segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Edu Venâncio - um flash de olhos verdes



Haverá sempre um setembro primavera,
um flash na vida da gente...

Haverá sempre uma flor a menos
a ser eternizada na vida da lente...

Quem não esquece é que sente,
quem conta e se dá conta:
trezentos e poucos dias atrás!...

Os jornais que contam aquele dia
já não existem guardados mais,

Mas o flash de olhos verdes
e a saudade de uma boa primavera
permanecem congelados
num inverno insistente
dentro da gente.

A gente se vê
fotografando anjos e estrelas
sem chefes nem fechamentos
numa dessas pautas loucas aí do céu!...
CRiga
(Há oito anos... o tempo passa, meu querido amigo!)






sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Quarenta

Agulha travada
na sujeirinha do velho vinil –
uma nota só no solo triste de uma guitarra
e num grito mixado de solidão.

Meio emeéle
no vidro do perfume francês –
um cheiro só na fragrância de perder os rumos
insistindo em guardar lembranças.

Fotografia desbotada
no bolso do surrado jeans –
uma cor de pó gritando no assoalho comido,
um nome rangido, abafado.

Botão de rosa pendurado
no caule quebrado do abandono –
plantas revirando em nó no sedento jardim do quintal de pedra
invadindo a casa, um dia lar.

Morri, vivo,
procurando tolos atalhos 
nas coisas que mofaram,
nos objetos sem objetivos.

Um dia desistiram de mim,
sem me avisar, não foi por mal –

sexta-feira eu programo
meu próximo inferno astral.

CRiga.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Irmãos de coração

(clique para ampliar)



O choro de uma criança sempre toca. Ainda mais quando lindamente se refere a singelas emoções. Hoje vi meus dois meninos chorarem – e precisei segurar a onda pra não acompanhá-los!...

Buscando Francisco em sua aula de desenho na biblioteca, vi que estava muito cabisbaixo. Perguntei o que havia acontecido – nem bem ele disse a primeira palavra e todas as outras misturaram-se molhadas aos soluços de sentimento. Um amiguinho seu da aula de desenho havia dito que na próxima terça-feira seria a última vez que frequentaria a aula. O detalhe: este amiguinho dele tem uma deficiência, e, apesar de ser bem mais velho que Francisco (segundo ele, perto dos 20 anos), tem a idade mental de meu filho. No entanto, é o “amiguinho” que ele mais gosta. Partiu meu coração, parte 1.

Na hora do almoço, peguei um trabalhinho de escola de Francisco que chegou ontem em casa, para transcrevê-lo aqui no Desmofando. É um trabalho de poesia, cujo tema escolhido por Francisco foi seu irmão, Caetano (o desenho acima é a capa do trabalho). Caetano estava em casa porque não tinha aula, e mostrei a ele o trabalho. De repente, vejo Caetano largando a folha sobre a mesa, e indo ao banheiro – foi enxugar suas lágrimas de emoção. Partiu meu coração, parte 2.

Também não é para menos – leia a poesia que Francisco escreveu a Caetano (juro, com minúsculas correções ortográficas):

Sem você! Irmão de coração

Meu companheiro de coração e de sangue, uma pessoa muito importante, você não sabe o que sinto por você, o que vai acontecer.

Quero você só pra mim, sem você eu tenho fim, somos irmãos de sangue, quero você na minha vida, tudo por você eu já sabia, guardamos segredos, dividimos brinquedos.

Mas quando a gente briga depois volta, só somos nós dois, somos como feijão com arroz.

Quero você só pra mim, sem você eu tenho fim, somos irmãos de sangue.

Para onde você vai eu vou, se sou seu irmão ou não sou.

Quero você na minha vida toda, você vai ser o coroa!

Quero você só pra mim, sem você eu tenho fim, somos irmãos de sangue!!”

Quando eu era mais jovem, e pensava em ter um filho um dia, já tinha um nome escolhido: Clarisse. Veio um menino, Caetano; depois outro, Francisco. Clarisse ficou apenas numa poesia.

