terça-feira, 12 de setembro de 2017

A pata do elefante


Contra a parede,
nem sei se há parede.
Um passo à frente,
nem sei se é caminho.

Tem é uma pata de elefante
sobre minha cabeça pensante
meu peito ofegante, morro aos poucos.

Eu preciso sim de salvação
ou talvez prestar mais atenção
ao que dizem os meus filhos.

Um quarto bem arrumado.
Um trabalho de escola
O planejamento pra festa de aniversário.

O futebol na quadra, o dia na escola.
O cabelo que precisa cortar.
O dinheiro pro pastel da feira.

Eu preciso muito também
que eles durmam mais cedo...
Minha cama é a espera fria calculada
das letras muito bem colocadas
em respostas que não sei pra quem.

Pra quem devo mais que respostas,
a pata do elefante me sufoca, me endurece.
Então o sono me mata mais um dia.

A pata do elefante me esmaga todos os dias!
Esmaga a poesia que eu preciso
pro espetáculo do circo
que a vida insiste ser.


CRiga.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A bengala


Aquela talvez fosse a última vez no dia em que entrava no apartamento recém adquirido. Depois de um dia inteiro fazendo a mudança – que, na verdade, não tinha grandes volumes –, me sentaria à pequena sala já mobiliada, e talvez tomasse mais uma latinha de cerveja. Logo que entrei, o velho e bom “Seu Carlos” estava em sua poltrona predileta, ainda nova porque comprara há pouco tempo, desde que já não podia mais dividir o sofá maior com sua esposa que morrera.

Ele me olhou bem fundo nos olhos. Não era um olhar bravo nem decidido a fazer qualquer mal. Era somente um olhar cansado, mas que em dado momento parecia ter descoberto uma verdade própria que não podia mais lutar contra. Seu Carlos estava com seu melhor terno, e me esperou sentar ao sofá maior, sempre me acompanhando com a cabeça calva, a boca seca e o bigode simpático, volumoso e grisalho. Sua velha e bela bengala de jacarandá estava apoiada no braço direito da poltrona. Olhou as palmas das mãos calejadas, arrumou o resto de cabelo que ainda existia, e pousou mais uma vez as mãos sobre os braços da poltrona. Suas pernas estavam cruzadas ao tornozelo. Levantou a cabeça a mim e disse, de maneira muito serena e aconchegante:

–        Sabe... eu não deveria dizer isso, mas invejo vocês, que agora começam uma vida nova, juntos, neste pequeno apartamento onde um dia me refugiei.
–        Sente muitas saudades daqui, Seu Carlos?
–        Não... quer dizer, sim! Vim para cá, trouxe alguns móveis da casa onde morava com minha amada esposa, que morreu há alguns anos. Aqui eu reconquistei a paz, depois de perdê-la.

Enquanto Seu Carlos falava, fitava o teto e sorria também muito serenamente. Mais uma vez voltou os olhos a mim, já sério, mas nunca com aparência severa:

–        Daí que quando vejo vocês se mudando para cá, para o mundo que me refugiei e reencontrei a paz, eu não me sinto muito bem.
–        Mas o senhor também tem um belo novo lar...
–        Eu sei. Sei bem que o lar que me espera é muito bonito, já me disseram. Ainda não fui lá, estou com receios... É uma bobagem, eu sei, mas às vezes pareço querer ficar...
–        O senhor não atrapalharia aqui, mas acho que o senhor se sentirá melhor em sua nova casa...
–        Não, eu sei que não devo ficar. Não posso ficar aqui com vocês, esse apartamento já não me pertence. É que a paz que construi aqui é difícil de deixar.
–        Eu compreendo, Seu Carlos. Assim como compreendo que, com certeza, em seu novo lar reinará essa mesma paz.
–        Será? Tenho medo. Olha eu, um velho que já passou muitas coisas nessa vida, com medo... Tive medo na hora mais difícil da minha vida, quando perdi minha esposa e me sentia muito só. Eu chorava todos os dias, debruçado sobre nossa cama. Eu orava por ela, mas sentia muito sua falta. Parecia que alma dela se negava a ir embora daquela casa. Pouca coisa trouxe de lá para este apartamento, orei muito mais forte no dia que deixei a casa, e encontrei de novo a paz aqui. Vivi o resto dos meus anos sozinho aqui, mas feliz e com muita paz.
–        E o senhor agora tem medo novamente?...
–        Sim, um pouco. Mas, olha: da mesma forma que você tem certeza que minha nova casa também há a paz que preciso, tenho certeza de que vocês dois encontrarão a paz que procuram. Serão muito felizes, como eu fui.
–        Temos então sua benção, Seu Carlos?
–        Claro que têm! Glória e você serão muito felizes, podem ter certeza. O que me faltava era sentar aqui pela última vez, e dizer a você o que nunca tive a oportunidade de dizer: faça minha filha feliz, como eu fiz minha amada esposa feliz... Acho que agora começo a recuperar a coragem de me mudar daqui. Acho que era isso que me faltava. Muito obrigado!

