segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Agonia


Cravada estaca nas costas,
eu estou paralítico.
Um frio na espinha, a piadinha do filho
não arranca graça.
O sol é que ri da minha cara,
há um cansaço, o suor é gelado.
No porto seguro a nau vai embora
aos poucos, sinalizando um adeus.
É hora de enfartar, se esconder.
Hora de chorar, remoer.
De remar, até de rezar.
Quem carrega a cruz sou eu,
quem caminha no calvário.


CRiga.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Angústia, corpo e alma


Por dentro da cabeça há uma estaca-prego de aço frio, desde a garganta à testa que não sua. Olhos apenas observam semicerrados e desconfiados o buda que sorri sarcástico vangloriando-se da salvação que só ele tem. Há um peso no nó do peito, uma tontura perene d’alma, um corpo que cambaleia.

Antes a certeza do buraco que o circo da superfície. Só desejo que o dia passe o mais rápido possível, e é difícil – o sol desta sexta-feira resolveu gargalhar da minha cara. 

CRiga.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Pelé ou Mozart


Na fronte o olho sagitário não previu
e chorou a lágrima vermelha
da bala perdida na vida sem rumo. 

Viu o moleque correr no campinho
e esconder-se lá no mato –
é jogo de campeonato!

Olheiro nenhum viu
o talento pé-de-vento no campinho,
o tempo pé-de-moleque
abrindo leque de possibilidades –
menos a de ser feliz.

De frente pro gol errou o rumo
e preferiu nem tiro de meta –
meteu tiro em quem se meteu.

Olheiro nenhum viu o craque,
estádio nenhum gritou o gol.

A bola perdeu-se no mato,
a bala perdida feriu o ego,
e o olheiro cego
só pôde sangrar.

E o novo Pelé vai crescer na terra batida,
na bala perdida... 
E não há mais tempo –  
é bola no mato,
bala na testa,
tempo de campeonato.


CRiga.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Matilha ofendida


Mesmo com a necessidade de conter
a sangria ácida e a melancolia,
nesta mais pura carência 
de falar de amor neste dia,

duques do Planalto Central
não nos deixam respirar!

São lobos vestidos em peles de lobos
nada bobos, maus é pouco.

Aliás, coitados dos lobos!
Soubessem manter suas peles
à custa de malícia matilhista,
apenas rimariam
com o deputado corporativista.

Corja! Bando! Canalha!
Não amaldiçoem os animais
e nos deixe falar 
sobre quão necessário é o amor.

CRiga.

Câmara retira 6 propostas do MPF e desfigura pacote anticorrupção


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Proibido colher flores

(foto de Flávio Costa)

Daqui só vejo o cinza de asfalto
onde apenas pombos sujos
decoram a melancolia.

As poucas árvores que há
quase são engolidas pela “paisagem”,
são bonsais de estimação –
paisagem é palavra demais bonita,
não combina com a cidade.

Olhos vidrados no movimento dos carros,
pássaros maliciosos cortam a travessia
mudos – ou o barulho suga seu palavrão
contra o carro do ano
em excesso de velocidade.

Procuro sobreviver nisso
que se convencionou chamar-se de “selva” –
preferiria procurar cipós pra doce amiga
artista que molda apanhador de sonhos.

Procuro o sentido de Manoel de Barros,
mas aqui a simplicidade está apenas
na placa que me proíbe
e não me explica
porque não posso colher as flores
do jardim da Prefeitura.

Para o amigo Danilo Amélio


CRiga.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Romance de cabeceira


Eu vejo bocas marchando, eu não consigo acompanhar...

E finalmente entregue ao corredor de vozes que esperam uma resposta, eu me levanto, digo que uns remédios aí estão me fazendo mal e me retiro, fujo, sem mais. Enxaqueca seca, estresse, o que for – ouço baterem os sinos falsos da Matriz, e mais uma vez desejo morar numa cidade de verdade, onde eu não precise plantar discos ou livros. Apenas colher o que plantar, dono do meu destino, senhor de minhas linhas.

Não tenho tempo pra doença moderna. Espio neste inferno feito pecado minha arcaica dependência nos “líderes” enquanto desconheço como construir destinos. “Sem trabalho eu não sou nada”*¹. Não há fim nestes dias. Eu não quero simplesmente enlouquecer. Minha memória está falhando, eu estou cansado e não carrego pedra.

Eu vejo o dia marchando, o pelotão da ditadura. E eu me escondo num romance, me torno um Floriano sem tanto charme. E registro tudo como num diário - um dia, um outro eu pode querer ler sobre mim, num futuro qualquer de paz: 

“Despeço-me de M. em seu apartamento. Ao anoitecer ficamos longo tempo em silêncio junto da janela, vendo o fog cobrir aos poucos a cidade e a baía. Quando as luzes se acendem, M. murmura:

— So this is the end of the line...

E para minha surpresa e embaraço, põe-se a chorar de mansinho. Pouco depois me leva no seu carro até a estação, onde tomo o trem para Berkeley. Seu último beijo sabe a neblina.

Não terá sido esse o gosto de toda a nossa história?”*²

Hoje à tarde talvez eu fuja novamente - para Santa Fé!

*¹ “Música de Trabalho”, Legião Urbana (“A Tempestade”, 1996)
*² “O Arquipélago” (“O Tempo e o Vento”), Érico Veríssimo

CRiga.



Vontade de escrever? Minta um pouco…


Você pode escrever sobre o que quiser. Só não escreva sobre si mesmo – esta pessoa em que você nunca pode confiar… 

Se insistir, mentirás. Mentirás até que convenças a ti mesmo que a verdade a gente inventa só pra ser feliz. Uma verdadezinha inventada não faz mal pra ninguém, vai…

Então escreva sobre a vida dos outros. Invente vidas batendo de frente, gente morrendo no final da história. E espíritos de almas mal-resolvidas que resolvem atormentar outras tão mal resolvidas quanto. E ponha uma saída triunfal, daquelas que levam a bengala de cedro de verdade da sala – um vivo veria apenas a bengala boiando boiando atravessando a porta aberta. Isso tudo dá prêmio de literatura na cidade onde moro.

Use muita metáfora, muito código, muita escrita que parece sem nexo – parece chique não fazer-se entender, porque às vezes até dão prêmio pra isso na ABL.

Ponha uns versos no meio, tipo poeta maldito. Palavrões também parecem adequados na modernidade.

Separações, amores imperfeitos. Não esqueça da menção a uma música antiga.

Fosse escrever sobre si, a verdade é que ninguém talvez quisesse saber. E, convenhamos, não fica bem: você ficar sozinho numa tarde chuvosa, com aquele papelzinho besta às mãos, perdido num ponto de ônibus qualquer, sola e guarda-chuvas furados, um terno velho cheio de bolinhas e um conhaque pela metade. Faça-me o favor de parar com esse melodrama, batidamente lindo, mas melodrama de escritor maldito. E caia logo à sarjeta, deitado junto à centena de cacos e uma folha de papel molhada na poça. Ninguém vai chamar o resgate. Assim você vai morrer.

E se os borrões no papel permitirem, aí estará um novo sucesso de literatura. Mas você já estará morto. Mas você não deve querer morrer. Por isso, viva a vida de outrem, que morre e revive conforme a conveniência do seu acordar. Mas mate um a cada dia, e faça (re)nascer outro pra morrer no próximo amanhecer de asfalto molhado. Assim você mata a vontade de escrever outra bobagem, e não corre o risco de ser traído por si mesmo – essa pessoa em que você nunca pode confiar.


CRiga.