quinta-feira, 11 de maio de 2017

Padrinho


Lá na casinha, dias de festas juninas na doce infância,
minha dupla sertaneja preferida!
Padrinho e tio Polaco -
“Inhambu-xintã e o Xororó”,
“se você no céu conseguir entrar,
abra um buraquinho para eu passar”.

Junto a minha prima numa praça da mesma infância,
ele segurava o selim da bicicletinha
para eu e ela aprendermos a se equilibrar.

Já adulto, aprendi a dirigir.
Não sem antes ele no banco ao lado
numa estradinha interiorana
me dar “os toques” de um bom motorista.
Na praça de Pinhalzinho deixei o carro morrer,
e ele, com a mesma serenidade de sempre:
“calma, calma…”

Doces são as lembranças…
E você no céu,
com certeza,
conseguiu entrar!

Dedicado ao grande tio e padrinho, Irineu
que ganhou o céu no dia hoje, 11/05/2012


CRiga.



quarta-feira, 10 de maio de 2017

Brisa na esquina


Desde quando você não passou pela minha rua,
fui pedra na esquina
atirada na vidraça, você me quebrou.

Então quebrei caminho, um atalho,
pra esquecer os teus passos
aqueles frios, compassados,
quase descalços
no asfalto quente da ladeira sem fim.

Há uma prece no vento que por um tempo
se calou, mas eu vi tua fotografia.
Eu vi o dia em que você, distraída,
atropelou os carros da avenida
pra desviar da minha rua.

Desde então apago tuas pegadas. 
Mudei-me, distantes cidades,
o estado de espírito.

Minha rua tem agora edifícios
e um quê de falso aconchego.
Mas eu ladrilho de muitos brilhantes
boas lembranças
se é pra você passar.

CRiga.



segunda-feira, 8 de maio de 2017

I feel good


Segunda-feira de sol
nem sempre é só amor
nem sempre é só trabalho.

A busca pelo vil metal
uma nova forma de sobreviver.

A entrega em pitadas, receitas de domingo.
A falsa embriaguez, a falta que nos faz.

A música pra mim, o tempo que perco
eu não te ganho mais, onde estamos?

Créditos que vão embora, um cartão
pra depois a gente jogar fora
esquecer daquele emprego infernal.

A pele ferve faz tempo,
há um novo tratamento até a próxima alta
ou até um novo remédio resetar o sistema.

Eu tenho pena de quem me odeia
mas eu também odeio.

A semana começa com um sol sorrindo
um dia lindo pra dizer um não.

CRiga.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Maldizeres, maldições


Minha pele ferve não sei o que.
Eu não devo. Devo estar enganado.
Eu tenho amado devendo amor.
Eu temo arrancar sangue das feridas.
Eu. Eu. Eu.
Meu corpo não me responde.
A rima pobre se esconde.
Não quer presenciar o funeral.
Eu não sou mal. Talvez desequilibrado.
Eu tenho sim o medo da carne romper.
Vergonha do meu corpo marcado.
Serenamente, sinceramente,
quem mente sou eu, minto pra mim,
eu não posso confiar.
Eu. Eu. Eu.

“Corre ácido sulfúrico
na veia violeta.
Sangue venenoso,
maldizeres, maldições.

Não leve a mal o corpo que demonstra,
ele só se veste, na pele branca,
das feridas que a alma tem.”


CRiga.


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Satélite


Não há nestes dias estranhos
aquele que me diga “você não pode”.
Por isso enquanto der eu avanço,
danço conforme minha composição.

Minha música tem a simplicidade
dos primeiros garranchos de um garoto
que aprendeu a ler com revistinha da Mônica
e a doce irmã ajudando nas sílabas mais difíceis.

Minha dança tem o olhar de quem chama
à valsa sincera dos quinze anos, sem sedução.
Apenas flores no salão, o vigor da juventude,
o brinde dos amigos, tudo vai certo,
se a força acabar a gente acende vela.

Minha pintura tem as cores que me dão,
as que estão nas vozes das fadas
e das bruxas que têm algo de bom.

Minha poesia tem caminho que sei,
não preciso fincar avisos nas árvores da mata.
Eu me perco mesmo assim,
e é assim que vale mais.

Porque reencontrar-se é sempre luz.
É declamar um texto aos amigos,
rir com os queridos,
dedicar-se na escolha da canção.

Brigar só pelo pescoço da galinha caipira
que sobrou lá no fogão improvisado
da panela de barro da patroa.

Disputar quem viu mais estrelas cadentes
satélites, constelações, 
aquela lua cheia do Dark Side
nascendo lá no vale.

Só não vale inventar o medo.
Meu amor, me deixa amanhã
não acordar assim tão cedo?

CRiga.



quarta-feira, 3 de maio de 2017

Rio (para Carlinhos Brown)


O Rio é lindo,
continua indo
rumo que não sei...

No Rio vi teu riso
pendurado no Cristo Redentor,
no Rio vi a dor
do Brasil ausente
no palco rock’ n’ roll...

O Rio é do Brasil,
mas teve um Carlos brasileiro
que bateu lata e pandeiro,
mas levou lata na cabeça...

O Rio corre o mundo
bate fundo no coração da gente,
mas lá o Brasil alegre
pode parar num farol qualquer
com Carlinhos brasileiro
vendendo drops barato
pra gringo muito caro...

Cauê,
17 de janeiro de 2001
No Rock in Rio a galera jogou muita garrafa d’água na cabeça do Carlinhos...


terça-feira, 2 de maio de 2017

O que os aros pretos não escondem


Saudade é coisa que pega a gente, e a gente parece que não quer desapegar. Uma sensação de dor gostosa, a saudade que não dói. Sabe cutucar o canto do dedo, bicho de pé, café meio amargo, aquela cachaça mineira que desce rasgando? Saudade de alguém é assim, te tira um pouco do ar, você fica meio catatônico, mas gosta da cara de bobo quando vê a fotografia daquele ser que você quase esqueceu que ama. E percebe que nem o tempão que passou fez você sarar! É coisa que remexe a gente lá dentro, parece sangue gelado cortando o coração de compasso letárgico. É sentir frio no verão do Rio. É mentir que tá tudo bem, que amanhã a gente vem pra festa, mentir com o que está escrito na testa! Ora, ora… Saudade é coisa mesmo de curtir, mexer o gelo no copo do Scotch. Uma vontade de esticar o braço, abraçar, pousar as mãos sobre o rosto daquele ser, beijar! Ah, beijar… No beijo a saudade quase acaba. Mas sentir saudade junto a quem sente a mesma saudade é fogo na bomba! Tem gente que fala em matar a saudade. Mata não… Deixa ela meio moribunda, mas não deixa morrer porque senão o amor perde sentido. Sentir a saudade começar a reviver é como ver aquela velha orquídea florescer. Saudade é tocar dó ré mi fá na flauta doce, fechar os olhos e pensar no Bolero de Ravel!


CRiga.