quinta-feira, 25 de junho de 2026
quarta-feira, 24 de junho de 2026
Procissão de São João
Destrua os olhos roxos
Querendo esconder pecado.
O mais pecado dos pecados –
Ousar não ter pecado.
O suor do santinho a caminho
Daquela fontezinha artificial
Não purifica o asfalto caro
Amanhã forrado de santinhos
De campanha eleitoral.
Os fogos do céu são bonitos
Tão bonitos quanto o fogo
Debaixo das saias das meninas.
Não creio em fonte, creio no fogo
Que não mente nos olhos roxos
Que não sente por pecar
E que vive santo, sem machucar.
O pecado mora aqui mesmo
Não precisa procurar ao lado.
CRiga.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
O idioma do desejo
Não adianta chorar sobre a bebida derramada
Na noite dos cantores.
Bebida doce
E a menina enrolava a língua
Num púbere castelhano
E num inglês de pop sueco
Moreno latino americano.
Nem teve a chance de enrolar a língua
Também por doce embriaguez.
Não adianta se desculpar pela espanhola derramada
Entre os beijos, línguas
Que não queriam tradução.
Queriam apenas a luta ardente
Entre as bocas, o desejo –
Único idioma então corrente.
CRiga.
A begala
Aquela talvez fosse a última vez no dia em que entrava no
apartamento recém adquirido. Depois de um dia inteiro fazendo a mudança – que,
na verdade, não tinha grandes volumes –, me sentaria à pequena sala já
mobiliada, e talvez tomasse mais uma latinha de cerveja. Logo que entrei, o
velho e bom “Seu Carlos” estava em sua poltrona predileta, ainda nova porque
comprara há pouco tempo, desde que já não podia mais dividir o sofá maior com
sua esposa que morrera.
Ele me olhou bem fundo nos olhos. Não era um olhar bravo nem decidido a fazer qualquer mal. Era somente um olhar cansado, mas que em dado momento parecia ter descoberto uma verdade própria que não podia mais lutar contra. Seu Carlos estava com seu melhor terno, e me esperou sentar ao sofá maior, sempre me acompanhando com a cabeça calva, a boca seca e o bigode simpático, volumoso e grisalho. Sua velha e bela bengala de jacarandá estava apoiada no braço direito da poltrona. Olhou as palmas das mãos calejadas, arrumou o resto de cabelo que ainda existia, e pousou mais uma vez as mãos sobre os braços da poltrona. Suas pernas estavam cruzadas ao tornozelo. Levantou a cabeça a mim e disse, de maneira muito serena e aconchegante:
– Sabe... eu não deveria dizer isso, mas invejo vocês, que
agora começam uma vida nova, juntos, neste pequeno apartamento onde um dia me
refugiei.
– Sente muitas saudades daqui, Seu Carlos?
– Não... quer dizer, sim! Vim para cá, trouxe alguns móveis
da casa onde morava com minha amada esposa, que morreu há alguns anos. Aqui eu
reconquistei a paz, depois de perdê-la.
Enquanto Seu Carlos falava, fitava o teto e sorria também muito serenamente. Mais uma vez voltou os olhos a mim, já sério, mas nunca com aparência severa:
– Daí que quando vejo vocês se mudando para cá, para o mundo
que me refugiei e reencontrei a paz, eu não me sinto muito bem.
– Mas o senhor também tem um belo novo lar...
– Eu sei. Sei bem que o lar que me espera é muito bonito, já
me disseram. Ainda não fui lá, estou com receios... É uma bobagem, eu sei, mas
às vezes pareço querer ficar...
– O senhor não atrapalharia aqui, mas acho que o senhor se
sentirá melhor em sua nova casa...
– Não, eu sei que não devo ficar. Não posso ficar aqui com
vocês, esse apartamento já não me pertence. É que a paz que construí aqui é
difícil de deixar.
– Eu compreendo, Seu Carlos. Assim como compreendo que, com
certeza, em seu novo lar reinará essa mesma paz.
– Será? Tenho medo.
