segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Um pomar de memórias


Todo mundo achou que ele morreria primeiro.
Como a tia sempre dava surpresa
fosse no bolo gostoso na visita da tarde
ou no “não” tão providencial,
ela foi, nem disse tchau.

O tio ficou esperando sozinho na mesa da tarde
o suco da fruta acerola.
Era a hora que o silêncio da velhice
sobrevivia eternizando
o amor que sempre foi necessário.

Para tia Leonilda


CRiga.


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O morro que não é mais nosso

(foto de Antonio Lacerda)

As mazelas esperneiam
e o esperma corre as pernas.
É quando o triste fecundador
desiste do mundo mundano –
um bebê morre anjo
feliz angelical.

As janelas estão fechadas
e os beirais têm rosas secas.
A cidade está de olhos cerrados,
fingindo um sono, talvez embriaguez,
para aliviar a dor.

A luz da tevê ilumina um barraco,
e o cheiro do jantar se mistura
ao pó da casa fechada
em pleno verão.

Os gritos daquelas crianças
estilhaçando as alegrias de infância,
hoje fazem parte da canção de ontem
no vinil velho comido pelo tempo.

O batom que era da camisa de seda
virou sangue de execução na mesma esquina,
onde cantava a boemia
uma vida mais bonita.

Aquela seresta virou faroeste,
e o oeste virou medo no pôr-do-sol –
é quando morre na esquina
mais um inocente trabalhador.

Não há caminho de volta ao lar –
há via crucis no chão de terra batida
onde Cristo podia bem ter caminhado,
não fosse a cruz virar arma branca
pra dar na cabeça de bandido
e de penhora à polícia.

Não há caminho aos novos fecundadores –
o espermatozóide tem medo da missão
e canta assoviando uma musiquinha
sucesso de antigamente,
pra disfarçar sua tristeza
de ter que dizer não.

CRiga.


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A vida cavalga


É o inverno que muda as coisas, me faz lembrar de você de novo como se eu fosse a culpada por não ser feliz. Talvez seja mesmo, talvez você nem se lembre mais de mim, então remexo velhos pertences e não me encontro, só encontro você. Remexo números, não te encontro, ligo à telefonista, simpática, quase chora comigo, esses homens que nos esquecem são foda... Esse é o número mais próximo, então ligo, você não está mais lá, mas alguém diz “ele está em tal lugar”. A telefonista me dá então a porra do número do tal lugar, sem certeza penso te encontrar, alguém atende pelo teu nome, te encontro, é você, meu antigo amor!

Simpático como sempre! Casado, mas simpático. Com um filho, mas tão amoroso como sempre. Mudei de casa, você não sabia, e você me disse que foi me procurar numa noite com flores e vinho às mãos, e que por isso não me encontrou. Mentirinha bonitinha, me conquistou. Que saudades de você, do seu beijo, do seu abraço, do seu amasso. Acho que aproveitei pouco, muito pouco, não te dei devida atenção, eu sei, me arrependo, sou libriana, quero tudo vindo, quase nada indo.

Mudei de jeito também, você não sabe? Não saio mais em tantas baladas, parei de fumar, me conheço mais, gosto mais de mim, estou só um pouquinho mais gordinha, sem tanta diferença, acredite, estou mais bonita. E não cavalgo mais, você acredita? Eu também. Só falta você pra completar, mas não tenho coragem de dizer. A vida cavalga, eu parei.

Determinado momento você disse que é importante agarrar as chances quando elas vêm. Não esperar que aconteça, apenas estar esperta para a hora que acontecer. Sei que não foi por querer, mas parece que isso me feriu lá dentro, sem você perceber. Eu sei que não foi por mal, meu amor, nada vai me fazer tão mal quanto esta vontade de te pedir desculpas sem tempo, essa vontade louca de voltar no tempo e te agarrar, esperar que aconteça e estar esperta para fazer acontecer.

Bem, me ligue um dia também. Vamos sair, quase eu disse, tomar um chope, você não pode, agora tem família e não vou insistir. É errado, nem sei se tenho coragem. Acho que teria, te beijar de novo como antes valeria. Matar-me mais um pouco por não ter você, recriar-me por segundos eternos nos teus braços que um dia me tiveram mulher. 

