quinta-feira, 7 de abril de 2016

Militância de flores


(foto de Diego Padgurschi /Folhapress)


Há um Brasil que insiste
invadir minha história de amor.

Trocam-se flores multicores
pelo amarelo e vermelho –
as flores não ficam tão tristes
desde os tempos de Vandré.

Trocam-se poemas por discursos.
A carta anônima romântica
depositada na caixinha do correio,
vira fraca denúncia estampada
em qualquer página de jornal.

Troca-se perfume por gás lacrimogêneo,
vestido chita por camiseta de estrela.
Troca-se convite a um passeio
por convocação a passeata.

Eu prefiro sim a flor colhida
à morta pisada no canteiro,
um coração partido
a tomar partido do terror.

Há um Brasil que resiste
se reinventar histérico
na minha história de amor.

CRiga.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Namoro


Procura-se alguém que diga:
“se você morrer, quero morrer também!”

Procuram-se mãos dadas
e sílabas caladas
num olhar de praça de domingo
sem ter o que fazer.

Procuram-se primeiras vezes
e desvios na rota do trabalho,
entregar as rosas vermelhas
roubadas daquela vizinho
que fura a bola dos meninos.

Procura-se sabor morango
sorvete derretido
de tanto só olhar,
de tanto só falar de amor.

CRiga.


Ilha



Um dia, quando fui te procurar,
hesitei na balsa,
mas encarei o velho mar.

Na ilha parecia um sem fim.
Enorme escadaria,
calvário que eu não sabia.

Romeiro, barba cansada ao vento.
Havia um farol na foto que trazia,
e fui de camisa azul, bandeira da minha paz.

Nas trilhas fui chama,
na música te chamei –   
cuida,
que o tempo vai dizer
sobre esperas e esperanças.

No alto forte mais perto do céu
canhões defenderam litorais.
Não tenho medo mais de guerra –

s
e preciso sabes que roubo estrelas,
e roubo o ladrão,
boto bomba na bomba do destino
e decreto mais uma revolução.

Cuida,
que há bom tempo na previsão.

CRiga.




segunda-feira, 4 de abril de 2016

O mel da ilha, o mel da mineirice

Procurar-se no destino sóbrio
reto de uma reta só,
a gente que é meio louco
acha um pouco chato
essa coisa de procurar.

Fiz um monstro na neve do inverno,
bobo monstro, bobo inverno.
O sol veio e derreteu
a minha triste fé no feio.

Na pedra a gente se acha mais,
no chão de terra bem batida
em Minas, São Paulo, na Ilha.
Eu creio é nos piratas mancos,
no seio da liberdade no mar.

Sou escravo mascavo bastardo,
a gente é meio mineiro às vezes
e se perde
querendo se encontrar...

CRiga.



sexta-feira, 1 de abril de 2016

Eu sonho os sonhos teus

Há jardins nos olhos teus,
queria eu que fossem meus.

Flores coloridas, árvores tão lindas
um pomar onde correm crianças
um luar onde alcançam os sonhos.

Deixei de jardinar, meu bem,
apesar de tanto querer bem.

Deixe-me à sombra daquele ipê,
à margem do rio no horizonte.
Sou planta daninha que sorri
que te ama, mesmo assim.

CRiga.


A chama e o fim do mundo

Te amo tão primeiro amante do mundo,
tão poeta de versos roubados e clichês  
(e por isso amor clássico verdadeiro). 

Te amo muito e tão pouco no mesmo instante,
a cada segundo que te amo mais
(e nunca tanto que não possa mais).

Te amo tão destino azul e certo ao sul
tão certeza feito o toque sutil de Deus
tão certeiramente feito flecha tupi
que não machuca.

Amor que encanta feito flor colorida
na mata fechada,
feito pássaro tristonho
que mesmo tão triste luta e canta
a esperança toda verde.

Te amo feito último amante
no beijo do último segundo
antes do agendado fim do mundo –
que sem coragem de acabar assim
daria mais uma eternidade
pra humanidade se consertar.

CRiga.