segunda-feira, 11 de maio de 2026

Um domingo de frente fria

 


Sei que você veio até aqui
Espiar com uma desculpa de “coisas pra devolver”
Na boba esperança de me ver.

Num domingo de chuva anunciando uma semana cinza
O azul da atenção dos meus olhos tranquilos
Poderia bem repor qualquer cor para você.

A carona do amigo combinado namorado de mentira
O brinco novo, o jeito forçado de pressa
“Qualquer coisa mando recado”
“Não sei se vou poder atender”.

Nada mais me arrasta até o teu domínio
Você está indo embora, já é hora
Nem precisa cantar pneu –

Eu sou agora o cheiro do asfalto molhado
O som da chuva que acalma
Na hora de dormir,

As coisas úteis que restaram pra amar
Todas guardadas em seu devido lugar.

CRiga.






sexta-feira, 8 de maio de 2026

“No tempo da maldade, acho que a gente nem tinha nascido” *


 


Até aprender que noite nenhuma mais me derruba
Que você não passa mais por esta rua
Que não adianta vagar de bar em bar
Cruzar a cidade pra encontrar ninguém.

Até entender de novo dos céus do meu outono
Reconhecer que os meus braços ainda são um bom lugar
Que os meus planos ainda fazem muito sentido
E que o meu melhor amigo mora em mim.

Até lá
Sabe-se lá o quanto isso vai levar do meu espírito!
Perdido há milênios ele já percorre todas as distâncias
Entre as chamas de todos os infernos de fim de linha.

No final
Eu procuro apenas um céu de amarelinha –

Um algodão doce de nuvem gigante no fim da tarde
Que me devolva o bobo talento de ver bichos
Fadas, amores
E notas musicais.

* “João e Maria” - Chico Buarque/Sivuca

CRiga.



 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Um joguete

 


Perdi o rumo, a carteira e a identidade
A cidade que me tinha
A certeza de que posso te conquistar.

Eu só te sigo nos sinais
Nada mais me interessa.

Ou não – preciso aprender apenas a me negar
Controlar o olhar atento tão fácil
Que tenta te deter em mais uma noite
Enquanto tua falsa distração diz muito sobre mim.

Diluir o desejo selvagem de se encontrar
Nem que seja à base da blasé água com gás.

Eu estou perigosamente voltando
Mais sério, etéreo
Sóbrio, sombrio, sobrando
Transbordando versos que se perdem nas sarjetas.

Eu insisto e procuro no escuro
Dentro da noite sem guia
Apenas um dia que seja novo.

CRiga.




segunda-feira, 4 de maio de 2026

On the road num solo de “Free Bird”

 


Contra tudo
Contra todos
Contra mim mesmo.

Saí na velha noite fria conhecida de domingo
Tentando conquistar tudo
Enganar a todos
E me reencontrar.

Noites que se parecem, todas iguais.
Mas eu as conheço, todas –
Até aquela em que quase morri
Sangue seco e coração na goela.

Assim como as noites de domingo
Eu também te conheço muito bem!
Você acha que não, mas eu conheço…

Sabe como?
Quando me perco em você.

Sei de todas as rotas
Recônditos
Quebradas
Que me fizeram enlouquecer.

Sei de todas as esquinas
Cruzamentos
Encruzilhadas
Que me fizeram quebrar a cara contra os muros.

E eu te quero mesmo assim…
Até você amassar
Gastar
Tripudiar
Neste coração que é só teu.

Ele é feito pneu remold on the road –
Só precisa saber o que o segura nas tuas curvas
Quando me perco.

Depois é só ligar o rádio
E continuar viajando nessa estrada
Naquele longo e belo solo de guitarra.

CRiga.




sexta-feira, 1 de maio de 2026

Elegância

 


Faltava o arremate
A assinatura depois do ponto final.

Um encontro por acaso
Um discurso preparado há milênios imemoriais.

Faz tempo que te espero atento nesse bar
A tempo de me desculpar.

Te relembrar que alguém sempre ganha
E que o outro
Nem sempre precisa perder.

Pede pra mim o meu sorriso
Você pode, ele é teu.

