quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Desculpe, poesia...


Terrivelmente assolado
por uma palavra apenas.
Não pela palavra. É por qualquer palavra!
O que falta é dividir dores incomunicáveis –
os jornais de amanhã não publicarão sentimentos.

A procura sempre cansa,
falta tempo de colher do teu sorriso
um por que dizer das coisas belas.

Eu me recolho,
um olho no sangue que corre
outro no moribundo que não morre.

Uma mão escrevendo receitas de bolo
nos espaços em branco do jornal;
outra segurando a tecla ON
do equipamento de respiração.

São dias de criatividade ao contrário,
apenas gritos abafados, nada construirá.

Falta tempo de colher da tua doce distração
um por que fugir a tempo de não me tornar
apenas
pedra peso para papéis desimportantes.

CRiga.


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Alma do tempo


João pergunta a Maria:
“O que temos para comer?...”
Maria, seca no olhar, responde:
“nada, não, João...”

Eis que os olhares encontram
o brilho da colher polida.
Presente de casamento
de um amigo que morreu solteiro,
sem pai nem mãe,
sem ninguém pra dividir a dor.

E eis que fala Maria a João:
“Te amo, mesmo assim...”
E João, molhado o olhar, responde:
“Te amo também, pra sempre!...”

CRiga.


terça-feira, 15 de outubro de 2019

Escola (poesia Naif)


Gritaram no campinho,
fui eu que fiz o gol.
Era quase a hora de ir pra escola,
hora de decidir entre ser doutor
ou jogador da seleção.

Os pequenos todos aprendendo a ler,
na lousa, S+A=SA, P+O=PO.
Revistinha da Mônica antes me ajudou,
levantei braço e não hesitei: “SAPO”.
Palmas dos colegas – nunca esqueci...

Dona Dalva falava francês,
mas dava aulas de português – 
um dia faltei na prova
e a rígida senhora quis saber por que.
Em vez de tomar bomba
tomei na hora outra prova: nota dez.

Vi dona Izadora, feia e zarolha,
quebrar régua de madeira
na cabeça do “burrinho”.

Vi dona Marlene distribuir mini bíblia
e ensinar música evangélica durante a aula.

Professora Eliana não fez nada nada
quando na sala o brutamontezinho repetente
me deu uma cotovelada na cabeça.

Dona Claudete gostava de minha leitura
e me punha em frente à turma em fila
lendo textos cívicos antes do Hino Nacional.

Professora Rialma organizou um varal de poesia
num sábado de evento cultural.
Leu alto meu poema pros pais que visitavam:
“o autor é aquele menino ali” – orgulho!

Na última aula, enquanto não chegava,
professor Maurílio me designara na lousa
tirar dúvidas matemáticas de colegas.

Às vezes depois da aula havia futebol,
mas eu não era mais o moleque do campinho –
não era mais o jogador da seleção.

Também não segui carreira de doutor – 
a maldita da Física
nunca me deixou.

CRiga.


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Debaixo de tua saia


Vou perdendo a veia violeta parra.
Do tinto vinho o melhor é o mais velho
só para o velho, só para o velho...

Vou perdendo a poesia na marra.
Vendendo palavras encaixadas
encaixotando os velhos versos
submersos.

Mudar é necessidade, trabalhar também.
O amor é um porto cujo interruptor do farol
está nos navios que naufragaram
e já armaram tempestades.

Vou remando o norte que as palavras me dão.
Sorte maior é não morrer na praia
na barra da linda saia violeta
da poesia que me guarda no cais.

CRiga.


sábado, 12 de outubro de 2019

Não deixe aquela ideia de poesia fugir!


Está ali, ao lado do sofá
que a gente já não curte mais.

Cerca, entrou no vaso vazio
preciso comprar uma flor.

Mata, correu pra trás da cama
não durmo nunca mais com você!

Está no quarto das crianças, brinca
elas vão correr atrás de você também.

Não deixa passar pela sala sem perceber
fiz meu cabelo só pra você.

Não joga fora assim
você pode me machucar.

Queima então
mas dois peguinhas só.

Desarma a ratoeira
não precisa mais depois de tanto tempo,

faz tanto tempo que te amo!

CRiga.


sexta-feira, 11 de outubro de 2019

As horas que encolhem


Eu poderia morrer daqui a pouco.
Escrever uma canção de amor.
Tomar uma xícara de chá.
Esperar. Não sei bem que.

Viveria na marra, amarrado.
Não te daria o céu, meu bem,
nem usaria adoçante em vez de açúcar
até a hora de esquentar o teu almoço.

Quando moço eu tinha uma luz,
cantava o que viesse sendo bom.
Bebia nas esquinas, amigos meus
esperando de novo a nova noite.

Eu poderia ter morrido ontem,
mas antes eu escrevera sobre o amor.
Deixei de beber leite para crescer,
as horas encolhem. São 44 do segundo tempo...

CRiga.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Daltônico


O diabo amassa o trigo
pra fornada patriótica,
e Deus amansa a massa
pros discursos da patrulha.

Dá de comer ao Brasil
arroz com feijão sem pimenta
um grão de conhecimento
um sorriso de criança
uma rosa perfumada
qualquer que seja a cor –

apenas flor, nada mais,
não vigie nem invada
meu daltônico jardim.

CRiga.