que construí aqui é
difícil de deixar.
– Eu compreendo, Seu Carlos. Assim como compreendo que, com
certeza, em seu novo lar reinará essa mesma paz.
– Será? Tenho medo.
Olha eu, um velho que já passou muitas coisas nessa vida, com medo... Tive medo
na hora mais difícil da minha vida, quando perdi minha esposa e me sentia muito
só. Eu chorava todos os dias, debruçado sobre nossa cama. Eu orava por ela, mas
sentia muito sua falta. Parecia que alma dela se negava a ir embora daquela
casa. Pouca coisa trouxe de lá para este apartamento, orei muito mais forte no
dia que deixei a casa, e encontrei de novo a paz aqui. Vivi o resto dos meus
anos sozinho aqui, mas feliz e com muita paz.
– E o senhor agora tem medo novamente?...
– Sim, um pouco. Mas, olha: da mesma forma que você tem
certeza que minha nova casa também há a paz que preciso, tenho certeza de que
vocês dois encontrarão a paz que procuram. Serão muito felizes, como eu fui.
– Temos então sua benção, Seu Carlos?
– Claro que têm! Glória e você serão muito felizes, podem
ter certeza. O que me faltava era sentar aqui pela última vez, e dizer a você o
que nunca tive a oportunidade de dizer: faça minha filha feliz, como eu fiz
minha amada esposa feliz... Acho que agora começo a recuperar a coragem de me
mudar daqui. Acho que era isso que me faltava. Muito obrigado!
Com seu jeito de bom velho, Seu Carlos levantou-se apoiado em sua velha bengala de jacarandá. Com as mãos apoiadas no topo dela, e com os pés juntos, me olhou ternamente e sorriu o sorriso de sua paz. Virou-se, caminhou até a porta, abriu, saiu, fechou e foi embora para sua nova casa.
– Nós vamos ser muito felizes!
– Eu sei que sim!
Ela se levantou, pegou a caixa ao chão e notou alguma coisa faltando na pequena sala:
– Onde está aquela
bengala de jacarandá que vimos aqui ontem?
– Não sei...
– Papai gostava muito
dela. Acho que um de meus irmãos deve ter passado aqui e levado. Tudo bem, com
qualquer um deles que estiver, está em boas mãos! Quase tudo que está aqui era
dele, antes de morrer. Com o que tem aqui, já me sinto feliz! Com certeza, nós
e este apartamento têm a benção dele!
– Sim, meu amor! Com certeza!
CRiga.
sábado, 20 de junho de 2026
É primavera nos becos
Não sabe os meus segredos
Medos
Vícios.
Nem tem obrigação de saber.
Eu sei
Os teus segredos
Os teus medos
Os teus vícios.
E eu nem tinha obrigação de saber.
A tua disponibilidade é uma cidade de sombras e escombros pra atravessar.
Desisti no meio do caminho, me desculpe -
Num canto de um beco escuro e frio
Um menino me estendeu a mão.
Ele trazia consigo os estragos da noite
Mas também os olhos de uma terna manhã de sol no parque.
Mãos dadas pegamos um atalho
Que dava na tarde ainda nublada
De uma avenida movimentada
Arquivada na memória de um coração.
Na fila do ônibus você estava
E amaldiçoava a solidão.
No walkman eu curtia um novo som
E na calçada eu seguia os rastros
Das flores da minha sempre nova estação.
CRiga.
Ao seu vulgar dispor
Sentirás a sorte de uma saudade inconsequente
A morte do poder dizer palavras que não assassinem
expectativas
E que tragam novamente a novidade de uma certa paz.
E verás que teu o talento é transformar o diamante bruto
Em areia de ampulheta -
Uma hora a sensação do teu domínio
Simplesmente escorre entre os dedos
Num deserto de sentimentos.
CRiga.

















