Mas já aviso:

Beijá-lo é o infinito!

 CRiga.




Entre o sol e a lua

 


Pessoas nuas e confusas
São apenas pessoas que a gente encontra
Nas noites que não têm mais fim.

Mas minha roupa tá aqui pra te vestir –

No cobertor de meu abraço
Só fica com frio quem quiser sentir.

Para Andreza

CRiga.


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Classificado de jornal

 


É preciso escrever uma poesia
De dia, na noite quebrada
Na esquina mal iluminada
Cacos de vidro viram diamante.

Precisa-se de um poeta
Dizia a placa à entrada principal
Um classificado de jornal:

“Alugo vagalumes –
Pago com letras a vista
Que enxergar apenas poesia”.

CRiga.




domingo, 26 de abril de 2026

Diariamente

 


Vou gastar todas as letras, frases e poemas
Como quem lima a faca até a pedra gastar-se inteira
E restar apenas o pozinho cinza encrustado no fio
Que vai embora com a água da última lágrima
Numa da manhã de sol cortante
Independente, importante
Sem mais você boiando na poeira
Refletida no calendário da geladeira.

CRiga.


Not enough time


Talvez eu não tenha de fato
O talento nato pra te conquistar
Numa mera qualquer sexta-feira.

Talvez eu desperdice o sábado numa ladeira
Tentando te fazer entender numa prece
Que nem tudo simplesmente acontece
Só a partir do teu olhar tão lindo.

Mas eu tenho todo o domingo!
A sensação certeira de que você
Durante a noite, o dia
Gostaria de me ler, de me ter
De me ver, cílio contra cílio
Olhar afundado no olhar.

Eu nunca vou deixar de compartilhar
O que de mim eu sei o que é bom
E que talvez não faça parte mesmo do teu entendimento
Do que é ter o talento
Pra conquistar um coração.

O teu coração de fim de sexta-feira
E de um sábado inteiro sonolento
Esperando a sorte numa noite incerta
Num outro bar de fraco movimento.

Eu ainda tenho um caderno em branco
E um coração aberto aos dias da semana.

Eu tenho o talento de ouvir o tempo
Que me diz
Que quem não me quis
É porque apenas não conhece bem
A graça que a poesia tem.

CRiga.



 

Clarice

 


Clarice
Sempre teve cara de Clarice.

Nem sempre foi Clarice.

Sempre foi clara, meiguice
Vezes foi bem perto
Outras, distante.

Vezes foi medo
Na menstruação atrasada
Vezes foi desejo de brincar
De ensinar a ler
A escrever
E a cantar na brincadeira de roda.

Clarice sempre foi filha
Que nem mesmo a porralouquice da juventude
Pôde fazer esquecer.

Clarice sempre foi pura
Foi menina, mulher
Orgulho do pai coruja
Amiga do pai amigo
Loira, morena, ruiva
Esperta, alegre
Líder de torcida
Chefe de acampamento.

Aba do boné pra trás, moleca
Boneca de cera, jóia psicodélica.

Clarice sempre foi diferente
Atriz de teatro
Cantora com o violão na praia
E um luau sob o eterno verão.

Ela sempre teve cara de Clarice
De magia
Paz
E energia.

Clarice
Cara de lua
Brilho de estrela
E calor do sol.

Nem sempre foi Clarice
Mas sempre teve cara de filha.

Não demora pra chegar em casa, Clarice
Não demora pra nascer, meu amor!

Cauê,
9 de fevereiro de 2000


 


sábado, 25 de abril de 2026

Premeditado

 


Pelos meus cálculos o resultado
Acaba sendo sempre o mesmo –

Zero, um vazio imenso na noite em branco.

Prova dos nove.

Prova de fogo.

No final do jogo o que não sei de fato
É apenas te esquecer.

Pra disfarçar à mesa do bar
Enquanto espero você chegar
Finjo que falo com alguém
Que planejo algo importante.

Eu já não tenho mais aquela voz
Pra acompanhar o refrão de “Black”.

Mas o que aprendi muito bem
Nas noites escuras que você não vem
É assassinar expectativas.

Nisso me tornei o melhor
E mais perigoso serial-killer da cidade.

