sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Separação


São as pétalas que descolam
caem antes do tapete ao altar.
Ervas daninhas são o jardim,
antes cúmplice da cumplicidade.

O peixinho morreu, boia no aquário,
e até o gato chora a falta de fome.
O vizinho quer encher o saco,
quer botar o copo na parede...

Não há louça empilhada na pia,
par ou ímpar, não há mais refeições.
Não levaram as crianças pra escola
triste folga, vamos brincar lá fora.

O quarto escuro cheira a suor envelhecido
e o espelho do banheiro foi quebrado –
azar maior é visita sem aviso,
compromisso de diretoria.

Retratos que sorriem pares da memória
estão virados sobre o pó da estante.
Há um instante em que morrer é bom,
mas há também um som diferente
pra cada lágrima que cai.

Eu hoje esqueci você um pouco mais
que o quase nada de um ontem qualquer.

CRiga.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A tristeza é senhora


Vezes bate na gente
aquele saudosismo de moço bobo
perdido do outro lado da rua.

É só atravessar, meu velho,
desafiando motoristas loucos.
É a sua vez, a gente já foi moço demais
pra correr dos carros poucos.

Solidão é que apavora!

Medo de atravessar a rua
é mais o de não encontrar ninguém
do outro lado
do que morrer atropelado.

CRiga.



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Melancolia


Letras soltas me desafiam
a pintar a nuance que destoa,
embeleza e acaricia a alma.

Mas há um enorme vazio,
vazio enorme.
O homem que dorme não sabe
por que então acordar.

As entranhas gritam fogo
o corpo implode, explode.
As doenças são modernas.

Frases prontas me denunciam
no tribunal das autoajudas.
Já matei o carpinteiro e o cientista,
não tenho a que recorrer.

Letras tontas se negam
a lavar em lágrimas compulsivas
o chão frio da solidão.

Correr à poesia pouco adianta,
nada sai do nada que corrói.

CRiga.

Homem comum


Perdido,
uma ilha no apartamento.
Meus sinais de fumaça
são as engrenagens do espírito
travando nas ideias.

Solidão,
uma porta bate no corredor.
O vento não me leva, tudo me irrita.
Se a vida imita a arte
cadê minha parte no sucesso?

Não quero paz, quero rumo
e horários comerciais.

Quero mais,
tudo o que só a simplicidade traz.

CRiga.


O último outono (mudança)


Há um friozinho n’alma, sabe...
É quando a certeza machuca.
Quando o nunca fica velho
e a gente precisa se preparar.

Há um amor guardado no armário, abre a porta,
lágrimas correm cobrindo a madeira.
Precisamos arrumar as malas, tirar as roupas,
nos abraçamos nus na cama quente
assistindo à estação nos acabar.

Há uma dorzinha, sabe, uma vontade de ficar,
decorar a casa e a canção mais uma vez.
Fizemos do nosso gosto e batalha
um abrigo que hoje bate sol.

Damo-nos as mãos, giramos a chave na fechadura
pela última vez, saindo pra não voltar.
Não há manhã de sol que esquente a alma,
não há dívidas pagas que apaguem
as nossas marcas nas paredes vazias.

Então me dá uma boa notícia –
melhor é falar de uma nova esperança
que correr pra alcançar o amigo carteiro
e dizer adeus, esta carta já não é mais nossa...

CRiga.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A menina no bar


A juventude esguia
desvia
olhares disfarçam
sorrisos denunciam.

É quando os santos batem
riem
conversas tangentes
cúmplice gente.

Atrás das lentes da moda
ela só pede atenção
fala palavrão na roda
e delicada esconde a boca rosa.

Há uma linha muito tênue
entre os distraídos dedos finos
e a atenta mão experiente
que já explorou antigas entrepernas.

Os experientes fogem de lado
e fumam ali a paz cachimbal,
enquanto o copo cambaleia incerto  
na mãozinha delicada ao balcão.

Joga fora a bebida quente
vem, sente a vida que acontece –
às vezes ela fica apenas na impressão,
outras, marca com a brasa da cumplicidade.

Se joga nos meus braços então
sorria neste beijo quente e não se preocupe –
tudo acaba bem, meu bem,
esta noite e a paixão também.

CRiga.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Tristeza


Desfila sorrateira
às vezes montada no cavalo
do duro monumento no Ibirapuera.
Ou estampada nos olhos do anjinho
da cafona fontezinha do bulevar.

É uma respiração profunda
tentando dar ritmo ao dia
e ao coração cansado.

Câmera lenta, você tenta engolir,
é café amargo amanhecido.
Um drama de atores sem fama,
uma cama que não quer te largar.

Pousa nos teus ombros as mãos pesadas
enquanto em frente a um computador
você se pergunta como se deletar dali.

Marca com as unhas pretas por dentro do peito
feito prostituta velha, bruxa fedida.
Gata preta no cio te gritando
lá no fundo da cabeça que pesa bigornas.

Beija sabor sangue, congela o estômago,
amarga a garganta, chuta os testículos.

Sopra um vento polar na nuca,
parece que nunca existiu verão.

CRiga.