Me permita ser triste
E até conseguir de novo chorar.
Tem vezes que na vida só é importante
Colocar pra fora a dor
Sem rima, sem lirismo.
Houve uma juventude que de tão pura
Escrevia o que não sentia:
“Solidão é sólida
Sólida como pedra
Pedra dura que não quebra
Quero gritar, quero chorar”.
Este sonhador-fingidor já não existe mais
Resta apenas a figura que perambula perdida
Pela tosca vida de bares e avenidas.
Sabe barata tonta que sai do bueiro?
Comida sem tempero, você sente falta do sal.
Um novo mal de amor que se inventa?
Que até tenta te atrair a atenção – mas que no fim
É apenas mais uma decepção.
Na noite da volta de um certo salvador
Meu coração foi finalmente atropelado
Pelo meu caminhão lotado de desilusões.
Estatelado no asfalto implacável
Nem mesmo marca deixou
Porque o sangue secou
Mas nada nunca se cicatriza.
Me permita hoje então ser triste
Até não conseguir mais chorar.
Agora só me é importante
Estar distante
Caminhar só durante a permissiva tarde
E implorar que o sono me traga ao menos um sonho bom.
Me permita não declamar palavras bonitas
Me permita mais uma recaída –
Eu sempre soube que cada precipício à frente
Tem altura diferente, o tombo é sempre maior.
Me permita dizer que além das pontadas de dor
Meu coração também sustenta, sim
Aquela diminuta esperança de uma foto 3x4
Guardada no bolso do surrado jeans.
Me permita lembrar de um amigo que já morreu
Que já me deu seus ombros e seus ouvidos –
Eu também ouvi suas dores numa tarde
Quando no final daquela rua mudou de assunto
E sacou uma doce luz de carta de correio:
“Olha como ela é bonita!”
É essa a esperança que eu quero ter!
Mas eu ainda estou no escuro
Ainda não sei se procuro
Ou acredito na distração do Tempo.
Por agora, se ainda vale a rima –
Eu prefiro sangrar,
Eu preciso chorar.
CRiga.
Pior dor é encarar-se só
Aprender a só ser,
Como diz mestre Gil.

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