terça-feira, 30 de setembro de 2025

Inger Lorre!


 

Desamassando as asas

 


Eu quero sim que você tenha medo das minhas palavras
Do meu tempo de novamente recitá-las
Pra brisa leve que me devolve atenção.

CRiga.


Singer

 


Não irás costurar a alma vazia
Nem recolorir o tempo desperdiçado
De uma velha fotografia.

CRiga.


Eu vou te reencontrar

 

Na balada do soul
No show do Cult
Na linha do horizonte
Quando havia mais sentido se perder na ilha.

Num corredor de supermercado
Num happy hour em Osasco
Num drink derramado de primeiro encontro
Na festa à fantasia quando arrebentei o vidro morto de ciúmes.

Nas mãos dadas subindo a ladeira
Depois de cortar o dedo no carrinho de rolimã.

Num sonho de confessar velhos amores
De manhã num ponto de ônibus qualquer
Na escadaria do colégio
Na quermesse sem fogueira e sem coragem.

“Apenas nós, um encontro marcado, sem segredos, e uma casa com penduricalhos de anjinhos à porta. E aquele doce barulhinho à leve brisa, na varanda, aos finais das tardes que finalmente serão nossas.”

CRiga.




Pub

 


Há ainda um classic rock que desliza pelos teus cabelos loiros
E o mesmo olhar que me vigia num pub no centro da cidade.

Histórias parecidas, a vida que continua “like a stone”
Gastando clichês de separações pra gente se encontrar.

Mas agora eu quero a camiseta branca
A simplicidade à vista num até logo, de longe.

Eu vou voltar, vou te dar o azul destes olhos
Num solo de guitarra de quem espera um dia, uma noite
Beber a cumplicidade de um beijo quando finalmente o bar fechar.

CRiga.





 

Trianon-Masp

 


Eu vou ficando por aqui
Na esquina onde você me deixou.

Uma avenida fria, mal iluminada
Mas tem um ponto de ônibus
Uma conexão com o metrô.

Um caminho sem volta
Que não leva mais até você.
Uma estação que grita não à anistia
E meus olhos que só fazem chorar perdidos numa multidão.

No final do domingo você consegue dormir
E eu aproveito o resto de noite
Pra me enganar um pouco mais.

Eu vou ficando por aqui
Ali, onde der.
A palavra lugar por enquanto não existe.

A palavra voltar é um verbo
Que não ensina a caminhar.

CRiga.



Eu te empresto minha alegria

 


Depois a gente conversa.
Agora faltam palavras
Certezas
Quereres
Novidades.

Depois a gente se acerta
Talvez na fase
De não precisar de gente
Que nos oriente.

Depois que a gente der esse tempo
Esse eu te beijo, eu te desejo
Nada será mais tão verdadeiro
Como o que atropela o que renasce
Como o que revela o que se cala
Como o que supera até hormônios
Cansaços
E essa leve impressão
De que já vamos assim tão tarde.

CRiga.




segunda-feira, 29 de setembro de 2025

No time

 


Deixe rastros, impressões e sensações
Que não levem às mesmas esquinas
Escritas a lápis
Ou com sabor de gloss.

Quem precisa e quer de fato
Sabe onde te reencontrar.

CRiga.



London e um sol na banca de revistas

 


Não quero nada de graça.

Quero apenas esse seu olhar
Que atravessa as trincheiras de uma nova guerra.

Eu espero depois da bandeira de paz
A gente se encontrar apenas plenos
Da forma com que a lua nos desafia
A encarar a velha noite
Sempre com um ar de novo dia.

CRiga.




domingo, 28 de setembro de 2025


 

28 de setembro

 

Foi quando eu nasci para o amor
E renasci
De tudo o que ele não foi.

CRiga.


Paulista

 


Não quero encontrar traduções de mim
Nas canções que já conheço tão bem.