E, para falar a verdade – prefiro muito mais a poesia de Francisco com Caetano!

CRiga.



terça-feira, 15 de setembro de 2015

Cartão de ponto

Tinha um menino que todo dia esperava o pai chegar da fábrica, cinco da tarde, a fumaça cinza aos poucos dando lugar ao fim-de-tarde na vila operária. Ele trazia balas. O pai sempre trazia balas. E o menino gostava daquelas balinhas de botequim, mas gostava muito mais quando o pai aparecia na esquina, e o menino saía correndo pela calçada ao seu encontro, bracinhos e brações abertos. Aquele cheiro de tabaco, o macacão cinza da fábrica, as mãos quentes, grossas. Um passeio de mãos dadas de volta pra casa, contando o que se fizera naquele dia. Aquele jeitão, sorriso cansado - mas sorriso de ouro pro filho. E as balas, sempre balas.

Um dia o menino não esperaria mais, o pai já sabia. Um dia ele estava na esquina, conversando com uma menina sem mãe nem pai, morava de favor na casa de tios distantes. O pai foi levar balas, a menina aceitou, e o menino amarrou a cara com vergonha. Não faz mais isso! Eu nem gosto dessas balas de botequim! Não quero que ela te veja assim, com essa roupa de operário, sujo, cheirando a...! O pai entendeu que a espera agora era só questão de hormônios. Não mais trouxe balas.

Quando chegava todo dia, agora o pai parava no portão de casa. Olhava a mesma esquina, sacava seu cachimbo, olhava o filho e a menina sumindo, se perdendo. Só olhava, não falava. Ficava até o filho e a menina sumirem da vista, e a fumaça linda da fábrica dar lugar ao fim-de-tarde docemente melancólico.

A menina depois apareceu embuchada. A mãe entrou em pânico, acusou, xingou. Tão cedo, um filho! Como vão criar? A vida de vocês acabou.

O pai só espiava. O menino nada dizia. A mãe condenava os dois pelo silêncio. O pai saía à calçada, afundava o tabaco no cachimbo, e olhava a lua, operária, batendo cartão em seu turno.

Anos depois não se sabia o paradeiro do menino. Cansado daquela vila cinza e histórias demais iguais, fugiu com outra menina sem pais. A outra menina, a mãe, morreu no parto. O bebê ficou na casa dos avós paternos, muito bem criado.

Cresceu, menino bom. E às cinco da tarde, permanecera aquela mesma fumaça cinza aos poucos dando lugar ao fim-de-tarde na vila. E um menino que esperava no portão de casa, todos os dias, aquelas balinhas de botequim. “Vovô chegou! Vovô chegou!”.

Um dia vovô não chegaria mais, o menino já percebia. Pulmões prejudicados, aposentaria indigna, tardes no portão de casa olhando uma esquina, um nada. A vida também bate cartão. O menino tratou de crescer.

Tinha um velinho na cadeira velha que todo dia esperava alguém no portão de casa. E às cinco da tarde, a fumaça linda aos poucos dando lugar ao fim da vida. Ele via despontar na esquina um moço bom, de macacão cinza, sorridente, orgulhoso ganhando a vida à frente - e lembrava de alguém. O moço bom sempre trazia balas. A vó sempre maldizia, ele tem diabetes, ele tá doente, não pode comer doce. Mais dia menos dia não haveria mais vovô no portão esperando tanto às cinco da tarde, silencioso, de olho na esquina. O moço bem já sabia.

Tinha um velho que todo dia esperava o moço chegar da fábrica, cinco da tarde em ponto. Estender as mãos, e sorrir. Sorrisos cúmplices de ouro. Uma fumaça que insistia em ser bonita dando lugar ao fim-de-tarde, a lua batendo cartão em seu turno. Algo pode falhar na vida, menos os turnos de cada um. E as balas, sempre as balas!

CRiga.