sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Horizonte musical



Depois do silêncio você consegue escolher uma música que te acompanhe pelo dia. Nada nunca será perfeito, mas há horizontes em que você pode depositar aquele brilho escondido da alma que quer construir. Guarde pra si seus monstros, porque eles naturalmente hibernarão à medida que o sol na linha infinita seja a meta – porque de fato você nunca terá a luz às mãos, mais tão próximo a ela você é mais você. E depois tudo será menor dor, mais amor, mais laboro feito abelha cuidando de viver e dando vida aos nossos necessários jardins. Às nossas necessárias margaridas e às nossas sementes cada vez mais crescidas frondosas árvores, um dia tão grandes e belas não caberão mais em nosso jardim – são árvores que nasceram para avançar as nossas cercas, em direção aos seus horizontes de sóis de novos dias, novos tempos. E eu agradeço: se não tenho um “primeiramente qualquer deus”, tenho gente que me acompanha. Depois do silêncio vem a vontade de falar: o mundo sempre parece começar agora, e isto tudo é muito bom!

CRiga.



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Quinta-feira de limpar cinzas



Há o silêncio que dói.
O silêncio cortante, gritante.
O que anuncia o cinza do dia,
a incerteza, o nada incrustado
no DNA do minuto seguinte.

Só que minutos viram horas.

Nem um ai, um alô
para aliviar uma pseudo dor.
Haveria amor
se silêncio rimasse com paz.

O silêncio tortura as horas.
As horas viram o dia,
mais um jogado à brisa poluída.
A culpa é da cidade sem espírito
que apenas grita buzinas e caminhões.

O silêncio é monossílabo, é só.
Raspa na garganta, nada diz.  
Eu acho é que ele tem é medo
de somente ser feliz.

CRiga.



segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Vou me varrendo




Liste os seus monstros. E resista.
Leia um livro, uma revista,
invente um poema.
Afogue o Godzilla no vaso sanitário.
Lave a louça, ouça um velho Rush.
A comida está pronta,
a semana encaminhada,
a entrevista editada –
espero que dê tudo certo.
Sobraram preparos e cervejas,
precisamos economizar novamente.
Faltou amor, precisamos transar loucamente.
Eu tenho medo é do cotidiano,
ele me devolve monstros e muito pó –
vou varrendo só pra debaixo do tapete,
aquele redondo que há tempos já não temos.

CRiga.



sábado, 3 de fevereiro de 2018

Sapato velho



Uma das piores sensações de um homem é o estágio em que ele sente vergonha de seus sapatos. É quando toda a humildade que ele sempre cultivou não vale mais que a falta de lustre e couro. Quando o engraxate se torna padre confessor.


CRiga.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Críticos


Quero saber o que dizem os magos,
com seus calejados cajados de cedro
mais antigos que Jericó.

Vão dizer que saiu de moda mas é bom.
Que é bom mas se perde, o antigo era melhor.
Que tá velho pra bater o pau na mesa,
mas que esbraveja ainda seu talento.

Anos depois de morto dirão que na verdade era aquele penúltimo disco o melhor porque o último ainda tá na moda pós mortem da depressão.

Anos depois esquecerão que um dia falaram mal e louvarão tudo tudo no centenário da ex-vítima de suas excentricidades e vaidades.

Anos depois também morrerão. Sem ninguém se dar conta da escrivaninhas vazias e sua chatas máquinas de criticar. 


CRiga.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Diminuto


Há uma solidãozinha que cutuca o peito, sabe...
Um amargorzinho de folha em branco,
um medinho de não sei o quê.
Dorzinha fria que nem ponta de faca cega.
Uma sensaçãozinha de abstinência, frio na espinha
no meio da tarde de verão.
Bola murchinha murchinha,
moleques gritam as férias na quadra.
Palavrinhas à brisa morna, vão-se embora
me deixam sozinho, escória.
Agorinha eu tinha onde me escorar
ainda tenho onde morar, uma casinha
um sonho, uma cidadezinha.
Putinha essa sensação de nada
nadinha nadinha...


Criga.


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Prece prática ao contrário


Houvesse uma chama poria gasolina.

Uma luz apenas
os braços vencendo a mata densa.

Houvesse segurança
inventaria uma crise bela ficção.

Crise verdadeira, a tristeza consola
até o tempo dos poetas curar a ferida.

Houvesse um destino, deixaria malas,
recomeçaria nu trilhando descobertas.

Não há mesmo pedido de socorro,
a casa ainda não trincou
a tempestade é de verdade
e ninguém se machucou.

Engraçado ter medo do que ainda não veio,
pressentimentos são perigosos mais que cascavel.

Levanta da cama, chama a letra profissional
e também a de harmonia –
o dia começa, azeita a peça enferrujada.

Paciência, moço...
ainda tem gente que espera um sorriso teu
salvando a paz às mesas dos ateus.

Esperança minha é negar a prece
a pressa e a pressão.
Mesmo que por enquanto siga no marasmo,
não deixo rastro de fraqueza
nem entrego meu destino
à onipresente solução.


CRiga.