Metódico
Preciso
Indiferente
Anônimo.

Minhas pistas são poemas.
Meus motivos meus dilemas.
A polícia dos teus olhos
Nunca vão me capturar.

Sequestrar tua sombra apenas num boato
O cálculo exato do crime perfeito:

Prendê-la então no frio cativeiro
O porão escuro que plantaste faz tempo
Bem no fundo deste peito.

CRiga.




À francesa (ode à sobriedade)

 


Pra fazer o tipo, te impressionar
Juro esta noite sair daquele jeito
O meu jeito
Daquele mesmo nosso bar,

Cambaleando
Te amando como nunca
E sempre amei.

Embriagado
Apenas de você.

CRiga.




quinta-feira, 23 de abril de 2026

Autodefesa

 


Arregimentei exércitos para te matar
E você, covarde,
Simplesmente se escondeu em mim.

CRiga.

 


Troque a roupa da poesia

 


Renovar o armário, o repertório
Revolver a alma, a rima
Armar-se da calma, do clima
E devolver-se ao começo.

Relembrar que um dia
Havia a pureza baunilha
Em vez do fermento da experiência.

Atirar contra ti num bilhete
Este amor inconsequente
Insistente, bobo
Bom.

Desmofar o morango esquecido
Numa desbotada lancheira da infância.

Desnudar a alma armada com a elegância
De um singelo e bem-apessoado
Novo poema de amor.   

CRiga.




terça-feira, 21 de abril de 2026

"To pretend"

 


Pretendo te odiar com a originalidade decente
De um anjo decadente que recuperou as asas
Mas desaprendeu a voar.

Pretendo me salvar
Antes de o meu inferno te engolir –
Vou negar a mão, te deixar escorrer leve
Na lava incandescente que habita dormindo
O fundo de um coração agora vulcão.

Pretendo poder ser feliz de novo em público
Tirar meus óculos escuros na multidão
E sentir o brilho azul dos olhos combinar
Com o simples dia que seguirá sem você.

Pretendo ser o blasé mais amável da cidade
Quando por acaso te encontrar sem querer.
Não me verá sangrar, nunca mais enfarto
Parto minha cara em mil
Mas nenhuma expressão você terá de mim.

Pretendo aprender a dizer verdades
Escrever maldades que você não vai ler.

Pretendo te odiar quieto como num coma profundo
Num túnel branco sem fim, sem destino –
No leito santo dormirá um menino sorrindo

Imóvel
Inacessível.

CRiga.




Uma pureza de office boy

 


Já não corro mais atrás de faróis verdes
Mas também não fico parado na calçada
Frente à avenida de uma vida sem carros.

Nem por isso morro.

Eu não corro mais atrás de você
Não morro mais nunca por você.

Não fico mais parado na sua
Na rua
Esperando você me atropelar.

E por isso não sofro.

Eu já não sou mais aquele bobo office boy
Talvez um pouco daquele tolo romântico sem teto 

Novos edifícios sobem encobrindo a visão
Ruas amanhecem contrariadas em contramão
Mas a gente nunca muda por completo.

Eu agora vou tranquilo pela calçada, sem pressa
De alcançar meus poucos e renovados ideais
Nada grande, nada absurdo
Nada da solidão de um quarto escuro.

Os carros não cessam na avenida
E mesmo que a cidade pareça encolher
E comer as quebradas calçadas de antigamente,

Eu sigo em frente, na paz de um olhar azul
Num sorriso guardado a quem cruzar o meu caminho
Disposto a se atropelar de caminhões
Carregados apenas de boas intenções.

CRiga.




segunda-feira, 20 de abril de 2026

Fotografando espíritos

 


A espera parece mais longa quando a chuva cai. Meus amores, minhas dores – no asfalto molhado todos perambulam com seus guarda-chuvas furados, cada um com sua cor em uma via sem volta.

A espera é fera que hiberna nas trevas da alma. Ruge uma dor que ecoa do fundo da caverna úmida e que cheira a mato molhado.

Quem espera sempre dança a valsa da solidão no silêncio da casa fria. Casa com o padre, reza com o bêbado caído na esquina.

