terça-feira, 21 de novembro de 2017

O dia do dente da roda banguela


Diga algo de bom hoje que vou embora.
Na hora a gente vacila, dá sono,
vontade de acordar aqui mais um dia.
Me dá mais um dia na memória
asfalto novo desta história.
Me conta que hoje você foi feliz
mais uma vez.
Me deixa por um triz a tristeza me enlaçar,
mas me salve quando a alma querer
se negar a voltar,
buscar os tijolos desse nosso novo lar.
Eu volto a tempo de te ver voltar no tempo,
quando a gente planejava ter apenas um lugar
que nos segurasse colonos dessas terras
na eternidade dos nossos sonhos.

Hoje é o dia que a gente é corrente d’água
fresca, contrária e pra frente.
Levado de volta à “nascente”
pelo dente da roda banguela.

CRiga.



quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Todo dia ela faz


É que eu não estou para romances.
Mantenho estandartes da seriedade
os meus óculos de grau.

Natural que faltem versos, prosas.
Nem tem a ver com espelhos
ou mensalidades da academia.

Corpo padece mesmo
é no cordão da multidão
é na falta de inspiração
é quando o pão vira o dia
perfeito na verdade do não.


Criga.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

O segredo entre os lábios


À busca-captura do espião,
anarquiza, devassa,
e na ponta da língua
arma a louca peleja de esgrima.

Depois denuncia, devaneia:
boca no mundo, sorve o abrigo,
o doce crime sabor pêssego morno
ou veluda manga da estação.

Na invasão incendeia o esconderijo
consumindo os segredos quentes,
e o fogo toma todas as paredes
até a queda depois da explosão!...

A chama que resta, então morna,
só emana saudades metafísicas...
a relva molhada, o cheiro de chuva,
o gosto da fruta que sacia.


CRiga.


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Guerra santa


Na guerra,
erra ao olhar demais pra ela.

Peca,
a igreja é mais um puteiro
que a fria solução dos fracos.

Embaraços, pernas grossas,
se houvesse religião se jogaria
aos seus pés, lavaria seus pés,
adoraria.

Na terra o cheiro é mais forte,
o sangue menstrual aduba
o transe do girassol depois da chuva –

acredita é no barro,
no carro de portas abertas
pronto pra fuga
pra qualquer Paris que se invente.

Qualquer país onde a guerra
seja santa, vestida decote
e saia curta no altar.
A cada bombardeio, escondida
numa catacumba diferente,
um perfume a denuncia.

Beato cretino nenhum tem coragem
de abrir a santa sepultura rosa choque,
encará-la pedindo olhares e amores
além daqueles que as mãos juntas
oram queimando ateus.

Na guerra
ele escondeu todo o seu tesouro
debaixo do véu da santa.
Véu transparente,
pobre santa desnuda
rogai por nós!...

Santa viva no bater dos sinos
anunciando, feito raios e trovões,
a agrura de um corpo
que só quer comungar prazer.


CRiga.


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O que temos pra comungar


Verdade mesmo, falta lisergia, energia.
Um dia à procura da canção perdida
paixão e sexo que nos acalma.

Como é chato chegar até aqui
sem certezas postas à mesa.

A primavera chove sua nobre imprecisão,
e eu não tenho flores
nem novidades pra contar.

A fuga é dos fracos.
Me dá um trago, me dá um gole,
me enrole, me engula, me esquece,
amanhã quero dormir até mais tarde.


CRiga.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Quero menos jornais


Os jornais não dão a luta quase eterna contra meus monstros pessoais – meus pesadelos sinais. Os meus filhos artistas, suas brigas, seus desenhos e suas boas notas escolares – meus felizes e doces finais. Não dão os amigos que não escrevem mais, e os novos cuja juventude em si tomo como escudo feito de arte.

Partem em mim o coração, sim, as dores do mundo – mas infelizmente resiste esta triste anestesia existencial, um solto sobreviver.

Quero ler mais letras belas do que tragédias, quero ter mais esperanças do que nas mãos as manchas do jornal – e prefiro sim esta enlatada escrita do querer, do que morrer um pouco a cada ponto final.


CRiga.


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Vontade de escrever? Minta um pouco…


Você pode escrever sobre o que quiser. Só não escreva sobre si mesmo – esta pessoa em que você nunca pode confiar…

Se insistir, mentirás. Mentirás até que convenças a ti mesmo que a verdade a gente inventa só pra ser feliz. Uma verdadezinha inventada não faz mal pra ninguém, vai…

Então escreva sobre a vida dos outros. Invente vidas batendo de frente, gente morrendo no final da história. E espíritos de almas mal-resolvidas que resolvem atormentar outras tão mal resolvidas quanto. E ponha uma saída triunfal, daquelas que levam a bengala de cedro de verdade da sala – um vivo veria apenas a bengala boiando boiando atravessando a porta aberta. Isso tudo dá prêmio de literatura na cidade onde moro.

Use muita metáfora, muito código, muita escrita que parece sem nexo – parece chique não fazer-se entender, porque às vezes até dão prêmio pra isso na ABL.

Ponha uns versos no meio, tipo poeta maldito. Palavrões também parecem adequados na modernidade.

Separações, amores imperfeitos. Não esqueça da menção a uma música antiga.

Fosse escrever sobre si, a verdade é que ninguém talvez quisesse saber. E, convenhamos, não fica bem: você ficar sozinho numa tarde chuvosa, com aquele papelzinho besta às mãos, perdido num ponto de ônibus qualquer, sola e guarda-chuvas furados, um terno velho cheio de bolinhas e um conhaque pela metade. Faça-me o favor de parar com esse melodrama, batidamente lindo, mas melodrama de escritor maldito. E caia logo à sarjeta, deitado junto à centena de cacos e uma folha de papel molhada na poça. Ninguém vai chamar o resgate. Assim você vai morrer.

E se os borrões no papel permitirem, aí estará um novo sucesso de literatura. Mas você já estará morto. Mas você não deve querer morrer. Por isso, viva a vida de outrem, que morre e revive conforme a conveniência do seu acordar. Mas mate um a cada dia, e faça (re)nascer outro pra morrer no próximo amanhecer de asfalto molhado. Assim você mata a vontade de escrever outra bobagem, e não corre o risco de ser traído por si mesmo – essa pessoa em que você nunca pode confiar.

CRiga.