Olha eu, um velho que já passou muitas coisas nessa vida, com medo... Tive medo
na hora mais difícil da minha vida, quando perdi minha esposa e me sentia muito
só. Eu chorava todos os dias, debruçado sobre nossa cama. Eu orava por ela, mas
sentia muito sua falta. Parecia que alma dela se negava a ir embora daquela
casa. Pouca coisa trouxe de lá para este apartamento, orei muito mais forte no
dia que deixei a casa, e encontrei de novo a paz aqui. Vivi o resto dos meus
anos sozinho aqui, mas feliz e com muita paz.
– E o senhor agora tem medo novamente?...
– Sim, um pouco. Mas, olha: da mesma forma que você tem
certeza que minha nova casa também há a paz que preciso, tenho certeza de que
vocês dois encontrarão a paz que procuram. Serão muito felizes, como eu fui.
– Temos então sua benção, Seu Carlos?
– Claro que têm! Glória e você serão muito felizes, podem
ter certeza. O que me faltava era sentar aqui pela última vez, e dizer a você o
que nunca tive a oportunidade de dizer: faça minha filha feliz, como eu fiz
minha amada esposa feliz... Acho que agora começo a recuperar a coragem de me
mudar daqui. Acho que era isso que me faltava. Muito obrigado!
Com seu jeito de bom velho, Seu Carlos levantou-se apoiado em sua velha bengala de jacarandá. Com as mãos apoiadas no topo dela, e com os pés juntos, me olhou ternamente e sorriu o sorriso de sua paz. Virou-se, caminhou até a porta, abriu, saiu, fechou e foi embora para sua nova casa.
– Nós vamos ser muito felizes!
– Eu sei que sim!
Ela se levantou, pegou a caixa ao chão e notou alguma coisa faltando na pequena sala:
– Onde está aquela
bengala de jacarandá que vimos aqui ontem?
– Não sei...
– Papai gostava muito
dela. Acho que um de meus irmãos deve ter passado aqui e levado. Tudo bem, com
qualquer um deles que estiver, está em boas mãos! Quase tudo que está aqui era
dele, antes de morrer. Com o que tem aqui, já me sinto feliz! Com certeza, nós
e este apartamento têm a benção dele!
– Sim, meu amor! Com certeza!
CRiga.
sábado, 20 de junho de 2026
É primavera nos becos
Não sabe os meus segredos
Medos
Vícios.
Nem tem obrigação de saber.
Eu sei
Os teus segredos
Os teus medos
Os teus vícios.
E eu nem tinha obrigação de saber.
A tua disponibilidade é uma cidade de sombras e escombros pra atravessar.
Desisti no meio do caminho, me desculpe -
Num canto de um beco escuro e frio
Um menino me estendeu a mão.
Ele trazia consigo os estragos da noite
Mas também os olhos de uma terna manhã de sol no parque.
Mãos dadas pegamos um atalho
Que dava na tarde ainda nublada
De uma avenida movimentada
Arquivada na memória de um coração.
Na fila do ônibus você estava
E amaldiçoava a solidão.
No walkman eu curtia um novo som
E na calçada eu seguia os rastros
Das flores da minha sempre nova estação.
CRiga.
Ao seu vulgar dispor
Sentirás a sorte de uma saudade inconsequente
A morte do poder dizer palavras que não assassinem
expectativas
E que tragam novamente a novidade de uma certa paz.
E verás que teu o talento é transformar o diamante bruto
Em areia de ampulheta -
Uma hora a sensação do teu domínio
Simplesmente escorre entre os dedos
Num deserto de sentimentos.
CRiga.
domingo, 14 de junho de 2026
sábado, 13 de junho de 2026
Cozinhando galo
Você já poderia ter-me inteiro
Completamente rendido
À brasa da tua vontade.
Mas deixou-me coração à contramão
Sem crença, paciência e pudor.
Amor é bicho fósforo
Tem gente que é mestre em riscar.
Outras preferem o isqueiro mofado
Cuja chama não queima
E só imita vagalume.
CRiga.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Like a legend
Melhor assim, na tola esperança
Com cheiro de jaqueta de couro.
Meu ouro cabe num três por quatro
Roto, desbotado
Dentro de um bolso furado.
CRiga.
