sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Trinta e três (e uma vida)


Cristo quando morreu.
Médico quando examina.
Que engraçado meu filho falando!
Na lousa da escola, antes um zero e vírgula,
vira o infinito.

Eu não morri ainda.
Minha doença é a memória do coração.
O meu filho vai crescer...
Nunca fui bom estudante,
dormia sempre no ponto final.

Não quero cruz nem Cristo.
Nem vacina nem amnésia.
O meu filho vai casar!
Infinito enquanto dure,
eu até que gostava de literatura.

Vieram com a cruz, Cristo me receberá?
Minha doença foi te esperar.
O meu filho, ele sim, vem me visitar.
Nunca fui de ler os olhos,
só lia bem o meu Drummond.

Romeiros chegam à Santa Cruz,
eu nunca soube rezar.
Cientistas descobrem a cura,
menos onde você está.
O meu filho vai ter filho,
talvez o filho dele tenha um bom avô.
Nunca fui bom das contas,
muito menos dos pontos finais.

CRiga.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Apenas ficção


Eu li nas notícias dos teus olhos
aflição,
mas há milagres enlatados
à nossa espera, tudo tem um preço.

Mas esta espera cheira a éter, faz frio
no cobertor que não tem teu corpo
durante as noites dissonantes.
No dia, sem demonstrar alegria,
temos que fingir apenas boa educação.

E eu perco tempo valioso
engolindo a gasolina cara
que não vai nos incendiar.
Fugindo esquinas a mil,
qual será a qualidade do rastro
que eu terei que deixar
pra não me perder?

Então eu tento o verso novo,
uma revolução nos dedos cansados,
mas caio soldado baleado no deserto –
decretaram a paz que mata mais.

Eu li nas ilusões dos teus olhos
um pedido de atenção,
mas há tragédias e romances
que precisam ainda ser escritos.

Percamos este tempo, então.
Afinal,
tudo é apenas ficção.

CRiga.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Foge, me encontra!


Esbarro no perigo
sou teu amigo
no teu seio que foge
que me encontra
que me olha.

A gente escreve livros
e caça grilos de graça.
Eu te desejo. Muito. Ponto.
O final fica pra depois...


CRiga.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Faro Oeste (mailing)


Pitoresca,
região onde brota a cada governo
um jornaleco em cada esquina.

De onde brotam do asfalto caro
velhos amigos camaradas de campanha
pseudo jornalistas salivando indecências
falsos moralistas ensaiando cortesias
pedintes pistoleiros mercenários
sem bala qualquer na agulha.


CRiga.

O missivista da perdida garrafa


Meu antigo amor,
minha amiga, meu sonho que passou,
recheado e enfeitado
com tudo o que aprendi.

Nada aprendi!

Minha doce impressão
de amor abandonado na esquina –
por que só quando a gente envelhece,
sonhos resolvem nos corroer
e os olhos aceitam o perdão?

Não me reencontrei.

E perdi a ideia de quem és,
perdi rumos e rumores,
um cabelo feito pra reconquistar
e uma juventude toda pela frente
só pra recomeçar.

Minha cara, meu segundo rosto,
te escrevo o sangue inútil 
deste cansado coração sem mais letras.
Aguardo novas notícias tuas 
num selo carimbado de ilusão.

Triste coleção.

CRiga.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Um músculo cibernético


A pior tragédia humana
é a falta de paixão,
caminho que leva letárgico
a lugar algum nessa cidade.

É a pior tempestade a falta de paixão,
coração que pulsa teimoso
sobrevivente amargo na metrópole.

É a pior cidade do cosmos,
passo descompassado falciforme,
fome de viver a mil!

A falta que faz a paixão
derruba o homem mendigo de calçada,
faz da carcaça arte falsa pós modernista,
pós porra nenhuma,
pó sobre o sobretudo negro
do vampiro que quer sangrar.

É a pior história a falta de paixão
ficção, biografia, best-seller
sem começo, meio, fim.
É inventar esquinas lisérgicas,
repletas de amores disfarçados
da multidão que você faz parte.

É estar tão perdido
com velhos e bons mapas às mãos,
e negar o caminho reto
porque você simplesmente se acostumou 
com paraísos tortos
e anjos mortos a ressuscitar.

A pior tragédia, poeta,
é a falta de paixão.
E pra isso o remédio amargo
é sobreviver fingindo sentir a dor
que deveras queria sentir.


CRiga.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Ao vento


À tarde descobri um verso,
ele se foi.
Havia na espreita
feito animal selvagem,
fugiu.
Seu perfume ficou no ar,
um sorriso apenas,
era tarde.

O problema é o tempo que não temos
pra perder.
O tempo mudo paralítico,
gritando correndo morrendo
feito areia ampulheta
escorrendo entre os dedos.

O problema é o tempo que nos separa,
cada um tem o seu,
cada um seu sal da idade.

Muito tarde descobri que o verso
não te atinge, eu sei –
melhor que seja assim.


CRiga.