É o inverno que muda as coisas assim, faz a gente amanhecer cinza com saudades do passado que passou entre os dedos, feito areia de ampulheta que a gente não agarrou. Eu te amava e não sabia, me perdoe, meu amor. Seja feliz, seja feliz, vou desligar. Eu ainda tenho a poesia que você fez pra mim, preciso desligar pra não chorar. A vida cavalga, eu não mais...


CRiga.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Áries


Bota seu batom vermelho
o único, o melhor.
Quero te sangrar com a vida que sou.
Eu sou.
Eu sorrio.
Só quem compartilhou a alma dessa doce vibração
pode dizer-se livre, ariano.
Como um passeio de bicicleta,
um pedido de desculpas.
Um trovão à meia-noite!

Para minha amiga,
Alessandra Nalio.


CRiga.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Boa sorte


A garota maquia o rosto, refaz o sorriso.
Há vários séculos há várias esperanças –
os anos dirão sobre pontos a chegar.
Ela não precisa de pontos cardeais
nem de padres ou bispos,
ela não quer aprender xadrez.

Há uma discreta sentença no olhar de lado.
Deixe dizer e sorrir juventudices,
tem tempo.
Peça que sabe sim fazer a tempo,
não é peninha boiando
ao bel-prazer de qualquer brisa.

Perdidos somos nós, há um medo
simples de nos assumir poetas.
Versos que correm inteiros soberanos
no vácuo do olhar de lado,
não compreendem plenamente
o tamanho da peninha que bóia.


CRiga.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Vila Leopoldina


Ele não sabia que, entre as suas pernas enquanto sentado no corrimão do cursinho, ela sorria pedindo sua atenção. Ele não sabia que o coração era tão traiçoeiro quanto o tempo, que não curava feridas porra nenhuma. Ela cantava aquela canção do Robert Plant, dizendo que se lembrava dele na hora em que loirão gritava “I burn in love”... Ele sabia inglês, mas não quis saber o que significava.

Anos depois, visitou-a sem culpas de entender. Na verdade sem mais nada – naquele coração cego e surdo por sensatez jazia o vazio de uma tristeza incomunicável, um tempo cinza chuvoso de setembro e um vagar pela cidade e parar na sua casa para um oi.

Almoçou com ela e com a mãe, o almoço do pai falecido. Ela tinha novos discos, e conseguira achar aquele do Terence Trent D’arby, com “Seven More Days”, de um velho comercial de jeans em que o cara ficava um tempão esperando a namorada se vestir, ele num carro conversível, fez sol, fez chuva, e ela sai vestida no jeans perguntando: “demorei?”, e ele responde: “não, acabei de chegar”.

Ele demorou... um namorado viria vê-la amanhã, gostava de Beto Guedes e Belchior. Ele não conhecia, mas sabia do “não dá mais” brusco do seu olhar. Ele a conhecia. E ela o conhecia, e sabia que saindo dali ele compraria discos do Beto Guedes e do Belchior. E comprou mesmo.

Ele foi embora não arrependido de ter ido, nem arrependido de ter se feito cego anos antes, nos corredores e corrimãos do cursinho, ou à caminho do ponto de ônibus depois das aulas encerradas tarde da noite. Foi embora arrependido de nunca ter convencido ela que sabia dos olhares pedintes, das traduções, dos códigos tão jovens. Arrependido da insistência em dizer amiga, amiga... Amiga, palavra triste quando se perde um grande amor...

CRiga.



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Chovendo elefantes


Quando for água só quero ouvir
o som do pneu contra o asfalto
falando alto à alma sedenta
cheiro da chuva, selvagem poesia.

Por enquanto acidentes acontecem
todo dia.
Nunca aprendi no circo da vida
domar paquidermes para o show.

Agora fecho o guarda-chuva furado
dou de comer, finjo a seriedade
dos ativistas do Greenpeace.

Cheguei até aqui, promessas quebradas,
ruas desertas, feridas abertas  
manchando apenas os cadernos.

Que meu sangue sirva na transfusão
aos pobres elefantes que passarão.

CRiga.