segunda-feira, 3 de abril de 2017

Pra uma vida qualquer vida (resto é morte na avenida)


Acorda com a segunda-feira
lhe dando segundas chances.
Possibilidades, remotas ou não.
Sem lirismo, sem encanto.
Há também na pele que ferve
a covardia e a doença moderna.
Aquela tristeza tonta
que não tem gosto, morna.
Por que não vomita?
Por que não goza?
Por que não dá voz?
Há segundas chances orbitando
por aí, batendo asas de ir embora.
Mas a pena é tinteiro falso, fede mofo,
dá pena de ver correr atrás.
Agora há tempo pra um poema.
Precisa agora assassinar lirismos.
Precisa do cinismo. Escrever
só a disputa pelo poder.
Não pode nem contar verdades –
o espião te mata, o futuro cai
numa conta muita cara,
a bebida que não satisfaz.
Não sabe se vai pagar,
o gosto é só sangue de barata.
Não sabe se vai chegar a tempo.
Como acreditar em milagres.
Como discar números da agenda –
o socorro é só um barquinho de papel
que desce no fiozinho de água
escorrendo suja na sarjeta quebrada.

Ele antes tinha motivos.
Agora tem coceiras,
olheiras, sono pra recuperar.
E um finalmente virar as costas,
se jogar.

CRiga.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Solidão dos dedos


Ácido,
o passado às vezes corrói a pele,
e eu sinto, sinto muito – 
as mãos calejadas perderam o fogo
escondido entre as tuas pernas.

De um outro lado você passeia os dedos loucos,
à meia-luz, sozinha,
à frente da tela de um computador.

E eu sei, há a dor,
ácida navalha sangrando lágrimas
num gozo frio de solidão.

CRiga.


quinta-feira, 30 de março de 2017

Filosofia do jeito que dá


Tento do jeito que dá, e dá certo. Nem há tanto tempo pra errar, mas o que há não será medíocre areia de ampulheta. Os discursos já sei de cor. Não interessa se você me acha louco – pouco sei que não sou. Posso não estar entre os que batem perna e pastas modernas nas avenidas centrais. Só trago a necessária pena pra corrigir excessos sem espírito. Fico entre os que têm o olho clínico sagitário, não entre as pupilas que tremem loucas à luz artificial. Vendem conhecimentos mecânicos. Só ofereço apenas a alma das coisas, e um pouco de corda pra você me puxar. Manter-me longe do precipício. É até possível que lá no fundo eu recrie a taverna. Que eu viva no inferno. O céu mecânico apenas engole a carne, a Carne Fraca da PF. Produto embutido no supermercado decadente da felicidade aparente. Não sou profeta, tento poeta. Não sou das gerações das últimas letras do alfabeto – sou de todas, lindas, amigas, amantes. Nunca mal escritas numa vida que insiste dar importância às palavras inglesas que só traduzem o vazio do trabalho moderno. Posso não estar nos trend topics, mas estou em casa pensando: o repórter do jornal da TV Globo agora diz “tá”– vai tá certo seu filho escrever assim no vestibular? Menos mecanismos, por favor. E mais amor às letras.

CRiga.


quarta-feira, 29 de março de 2017

Janaína


Quem ouviu o grito
ouviu a noite
e ouviu a vida inteira.

Os sapatos traziam pó
na volta do dia de trabalho,
as vitórias dos dias do Leão,
que é amigo
pai e mãe.

A roupa disfarçava
mas ela era a mesma menina,
a mesma.
A mãe estava no quarto
lendo Alan Kardec
com medo de descer a escada
dar um beijo de boa noite
e contar histórias de família.

Ah, menina!
O mundo é belo assim como você,
e eu te amo!
Eu quero rever a tua luz
os teus olhos azuis brilhando
e teu jeito de ensinar irmão a ler
com revistinha em quadrinhos.

Quero ver teu altar e tua felicidade
brilhando feito Jesus ressuscitando,
quero estar sempre ao teu lado
aprendendo a ler
a vida inteira
a noite inteira
feito irmãos conversando
até o dia raiar
sempre mais bonito!

CRiga.
24 de setembro de 2002,
Poemas também são feitos pra lembrar
Pra fazer lembrar, querida Jan!


terça-feira, 28 de março de 2017

Quarenta e dois


Espinhosa mata que machuca,
faz tempo que me atravesso.
O excesso não cura, nem o escuro
de um quarto ao meio-dia.

Sei de todos os segredos
até dos que não me contaram,
e eu sei porque sou puro.
Na lente do escritor há uma história,
mas esta fica pra depois –
uma varanda de conselhos e moços,
haverá ouvidos gentis.

Eu sei o caminho, eu já trilhei
com menos responsabilidade.
Sei das pedras, só tenho um sorriso
e a mesma safira sincera de confiar.
Vou correr contra o vento,
respirar o bafo gelado, viciado,
prazer em reconhecer!

Não há segredo nem na morte.
Há pedras – e o poeta já sabia muito bem.

A música mais triste não entristece,
e é melhor esquecer por enquanto
este Brasil, Vandré enlouqueceu
e todo mundo esqueceu de plantar.
Eu preciso comprar sementes...

Nem que não haja o mesmo sol,
é outono, vou curtir o vento cortante.
Há mesas juvenis na calçada, um convite.
Eu ainda sou o mesmo, me espera,
quero as boas novidades pra te contar!

CRiga.


segunda-feira, 27 de março de 2017

Pijama


Hoje está nublado e resolvi ficar triste.

Eu queria era cravar a minha estaca tinteiro
no coração do tirano o outono inteiro.
Emprestar o tempo que acumulei
a quem precisa tirar moedas do nariz,
comprar uma vida apenas honesta
e mais feliz.

Nada além da impossibilidade de tudo
é que me faz assim tristonho.
Não ser o alquimista que sopra o ouro
fazendo um sol qualquer aparecer.
Não ter pra onde correr, homem feito
se escondendo num pijama...

CRiga.


sexta-feira, 24 de março de 2017

As simples letras pepitas de acalmar


Não adianta mesmo coçar-se
coisas que não são tuas.
Níqueis sem rostos de presidentes
caem dos bolsos furados –
nada paga a paz de espírito.

Há um Brasil que tolhe direitos,
e até ser simples neste garimpo
custa caro como o desperdício
na Assembleia Legislativa.

Há valor às minhas letras,
não caras nem bancando
a coluna social.
Nem raras que sustentem
o carnê do falso lar.

Vá lá! – é preciso mesmo
muita simplicidade, meu amigo!
Não me venha com o faxina
que virou empresário
e até um deputado!

O valor que se paga é pepita d’alma,
a minha alma!
Ladrilha pedrinha de brilhante
ao meu amor que não passou.  
Se essa rua se essa rua fosse minha
eu não vendia, eu não vendia.

As letras pagam meu cobertor de ouro,
a alma é nua!
Esperança menina que orbita boba,
solta, singela num poema.

CRiga.