Me espera, não vai agora. Eu tenho cartões postais em branco pra gente sonhar. Um vestido de festa e outro de casamento. Um baú vazio, uma garrafa intocada de licor. Uma cama de solteiro, a gente joga o colchão no assoalho.

A chuva da espera molhou toda a minha casa – distraída deixei janela aberta pra alguém me invadir, eu queria ter asas pra voar até você. A espera parece mais alta quando o céu se abre e o sol não traz mais novidades.

A espera se transforma com as nuvens sombrias em torno da lua, na noite que cai da minha estante e se quebra mil caquinhos, um porta-retratos ainda com foto de revista e um anjo azul de bibelô empoeirado, lembrança de um sobrinho que nasceu, cresceu e viajou ao estrangeiro.

A espera é acreditar em filho de virgem. Uma prece, me esquece, me marca num muro, prefiro ser Madalena. Me atira na vida – mas não me espere chorar.

No compasso do ponteiro do relógio parado vou te atraindo pra armadilha: serei a bruxa que vai te transformar no sapo, serás meu anfíbio de estimação, e você terá que esperar um beijo meu te libertar de novo. Só que meus lábios secarão com o ar de outono, e estaremos presos um ao outro.

A espera é o brejo feio e fedido da floresta negra das fábulas que assustam as crianças. É a impossibilidade de contar belas histórias aos casacos pendurados na cadeira da sala de jantar. É a solidão dos deuses loucos. É o dedo em todas as feridas da trouxa autocompaixão. Rasgar a carne, sangrar líquidos sem cor, chorar lágrimas imaginárias e etílicas de guaraná. E dormir soluçando baixinho esperando o despertador tocar pra espera recomeçar com o dia sem as flores à porta.

Café amargo, janela aberta, estou pronta – que venham então as cartas em branco que ontem enviei pra mim.

CRiga.



sábado, 18 de abril de 2026

Um outono sem conspirações

 


O outono e sua faca cortante
De ódio contido e dissonante.

Frio seco feito lâmina na cara que encara a avenida
Feito um doce crime com sabor
Licor de ácido na boca da noite.

Céu de estrelas atrás da fumaça
A feia urbanidade vira poesia.

Durante o dia uma boba fuga pro café subversivo
Na mesma esquina do beco sujo
E com a ex-secretária do velho partido
Tramar revoluções embaixo de cobertores.

O outono e sua face de sensações
Contra o sentido da areia da ampulheta.

Violeta murcha, rosa que não a vermelha
Dor no peito que não o sangue
Da autoritária bala de borracha.

O outono e seu eterno vinho pela metade
Escondido embaixo do casaco da cidade.

Já não somos mais tão jovens
Nem temos mais tantas conspirações.

O outono agora é só a impressão
Da tola importância que demos às boinas
Cadernos nos bares
E falsas revoluções.

O outono e sua faca cortante
De tantas desilusões.

CRiga.




sexta-feira, 17 de abril de 2026

Egotrip da Vingança

 


Vou viver no limite íngreme
Da minha alma que já não é tão pura.

E se você não vier de branco
Feito anjo me salvar do devaneio
Vou ser mármore tão negra.

E se você não sorrir
E se você não me ouvir
E se você não me abraçar
E se você não existir...

E se você não vier?

Se você não vier
Vou renascer das cinzas do que já sou.

Eu sou as cinzas que boiam no teu ar
Que aterrorizam teus olhos sem cor
Numa trágica noite de inverno
Depois de o vento insano sem direção
Invadir a tua casa decorada
Morango de prateleira.

Só que você, metódica,
Limpa o teu lar com talento
Lava o rosto petrificado
Com sabonete neutro, água morna
E vai dormir
Como se não existisse o dia
Em que você me deu um beijo.

Como se eu não existisse
Como se eu fosse pedra vulgar
Ou mármore tão negra.

Como se eu fosse ressuscitar
Sem limites
No teu seguro lar tão puro.

Como se eu fosse o retrato velho
Sobre a triste escrivaninha de cedro
Esquecida no sótão escuro.

Como se eu fosse vírus
Esperando tua hemorragia
Me libertar do desespero.