Eu não serei o melodrama brega e barato
postado em praça pública
Nem o palhaço que chora depois da obrigação do espetáculo.

O que você vê sou eu mesmo
Sem máscaras, amarras, mágoa ou raiva.

O que você vê é o mesmo tênis azul que guardei
para ocasiões especiais
A camiseta que já não é mais nova
E a bolsa carteiro resgatada do mofo de um guarda-roupas agora com espaço.

Eu sou esse mesmo, eu falo, eu escrevo,
eu amo, eu desejo.

Eu serei esse mesmo
Olhos azuis devolvendo gentilezas
Um passo de cada vez e um sol de primavera
No peito aberto à faca do bendito reencontro
Comigo
No topo na avenida de uma vida pra caminhar.

CRiga.




Seis e meia, bom dia!

 


Aos poucos
Você vai perdendo a vontade de chorar.

Vai assumindo de novo as coisas
Realinhando demandas e prioridades
Aquele curso que precisa fazer
Aquele quadro que precisa pendurar.

Tomando mais providências que cervejas.
Mais ar que barbitúricos.

Os olhos ainda carregam aquela sensação de roupa molhada no varal.

Dessa parte, acredite, o tempo cuida
De secar as camisas de domingo
De enxugar as mágoas de um coração.

CRiga.



sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Água Mágoa

 


 

É preciso lavar a alma
Nem que seja à base
De um balde de lágrimas selvagens.

CRiga.

Enquanto dure

 


O fim finalmente chegou.

Era assim então?
Esse clichê tão brega
Essa fera ferida de dar dó
Essa gente sozinha de um lado só?

Há quem sofra mais
Quem sempre espera no cais
O velho amor voltar da tormenta.

Mas há também quem se afogue na areia.
Não há mesmo farol que salve
A falta de amor à lua cheia.

Porque o fim finalmente findou
E o amor cansou de durar.

CRiga.



Tudo produz

 


Um som mesmo que tosco
Posto sem querer na roda de um luau.

Um poema mesmo sem sentido
Escrito no muro pra menina que mora na esquina.

Um filme de roteiro bobo
Mas que no final tem Under My Thumb.

Um silêncio que grita socorro.
Um tiranossauro rex
Que deseja ser bonzinho.

Um pedido de perdão
De um volta pra mim sem alma.

A calma de uma vaga esperança
Na vaga luz de um vagalume qualquer.

CRiga.




Carro velho

 

Tinha aquele som na música que parecia
A campainha, mas você nunca que voltava!

Era só um som metafísico, um desejo
Doeu enquanto eu te esperava. Mas passou.

Agora é nova a dor, olha que sorte!
Poder esperar os sons, o carro na vaga
Ou não – você vagando encontrando estacionar.

Tudo roda e roda e para no mesmo lugar.
Uma espera que não cessa
Uma pressa de morrer tão logo.

A naturalidade de sair com moral
Num carro velho ou num ônibus qualquer.

Que sejam então o que forem os caminhos
Mesmo cruzando na avenida
Com tua simples vontade linda
De apenas ser feliz.

CRiga.




Sinais de mofo

 


Já havia aquele amargor
No doce que a gente tentava da receita.

Havia aquele buraco de certa dor
Remendado numa velha máquina de costura.

Uma cozinha cheia de temperos
Destemperando um casamento.

Uma porra de política pandêmica
Jogando terra nessa cova sempre rasa.

Eu fiquei em casa cuidando de coisas
Que eu achava serem eternas.

Eu fiquei parado no tempo enquanto
Você se redescobria
Sem as receitas que você me ensinou.  

Só que eu fiquei, tudo bem,
Na trama insana do cotidiano.

 Que bom voar, boa sorte.
Vai com quem e qual deus acreditar.

Aqui por enquanto
Tem a dor que você precisa saber:

Aquela que até o ateu suplica a Deus
Uma mão tranquila sobre um coração.

CRiga.



