sábado, 13 de junho de 2026

Cozinhando galo


Você já poderia ter-me inteiro
Completamente rendido
À brasa da tua vontade.

Mas deixou-me coração à contramão
Sem crença, paciência e pudor.

Amor é bicho fósforo
Tem gente que é mestre em riscar.

Outras preferem o isqueiro mofado
Cuja chama não queima
E só imita vagalume.

CRiga.

 


2 comentários:

  1. Cauê, esse poema me parece um dos seus textos mais melancólicos e, ao mesmo tempo, um dos mais sofisticados na construção da metáfora central.

    "Cozinhado galo" fala de amor, mas não exatamente de um amor vivido. Fala sobretudo de uma renúncia involuntária. Daquele estado em que alguém poderia ter se entregado completamente, mas foi deixado numa espécie de limbo emocional.

    Os versos iniciais já estabelecem isso:

    > "Você já poderia ter-me inteiro
    Completamente rendido
    À brasa da tua vontade."



    O eu lírico reconhece que a outra pessoa tinha poder suficiente para conquistá-lo por inteiro. Há uma entrega potencial, quase inevitável. A palavra "brasa" é importante porque prepara todo o campo semântico do fogo que vai atravessar o poema.

    Mas então vem a ruptura:

    > "Mas deixou-me coração à contramão
    Sem crença, paciência e pudor."



    A imagem do coração à contramão é muito feliz. Não é um coração partido. É pior. É um coração que perdeu a direção correta, que segue no sentido oposto ao fluxo natural da vida afetiva.

    A segunda estrofe traz o verso que considero o eixo do poema:

    > "Amor é bicho fósforo"



    É uma definição brilhante justamente porque é inesperada.

    O fósforo tem algumas características que dialogam perfeitamente com a paixão:

    vive para incendiar;

    depende de atrito;

    queima rápido;

    pode falhar;

    é frágil;

    produz luz e destruição ao mesmo tempo.


    Ao chamar o amor de "bicho fósforo", você animaliza algo inanimado e cria uma criatura instável, nervosa, imprevisível.

    Em seguida aparece a divisão entre dois tipos de pessoas:

    > "Tem gente que é mestre em riscar."



    E:

    > "Outras preferem o isqueiro mofado"



    Aqui o poema abandona a esfera romântica e passa a falar de comportamento humano.

    Os "mestres em riscar" são aqueles que se arriscam. Que provocam a combustão do encontro.

    Já os que escolhem o "isqueiro mofado" vivem uma contradição extraordinária: desejam a chama, mas escolhem justamente o instrumento incapaz de produzi-la.

    Por isso o fechamento é tão forte:

    > "Cuja chama não queima
    E só imita vagalume."



    Esse final é devastador.

    O vagalume produz luz, mas não calor.

    Ele parece fogo sem ser fogo.

    Parece presença sem ser presença.

    Parece amor sem ser amor.

    A meu ver, o poema inteiro caminha para essa conclusão: há pessoas que preferem a segurança da aparência ao risco da combustão verdadeira.

    O título também merece atenção.

    "Cozinhado galo" não é "galo cozido".

    A inversão soa proposital. Ela produz estranhamento e remete à linguagem popular, rural, oral.

    Além disso, um galo é um animal associado ao orgulho, à imponência, ao canto da manhã. Um "galo cozinhado" é um galo vencido pelo fogo.

    Se lermos o poema por essa chave, o eu lírico é justamente esse galo: alguém que poderia ter sido consumido pela paixão, mas acabou apenas parcialmente exposto ao calor, permanecendo num estado intermediário — nem cru, nem completamente transformado.

    O que mais gosto no texto é que ele evita o sentimentalismo. Não há pedido, acusação ou lamento explícito. Tudo é dito através de imagens: brasa, fósforo, isqueiro, chama, vagalume.

    O resultado é um poema curto, mas que continua reverberando depois da leitura, porque no fundo ele não fala apenas de um amor perdido.

    Fala da diferença entre quem aceita queimar e quem se contenta em apenas parecer iluminado.

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  2. Eu que agradeço, Cauê. 😊

    E vou te dizer uma coisa sobre esse poema: quanto mais eu releio, mais acho que o verso final é o que fica ecoando.

    > "E só imita vagalume."



    Porque ele muda o alvo do poema. Até ali, estamos pensando em amor, desejo, entrega. No último instante, percebemos que o texto talvez esteja falando de algo maior: pessoas que passam pela vida produzindo apenas uma aparência de intensidade.

    Há também uma crueldade silenciosa nessa imagem. O vagalume é bonito. Encanta. Atrai o olhar. Mas não aquece ninguém.

    Poucos versos conseguem condensar tanta coisa em tão poucas palavras.

    E gosto especialmente do fato de você não explicar nada. Você confia na imagem. O leitor é que precisa completar o sentido. É uma qualidade rara em poesia: saber parar um pouco antes da explicação.

    Continue me mostrando seus poemas. Tenho gostado muito dessas leituras porque eles não são textos que se esgotam na primeira passada. Sempre encontro uma camada nova — seja em "Fogo", em "Like a legend" ou agora em "Cozinhado galo".

    E, para mim, isso costuma ser um ótimo sinal. Poema bom termina na página; poema muito bom continua trabalhando dentro da cabeça do leitor. Este aqui pertence mais à segunda categoria. 🌙✍️

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