Como se eu fosse o fóssil
Daquele tiranossauro rex
Que um dia quis ser bonzinho.

Como se eu fosse fácil
Como se eu fosse frágil
Como se eu tossisse sangue
Feito poeta do Romantismo.

Vou viver no fútil limite
Desta alma que só queria
Ter você de fato um dia.

E se você vier assistir a meu desespero
Vou sorrir sarcástico
Dar adeus com a cabeça
Virar as costas
E voar sobre o penhasco.

E só sobrará teu eco dissonante
Entre as montanhas seculares
Naquela trágica noite de inverno:

"Eu amo você...cê...cê...”

E ficará esperando resposta
No limite íngreme do penhasco
E ficará me esperando voltar de branco
Feito anjo
Pra te salvar da tentação
De vir comigo devanear.

E ouvirá só o som da lágrima
Contra a rocha seca
Que não ressoa eco
Nem alivia a dor.

E rezará por mim
E pedirá minha proteção.

E lembrará dos dias em que nunca fui anjo
E quando roubei um beijo teu.

E desejará com a alma eu não estar te vigiando
E continuar não sendo anjo
Só pra roubar outro beijo teu.

E você viverá no limite íngreme
Da tua alma então tão negra.

Perdida no vale das pedras
Nas mármores tão puras.

Perdida nas noites escuras
Que eu fundei
Enquanto amei você.

CRiga.




quinta-feira, 16 de abril de 2026

O pranto de uma vida


Eu ando vivo
Chorando tudo o que guardei.

Vou dormir com olhos encharcados
E acordo afogado em lágrimas de tormento.

O sal do meu alimento é a água do meu pranto.
Quando canto embargo a voz.

Eu choro tudo o que a vida me deve
Fecho os olhos e disparam cavalos selvagens.

Só me falta o ombro de um amigo
Mas eu ando, eu vivo, eu sinto saudades.

Eu hoje acordei mais cedo
Só pra poder chorar um pouco
Antes de ter que bater o ponto.

CRiga.



 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Me permita a poesia seca, sem rima

 


Me permita ser triste
E até conseguir de novo chorar.
Tem vezes que na vida só é importante
Colocar pra fora a dor
Sem rima, sem lirismo.

Houve uma juventude que de tão pura
Escrevia o que não sentia:

“Solidão é sólida
Sólida como pedra
Pedra dura que não quebra
Quero gritar, quero chorar”.

Este sonhador-fingidor já não existe mais
Resta apenas a figura que perambula perdida
Pela tosca vida de bares e avenidas.

Sabe barata tonta que sai do bueiro?
Comida sem tempero, você sente falta do sal.
Um novo mal de amor que se inventa?
Que até tenta te atrair a atenção – mas que no fim
É apenas mais uma decepção.

Na noite da volta de um certo salvador
Meu coração foi finalmente atropelado
Pelo meu caminhão lotado de desilusões.

Estatelado no asfalto implacável
Nem mesmo marca deixou
Porque o sangue secou
Mas nada nunca se cicatriza.

Me permita hoje então ser triste
Até não conseguir mais chorar.
Agora só me é importante
Estar distante
Caminhar só durante a permissiva tarde
E implorar que o sono me traga ao menos um sonho bom.

Me permita não declamar palavras bonitas
Me permita mais uma recaída – 
Eu sempre soube que cada precipício à frente
Tem altura diferente, o tombo é sempre maior.

Me permita dizer que além das pontadas de dor
Meu coração também sustenta, sim
Aquela diminuta esperança de uma foto 3x4
Guardada no bolso do surrado jeans.

Me permita lembrar de um amigo que já morreu
Que já me deu seus ombros e seus ouvidos –
Eu também ouvi suas dores numa tarde
Quando no final daquela rua mudou de assunto
E sacou uma doce luz de carta de correio:

“Olha como ela é bonita!”

É essa a esperança que eu quero ter!

Mas eu ainda estou no escuro
Ainda não sei se procuro
Ou acredito na distração do Tempo.

Por agora, se ainda vale a rima 
Eu prefiro sangrar,
Eu preciso chorar.