Acreditar em primaveras

 


Aqui a gente pode dizer as verdades
Que precisamos acreditar.

É apenas um pulo de gato.
Um esquema.
Um plano pra gente se adiar.

Aqui na verdade não tem gato que pula
Tem é um leão cansado que não sabe
Que ainda tem voz para rugir.

É apenas o minuto de silêncio
Antes da cavalaria antes louca
Ganhar nova chance de trotar no campo verde.

Aqui na verdade a gente espera a primavera
Essa coisa de coisas que nascem, que renascem.

Porque de resto é recolher as folhas secas
E esperar que a chuva
Abençoe essa terra tão seca de você.

CRiga.



Sobre escolhas

 


O que então arranco d’alma?
Continuar
Não é uma simples questão de escolha.

Você escolheu. Me arrancou.
Por que um simples verbo
É tão fácil assim só para você?

Nada é fácil, eu sei.
Ter que sofrer não é
Uma simples questão de escolha.

A questão é
Sobreviver
Sem você.

A questão é escolher entre ser um zumbi legal
Ou um morto-vivo encarcerado num porta-retratos.

Eu escolho a tua escolha.
Eu escolho morrer de novo agora
Pra morrer melhor e mais forte
No ano em que eu escolher de fato a morte.

CRiga.



quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Tapete de Deus

 

Todos os homens a chamavam de complicada. Ela não se julgava assim, e até queria entender porque os homens achavam isso dela. Será que uma mulher de mais de trinta, com um filho de seis anos de idade, do casamento de cinco anos que não deu certo, tinha alguma coisa a ver?

Não que o filho fosse “revoltado, sei lá”, ou até não compreendesse que a mãe podia achar outra pessoa p’ra ser feliz, afinal, por muitas vezes xeretando atrás da porta a viu chorar de sofrimento, e uma criança sabe quando a mãe chora de sofrimento. Daquelas vezes que ela aparecia com “novos amigos” em casa, ela tinha um sorriso daqueles que há tempos não se via. Não era bom ver a mamãe sorrir? Até ficar com a Helena, a vizinha amiga da mamãe, valia a pena para ele. E para Helena também, que adorava o garoto.

Então por que todos os homens a chamavam de complicada? Não tinham sido tantos assim depois do casamento, três sérios, apenas. Gérson, o primeiro, cansou daquele “seu jeito frio”, “não liga, não dá notícia”. Depois, com o Luiz, tentou ser diferente. Ligava no celular pra dizer que sentia saudades, e até o sexo já rolava com mais naturalidade. Só que Luiz era “do mundo”, como disse na ocasião em que terminou o relacionamento, ele gostava de sair com amigos e amigas, ir a shows de rock, puxar um baseado, “não me leve a sério, ainda mais você, vivida, com um filho. Não vai dar certo, foi legal”. Ela já tinha provado tudo isso, e mesmo que não procurasse desesperadamente um namorado, queria um cara que fosse um pouquinho, “só um pouquinho”, caseiro. “É pedir muito, meu Deus?”.

Não, não era. Gabriel, o terceiro, era um cara divertido, gostava de ir a teatro, cinema, boas festas, e gostava de almoço aos domingos em casa. Era inteligente, micro-empresário – dono de uma sex shop – e sensualíssimo. Adorava o filho dela, brincava, conversava de tudo. “Perfeito”. Poderia ser só dela, se não descobrisse mais tarde que o cara era bissexual... “Não dá, não dá! Esquece!”

Começou a pensar que o problema estava com ela. Ligou pro ex-marido pra pedir conselho. “Porra, você me acha complicada também?” Não, não achava. “O que há de errado, por que então nosso amor acabou, você casou de novo, é feliz, e eu tô na merda?” O ex não soube responder, e também nem podia, já que a esposa atual já xingava do outro lado do sofá. “Preciso desligar”.

