quinta-feira, 17 de março de 2016

Guerra das flatulências


Algumas micro e inodoras,
mas que nas ruas provocam
cheiro de gás lacrimogêneo.

Alguém até que contorce o orificiozinho
ou zão, depende do cargo e da posição,
mas é pego em grampo da PF.

Um simples peidinho
fedido, sim,
agora vira manchete de jornal.

Nesta guerra quem come prego
não sabe o cu que tem.

CRiga.


quarta-feira, 16 de março de 2016

Fábula (los barbuditos de papá)


(esta é velha... mas ainda cai muito bem, apesar das barbas ralas da moda)

Era uma vez aqueles barbudos que nas mesas dos bares pensavam fazer revoluções. Aqueles barbudos cansados falando "temos que fazer isso, temos que fazer aquilo". Bêbados, cuspindo enquanto bradavam de suas mesas: "vamos derrubar o reino, viva o vermelho".

No dia seguinte, aqueles velhos panfletos reutilizados, xerox preto-e-branco, uma horinha distribuindo no Centro e... uma parada pra cerveja e mais revoluções de mesa de bar. Não tem nem muito o que reclamar, mas como a moda é ser contra o que está dando certo, até barba forçada na cara vale. E assim pensam plantar a revoluçãozinha vazia e com o velho espírito dos porcos de uma história de George Orwell, quando no final a gritaria era tanta que não se distinguia mais quem eram os homens e quem eram os porcos.

Ora ora "companheiros"... cresçam! Tenham filhos, ou trabalhem para sustentar uma casa. Daí esta brincadeira de revolução vazia vira só histórias que terão vergonha de contar no futuro aos filhos. Esperamos que sim, porque ninguém merece andar pra trás...

CRiga.
 (clique na imagem para ler)

terça-feira, 15 de março de 2016

O gato subiu no telhado

Tem dias sim que é melhor a ignorância santa. Quem canta muito vai bem, obrigado, mas quem ri de tudo é desespero, dizia Vitor Hugo. Nem vale tanto a cerveja gelada, uma conversa de revoluções de quem tem o diabo do conhecimento no corpo. Talvez nada aconteça. Talvez tudo. A garoa queima o rosto. O líder sorri de novo, mas os gatos da rua finalmente saíram das latas de lixo, as moradas perfeitas. Resta rir das piadas, miadas. E escrever um conto com o nome do laranja-amigo, ganhar os dois mil, porque isso é menos crime que corroer feito ácido invisível pelos cantos, miando, subindo aos poucos, mijando nas cabeças. Dizer amém jamais! Viver na santidade da ignorância talvez seja melhor. Mas não abro mão das minhas letras – nem que tenhamos que voltar à doce ingenuidade de acreditar em líderes que sorriem de novo, ou acreditar que Deus é um puta músico-poeta do caralho... Lá em cima do piano tem um copo de veneno. Quem bebeu foi um poeta, famoso depois que morreu.

CRiga.


segunda-feira, 14 de março de 2016

Aquele garoto morava numa clínica


Escreve muito, o dia inteiro, pulso vermelho desenfreado. É uma conversa desconexa com qualquer deus ou com demônios que explodem do inferno dos espetos na sua cabeça.

Que venham as cenas:

Uma garota, uma risada debochada, um olhar qualquer, uma carta e um buquê vermelho diretos no latão da escola. Choque. Rejeição. A tempestade quase morta num óculos fundo de garrafa. Mãos puxando loiros cabelos, apertando o pescoço fino: a garota nunca mais acordou, o garoto nunca mais dormiu.

Naquela clínica tranquila feito céu dos loucos, espocava de sua cabeça aqueles poemas sem nexo, até a hora chegar cavalgando dilemas sobre a mesa. Pulso amarrado apertado não sabia por que, salinha-gaveta quente fedendo a carne queimada. Um espeto na cabeça, algo explodiu - e não era mais um poema…

CRiga.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Os olhos velhos




Horizonte foi mais largo quando eu vi você partir,
pontinho preto num sol vermelho
morrendo no fim da tarde.

Sobrara um gole do vinho tinto
na tua taça sobre a cadeira de balanço,
e eu chorei,
corri à estrada escura,
perdi-me no pó levantado pelo vento leste
e fui barro, à lua cheia, à noite inevitável.

Quando amanheceu,
varanda e vinho eram os mesmos,
e a estrada, horizonte,
não trariam você de volta.

Quando amanheceu,
meus olhos eram mais velhos,
e você pedia pra eles nunca envelhecerem.

Meus olhos estão velhos, meu amor,
porque você esqueceu de deixar comigo a fórmula
de nunca envelhecer...

A varanda ficou velha
o vinho ficou velho
e a cadeira, de tão velha,
balança sozinha, no vento leste,
esta besta saudade da inocência.

CRiga.


quinta-feira, 10 de março de 2016

Há um tempo inevitável



É quando, depois da luta de uma vida, você se encontra confuso, sozinho no meio da sala, e tem tempo de se lembrar das coisas que esqueceu guardadas.

As coisas...

É quando você tem certeza que naqueles velhos pertences guardados em pó, esquecidos no fundo da estante, está a solução para as crises dessa confusa modernidade.

E ao folhear velhos diários procurando as letras eternas, percebe o quanto têm razão as juventudes. E que aquela sua juventude, corajosa, eloquente e cheia de vida, simplesmente não te responde qualquer suspiro confortante.

Quem unicamente fala contigo é um vento – depois de tanto tempo, você consegue ouvir sua voz, e ele não sopra mais a primavera de uma vida inteira pela frente. Entre os frisos da janela fechada à tarde de inverno, ele canta com deboche sobre as letras eternas que não te servem mais pra nada, simplesmente, nada.

É quando a tão bem falada experiência apenas lhe dá a ciência da eterna hora certa de se retirar.

CRiga.