A estas horas
Quase todos se entregam ao sono
Responsável ou digno
De quem pode ou consegue dormir.
Tranquilo
Sozinho
Consigo
Com um amigo
Um amante
Um fantasma.
Com um corpo apenas frio
Que nem mesmo a morte
Tem a sorte de ter ao lado.
CRiga.
Fogo
Simplesmente queima
Teima em ver de novo
Disputar espaço na conversa
Na esgrima de língua
No cheiro contra cheiro
Cílio contra cílio
No beijo, no beijo!
CRiga.
Rock sobre duas rodas
Eu queria que você me chamasse
Pro teu rock que não rola
Pra maldoso eu dizer não.
Dizer das verdades que me restam
Quando a emoção vira assunto vulgar
Numa conversa entre amigas.
Dizer da essência, da atenção e da gentileza
Da esperteza de negar estar nas tuas mãos.
Da esperança, doce e ingênua
Da dança boba de ser
O que simplesmente a gente é.
CRiga.
Dia dos Namorados
Uma flor sobre o piano
Há um ano.
A cama quente de um agosto
O gosto de última vez.
Uma primavera pra desabrochar
Me abandonar na estação.
Um coração que implode
Que fode com todas as expectativas
E não sobrevive –
Vive!
Namorando a vida
Emocionado, excitado.
Não queira mesmo mais estar ao meu lado!
Flores morrem sem melodia
A cama esfria
E a estação apenas passa.
CRiga.
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Pra que tanta chave de felicidade?
Dê duas voltas na chave quando ela ir embora.
Assim na hora em que ela voltar dá tempo
De você pensar mais uma vez.
No que dizer, que sorriso dar.
Porque felicidade é sempre
A gente de novo se encontrar.
Felicidade não mente
É doente só de resfriado.
Saúde, meu bem!
Há ainda um gole do vinho francês
E uma nova versão de Ne Me Quitte Pas.
Abra a porta, o sorriso
Só não denuncie assim logo de cara
O que o coração precisa dizer na urgência.
Tranque a tramela se mais romântico for.
Trame com ela um pecado pra mais tarde.
E depois apenas ria, sorria
Goze com a cara leve e feliz do emoji amarelo
Estampado num velho chaveiro de camelô.
CRiga.
sábado, 6 de junho de 2026
Atropele-se!
É você deitado no asfalto molhado da solidão
E o caminhão do rolo compressor dos dias sem propósito
Te esmagar sem pena nem saco pra você reagir.
E quando finalmente você consegue se descolar do buraco
perfeito do teu corpo no tapete cinza de rodovia
Você levanta a cabeça pra encarar o motorista que te moeu
contra o chão de pedras severas.
E tu te encontras lá em cima ao volante
Sorrindo triunfante
Vivo
Com você.
CRiga.
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Corda bamba
Caminho sobre a linha tênue
De uma trágica história de amor.
De um lado
As mãos da confusa trapezista.
Do outro
A queda fatal no meio do picadeiro.
Não sei se posso confiar nas tuas mãos
Em qualquer mão.
Melhor então me soltar.
Melhor de vez me matar.
O show precisa continuar.
CRiga.
terça-feira, 2 de junho de 2026
Deserto
Ele devia saber que voltaria.
Mas a cada dia
Esquecia do caminho.
E de novo se perdia!
Mas nada era mais tão ruim assim.
Sabia que o pior é perder-se parado sentado
Esperando a ficha cair.
Pior é não partir
Trilhar o que nasce novo.
Nem que morra aos poucos feito areia, desperdício
Escorrendo pelas mesmas mãos.
CRiga.
Acabou, começou
Não me deixe sentir falta de mim
Porque parte de mim não sou eu.
Assim eu te liberto
E fico mais perto de mim.
Mais um dia arrastado
Engasgado, sozinho.
Mas eu conheço agora o meu caminho
Sei por onde fugir e me encontrar.
Talvez lá no final a gente se encontre
Mas não vou cair nessa armadilha novamente.
Agora é para frente, não me tente
Me deixe então eu me lembrar de mim.
Assim eu te liberto
E fico bem mais perto do fim.
CRiga.

















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