Com seu jeito de bom velho, Seu Carlos levantou-se apoiado em sua velha bengala de jacarandá. Com as mãos apoiadas no topo dela, e com os pés juntos, me olhou ternamente e sorriu o sorriso de sua paz. Virou-se, caminhou até a porta, abriu, saiu, fechou e foi embora para sua nova casa.

Logo depois entra Glória, com a última caixa de seus pequenos pertences. Ela pára em frente à pequena sala, deixa a caixa ao chão, e senta comigo dividindo o sofá. Depois de um beijo longo, vira-se para mim:

–        Nós vamos ser muito felizes!
–        Eu sei que sim!

Depois ela se levantou, pegou a caixa ao chão e notou alguma coisa faltando na pequena sala:

–        Onde está aquela bengala de jacarandá que vimos aqui ontem?
–        Não sei...
–        Papai gostava muito dela. Acho que um de meus irmãos deve ter passado aqui e levado. Tudo bem, com qualquer um deles que estiver, está em boas mãos! Quase tudo que está aqui era dele, antes de morrer. Com o que tem aqui, já me sinto feliz! Com certeza, nós e este apartamento têm a benção dele!
–        Sim, meu amor! Com certeza!

CRiga.



terça-feira, 5 de setembro de 2017

O metal contra a nuca


É, há sim um ritmo acelerado,
e eu preciso dizer pra mim –
calma, rapaz!
Aprender a apreciar mais um jazz
e as doces bobagens de amigos
que nunca mais vi.

Amanhã é o clichê, é outro dia,
haverá a foice da morte
querendo apenas me machucar.

Machuca, então.
Marco com sangue o caminho de volta
pra não me perder, pra responder
o suficiente a todos que não conheço.

A amigos que vejo ou não,
reservo e respondo flores de um coração.

Importante é equilibrar-se na linha tênue
entre amar o necessário efêmero
e o eterno que sempre machuca.

Mas a gente se vê
e se sara por aí.


CRiga.


Margaridas no olhar


Eu estava te esperando desde o dia
em que reconheci no teu olhar
o jeito de querer me controlar
de fingir que queria me moldar
à sua maneira.

Não temos mesmo jeito...
É melhor a gente se entregar
melhor aceitar
que mais uma nova primavera
tente nos consertar...


CRiga.


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O dedo indicador


Não tenho o direito de deixar
de viver meu resto de vida,
porque alguém quer-me morto
ou não nascido.

Aponte-me a arma, então.
Mas dá-me de troco a tua alma,
deixe-me também te julgar.

Deixe-me penetrar-te o punhal seco
de ser humano – ninguém é santo
porque santidade não existe
ninguém ainda inventou.

E se hoje eu morrer assim pagão,
então serás tu o dono das verdades
o feitor das tempestades
e eu não me importo –

torto é o pau do carvalho seco
que a raiz o fez assim.


CRiga.


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Setembro como que um tapa na cara


Este ácido que corre
dos cantos das bocas distantes
é que mata a poesia que eu queria.
Os dias de semana, os clichês.
Você não sabe se arma a tempestade
se desiste, insiste sorrir sarcástico
dar adeus com a cabeça e seguir voando.
Não pediste um punhal gelado pra vomitar?
Um não-sei-o-que pra sentir um sentimento?
O vento bate uma porta lá longe, eu só sinto,
meu coração bate acelerado uma angústia
saudades dos fantasmas amigos
não os reais de carne e osso.

Este é o setembro
um tapa na cara
um aceno, vou vivendo
me aguarde primavera!


CRiga.


Esse filme eu já vi...



Cine aventura de quinta categoria, paredes vão se fechando contra o raquítico protagonista, um poeta cujas letras se encaixam ao necessário metal de fim de mês. Ou numa redoma-armadilha sob os olhos da vilã pantera-humana, a água vai subindo junto à torcida pelo afogamento da vítima preferida. Novela cujas bobagens são o principal assunto na hora do jantar, enquanto quem saliva quer mastigar coadjuvantices sem importância.

Pior que a fritura do fogo amigo é manter a calma e engolir pequenezas. E não poder dizer de maiores caminhos percorridos, aconselhar: procure calejar-se antes de conseguir abrir feridas com faquinhas de 1,99...


CRiga.