quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Fora de moda

 


Eu sobro nos ares de uma tarde sem direção
Caibo no teu bolso furado, navego na sarjeta
Um barquinho de jornal feito de notícias
Que não importam mais.

Alguém lava um quintal na manhã depois da festa
Eu escorro pelo ralo, o gato silencia, tem dó de mim.
No fim da rua encontro os restos das felicidades
Que um dia desejaram ser eternas.

Eu dobro a esquina que arde em meu coração
Eu sei que você não estará mais à espera num bar
Apreciando um vinho e as margaridas da velha praça.
Este ano os ipês são saudades derramadas na calçada.

Ninguém mais rega as plantas que enfeitavam o portão
Eu corro, me agarro ao barro que resta seco no jardim.
Eu broto folha quebrada na fresta do muro trincado
E as ervas daninhas me impedem de ver o sol.

Quando a primavera finalmente bater à porta
Eu já serei a foto desbotada no porta retrato quebrado
Mofado pelo DNA cinza do tempo do inverno, cravo velho
Colado na sola do teu novo sapato da estação.         

CRiga.




Nenhum comentário:

Postar um comentário