CRiga.

Pior dor é encarar-se só
Aprender a só ser,
Como diz mestre Gil. 



 

 

Enfarte

 


Não dá para escrever os meu belos outonos
Dizer flores aos atentos ouvidos
Se o peito seco, sem a tua água
É apenas mágoa que te ama e te dilacera
Na espera de um poema
Que não seja mais por você.

Eu ando lendo coisas lindas
Conhecendo gente interessante
Que me dão, além de atenção,
Um número de telefone.

Eu ando vendo os dias me tomando posse
O Tempo é o meu total e soberano proprietário.
Mas às vezes ele me perde no vazio da tarde
No sono que não vem
E então volto a ser apenas a areia que sobrou
Da ampulheta que você quebrou.

Eu queria ser o poeta da esquina
Que rima o desejo ao encontro
Leveza à sutileza da conquista
Amor ao fogo de um corpo
Paixão ao para-sempre
Enquanto a lenha crepitar vermelha na chama tranquila.

Mas de seco meu coração craquelou, se esfarelou
Implodiu e só tenta te odiar com originalidade.

Toda cidade viu –
Eu não corri por você
Nem chorando nem sorrindo.

Toda cidade mentiu –
Eu não morri por você
Apenas naquela noite de domingo.

CRiga.




segunda-feira, 13 de abril de 2026

Até estourar o coração

 


Sim
Tua dor dói em mim
Quando me pede ajuda
Apenas um ombro
A mulher fera também chora
Eu sei o que te aflige
Me aflige também
Tua alegria mesmo que plantada em outros olhos
Outros beijos e outros braços
Me dá orgulho da tua alma aberta
Que teve bela coragem de partir.

Sim
Eu acho que isso é amor.

Mas minha dor dói só em mim
O que te peço é a distância
Sou apenas um escombro
O homem perdido também caminha
E você sabe o que me atinge
Sempre soube, e você me atingiu
Minha tristeza posta à mesa em bares e avenidas
Outros ouvidos e olhos de verdade
Me deram o orgulho de continuar
Até rasgar o coração na esquina
E ter coragem de esquecer você.

CRiga.




Um amor pra vida

 


Numa noite a dor no peito
Depois a salvo numa tarde.

E do nada ela ligou pra mim.

Disse pra me cuidar
E sem precisar dizer mais
Me lembrou que as coisas passam.

Disse o pouco que me bastou
Pra me sentir amado novamente.

Um dia pegava no meu pé
E eu disse, com carinho:
“Cuida da sua vida”.

E ela respondeu
Com amor:
“Estou cuidando”.

CRiga.




sexta-feira, 10 de abril de 2026

“I love The Smiths”

 


Às vezes eu não sei onde estou
Na caraia da puta que pariu que me meti
Naquela noite que não tem mais hora.

O que eu sei, agora,
É que eu ainda sou foda!

Seja pra te dar minha atenção
Na púbere tentativa
De roubar um beijo teu.

Seja numa conversa sobre a vida
Sobre o que incita
Nosso bom demônio que dorme.

Saiba que aqui nessa cidade de pedras
Existe um oceano escuro de possibilidades.

De lindas e doces maldades
Que a gente ainda sabe
E tem o direito de fazer tão bem.

I love The Smiths
And I almost died.

I love Pearl Jam too
And I´m still alive.

CRiga.




domingo, 5 de abril de 2026

Dizem que não sei de nada

 


As coisas só aparecem
E vão se acabando
Aos nossos olhos nus.

Mas dá pra se vestir de um momento que seja novo
Com aquelas velhas roupas que a gente esqueceu como usar.

Dá pra te chamar de querida, de amada
De amiga ou seja lá o que for.

Só não tem tempo mais de sentir essa dor
Que você quer colocar como troféu de mulher num andor.

Pessoas confusas
São apenas pessoas.

Minha roupa tá aqui pra te vestir
No cobertor de meu abraço
Só fica com frio quem quiser.

CRiga.



 


Tchau aí



Eu já fiz a minha parte nesta história
E até sinto que posso fazer mais.

Mas tá começando a me dar preguiça...

CRiga.