quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A cicatriz que diz


Mergulhe em si e crave as unhas
No touro que corre desenfreado
Galopando a noite escura da tua alma.

Encare os olhos vermelhos
E cometa o ato necessário:
Faça sangrar, mas não o mate
Nem queira tornar-se amigo.

Arranque das entranhas do feroz
a energia pra gritar nos versos
Todas as suas verdades.
As mais maldosas também.

Serás finalmente poeta
Dono das tuas letras
Ferida aberta
Futura bela cicatriz.

CRiga.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O Natal no vip das autoridades


Há um muro
De olhos com pena
Concreto de orelhas
Desinformadas sobre mim.

Um muro cego, egos fracos
Às minhas letras destino.
Um muro que insiste ouvir
Lamentações que não existem.

Uma barreira transponível
Mas eu não quero me fazer visto
Nem quero me fazer ouvir.

Não quero, entenda!

Quero apenas me deixar passar
Levando novidades que não são suas
Pra nova-velha ceia do sobreviver.

Aquela em que de fato precisem das minhas letras
Bem escritas e bem faladas
Num discurso de como sempre trabalhar.

CRiga.

(em resposta a Sangue nos zóio)



quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Proibido colher flores


Daqui só vejo o cinza de asfalto
Onde apenas pombos sujos
Decoram a melancolia.

As poucas árvores que há
São bonsais de estimação
Quase engolidas pela “paisagem” –
Palavra demais bonita
Não combina com a cidade.

Olhos vidrados no movimento dos carros
Pássaros maliciosos cortam a travessia
Mudos – ou o barulho suga seu palavrão
Contra o carro do ano
Em excesso de velocidade.

Procuro sobreviver nisso
Que se convencionou chamar-se de selva.
Preferiria procurar cipós pra doce amiga
Artista que molda apanhador de sonhos.

Procuro o sentido de Manoel de Barros
Mas aqui a simplicidade está apenas
Na placa que me proíbe
E não me explica
Por que não posso colher as flores
Do jardim da Prefeitura.

Para os amigos Andreia Medeiros e Danilo Amélio

CRiga.

(foto de Flávio Costa)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Ar rarefeito


Não espero nada.
Um canto de passarinho
Um silêncio confortante.

O lugar que mais amo
A lembrança mais singela.
O perdão de fato
Teu tato no meio na madrugada densa.

A festa.
Uma fresta no muro severo
Deixando a brisa consolar o rosto.
Um gosto, qualquer gosto
Um jeito de você me sentir de novo.
Um escrito maldito que preste
Que peste de mil vidas espero!

Um sol que me silencie
Uma noite que me denuncie
Um querer viver consciente
De que tudo vai passar
Não vai, nunca vai…

Vejo carros passando em frente ao bar
Estou sozinho
Sei que ninguém vai chegar.

O mundo inteiro poderia parar
Ar rarefeito
Eu tento não esperar.

CRiga.



terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Traição



A paz não é algo tão perfeito assim.
Você a pega com carinho às mãos
Feito pomba branca
Mensagem da nova era.

E no dia de sol perfeito
Solta na mais bela esperança
De um grande feito histórico
Um poema de livro escolar.

E ela voa, meu camarada...
E ela vai altiva, símbolo cafona.
E de repente ela olha pra baixo
Sorri de canto e apenas suja
O terno do teu domingo perfeito.

CRiga.



segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O vale escuro



Aquele profundo puxar e soltar de ar.
Você não vê o abismo dentro dos olhos.
Uma cordinha te segura, pescoço a prêmio.
A pele vermelha diz mais que o âmago amargo.
Mal amado. Paga dívidas pesadas.
As asas imaginárias foram quebradas, amassadas.
Dentes trincados à boca aberta no asfalto
mal cuidado, cheira a mijo de mendigos.
Amigos são rimas que não rimam mais.
Aquele profundo não sei o quê
atalhos perdidos, um vagar vagabundo.
Um mundo inteiro pra se preocupar
e uma vontade imensa de dormir, sonhar.
Fugir.
Boiar.

CRiga.