sexta-feira, 4 de março de 2016

Opressão


Quando houve a chance
houve o tiro certeiro no carteiro
que trazia a boa notícia.

Não chorou sobre a carta derramada,
sobre o sangue que manchava a escada.

Bateu a porta, trancou-se do lado de fora
enquanto a chuva batia no peito
e no coração sem batimento.

Foi o amor que morreu correndo,
fugindo esquinas que não se soube
voltando mensagens que não se leram.

Dá-me a carta, não quero o tiro,
dá-me a morte, não suporto o silêncio,
dá-me a vida, volta na esquina,
e ressuscita o carteiro...

CRiga. 


No meio da avenida da minha vida

Há quereres que guardo sete chaves
não valem mais a pena...
Você me acena, eu não te entendo,
eu tenho pena até de mim.

Cruzo a avenida distraído, de carro,
no rádio uma música dos anos oitenta.
Na faixa em frente você passa, atenta aos carros
e à mão do novo namorado.

No momento exato de eu voltar a te esquecer
você me vê, me acena, menina linda morena!
E volto a me perder, entro na rua errada,
como errada a rua foi a vida inteira.

Você não passou naquela minha rua,
e esta rua já é minha –
esta rua hoje escura avenida
de uma vida de sinais vermelhos.

CRiga.




Panfleto poético

Eu queria escrever uma fábula, mácula,
sobre macacos que perderam seus galhos
sobre sanguessugas em jejum forçado
sobre minhocas fritando sozinhas no asfalto.

Eu queria escrever uma crônica, irônica,
sobre o revanchismo medíocre que caiu como fruta podre
sobre a ponte até a Corte que ruiu no meio da travessia
sobre vagabundos gordos emagrecendo no desespero.

Eu queria escrever uma poesia, harmonia,
mas me falta, nestes dias, apenas uma inspiração.

CRiga.


quinta-feira, 3 de março de 2016

1 970

(acabei de ler “A Casa dos Espíritos”, de Isabel Allende, e por conta dos capítulos finais, lembrei-me deste conto)

O perfume do jardim vagou pelos tempos, até a década cujo céu cinzento do Brasil mais parecia o inverno polonês, cavalos às ruas, rumores do fim do mundo, corações pensantes, vigilantes, cabeças decepadas, rostos todos iguais.

Você fugira pra França, ser artista, pintava flores exóticas nada européias. Sozinha, com raiva e medo do mundo, esquecera-se de mim e da luta contra a direita.

Esquecera-se da cama no verão, e como fazíamos amor no inverno, tão quente quanto qualquer estação – que, no Brasil àquela época, era uma questão e um cansaço estampados nos rostos iguais, nos rostos do Brasil.

Eu ficara na guerra desumana, você na humana, bem distante.

Um dia eu tinha de fugir também pros teus braços, até a França. Passagem já tinha no bolso, mais um ramalhete de flores do Brasil, pra você pintar o antigamente, o nosso antigamente.

Só que no aeroporto, um tiro da direita acertou à esquerda meu peito: a guerra desumana não havia me esquecido, como você me esquecera. “Talvez, tenha sido melhor assim...”, a frase de um general, a última que ouvi, e consenti.

Você não saberia, nem ia saber, não fosse o perfume do jardim que vagou no tempo, atravessou o oceano, derrubou da tua aquarela tinta vermelha, e você borrou a nova pintura com uma lágrima de saudade, a obra-prima do desencontro: o mar borrado separando o guerreiro cansado de guerra, e a artista cansada de arte abstrata.

Eu fiquei famoso, estampado num jornal da esquerda.

Você ficou famosa, estampada num jornal da Europa – artista de vanguarda que borrava telas como ninguém, rica, brasileira, com saudades dos nossos verões.

CRiga.
 
 

quarta-feira, 2 de março de 2016

Hibernar contra tiranos

Subjugado, acho que parei de julgar.
Os olhos permanecem demais atentos
aos erros e aos acertos,
mas eu prefiro hibernar.

Quem me cobra opinião cospe ácido sulfúrico
mas eu continuo, quieto, manco, torto, santo.
E antes de o canto majoritário querer me dominar
eu corro, sorrio tangente
e convenço muita gente.

CRiga.

terça-feira, 1 de março de 2016

Congelaram um coração



Alguém no céu
raspa uma estrela
colhe o cristal.

Na jornada o brilho nas mãos,
na terra firme o fogo morto
da paixão que congelaram.

Assoprou, então, o pó que restou:

desperdício, desperdício...

CRiga.