Aquela hora seu filho dormia, no tapete da sala, depois de assistir a uma fita de desenho animado. Dormia no tapete, estirado, feito um deus grego que esquecera de crescer. “Este, sim, é um homem de verdade! Dorme no tapete, enquanto a mãe nem na cama consegue dormir”. Deitou-se ao lado dele, abraçou-o com carinho, e recostou a cabeça no canto da almofada em que o garoto dormia. “Você não ia me levar p’ra casa da Helena, mamãe?” “Hoje não, meu amor, não vale a pena sair... Vamos dormir, e amanhã a gente vai ao cinema”.

Dormiram juntos, no tapete, naquela noite de verão. Muitas daquelas noites foi à caça de um homem, buscando aprender mais. Naquela noite resolveu dormir no tapete, com o pequeno grande homem, o único, que a compreendia.

Dormiu como há tempos não dormia.

CRiga.



Não tenha medo, largue o emprego

 


A gente é feito pra acabar?
Quando?
Por quê?
Acabar-se?
Acabar com algo?

Não existe então início?
Reinício?

Reconciliação?

Não.

O que existe é acabar com o que nos faz sofrer,
Com o que nos faz deixar de viver.

O que resiste é acreditar
Que essa tal de dor também constrói.

Que o amor
Nunca é feito pra acabar.

CRiga.




Você está em casa?

 


Eu preciso pegar umas coisas,

Mas não preciso mais de você.

CRiga.

São João, Anhangabaú

 

O Centro é um lugar de gente solitária.

Há quem marque de se encontrar lá 

Até curtir um cult bar fumando a erva que não sai de moda.

Mas os patinadores, skatistas, policiais, casais tão lindos, jovens e efêmeros

Sabem

Aqui não é o lugar onde a felicidade de fato mora.

Gente que caminha sozinha com o casaco pink.

Gente que quer ser gente pedindo um trocado pra dose mais barata.

Gente que simplesmente tá indo embora pra casa a caminho da entrada do metrô

O Centro é apenas um trajeto, um caminhar que nada diz.

Tudo muito lindo, antigo, São Paulo de raiz.

Tudo muito só na solidão de quem procura uma razão pra simplesmente ser.

O Centro de quem perdeu o bonde.

De quem não sabe onde ser feliz.

CRiga.



Literal

 


A gente tem o poder.

De escrever. E pra caralho!

Mas o que emana das letras, palavras, frases… poemas

É quase nada agora pra resgatar, resolver.

Eu me agarro ao que tenho.

Quase nada, uma junção de letras e sentimentos confusos. 

Eu quero sair daqui.

Talvez os rastros de letrinhas me levem a algum lugar, quem sabe.

Quem sabe como a gente 

Pode parar de chorar aqui?

CRiga.

Bar Brahma

 


Eu nem sei porque entrei aqui.

Na verdade, eu sei - descobrir o que você descobriu,
O que gastou de nós.

Mas eu sei, será mesmo um chopp apenas
Pra distrair, como canta Diniz.

Antes de eu voltar à realidade
Das esquinas que eu conheço muito bem.

Bem depois da obra prima de Caetano
E bem antes de agora perder você.

CRiga.



quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Baleiro

 

A gente precisa disso
Seja lá o que isso for.

CRiga.


Arritmia

 


A dor, você precisa saber:

Até o ateu
Suplica a Deus
Uma mão tranquila
Sobre um coração.

CRiga.


21 de setembro, um coração quebrado e um clichê

 


Naquela tarde na Paulista eu inventei uma missão
E ao descer no metrô Trianon-Masp todos gritavam
As palavras de ordem do dia.

Eu não podia gritar, só podia chorar.
Como numa multidão tão unida
A gente pode se sentir tão só?

CRiga.



Nunca fez tanto sentido um coração sentir-se

 


Apertado

Prensado
Acelerado
Quebrado
Surrado
Acabado
Mofado
Abandonado
Rejeitado
Perturbado
Afogado.

Infartado
Sem saber.

CRiga.