sexta-feira, 13 de março de 2026

Todo carro vermelho na esquina daquele bar

 


Eu espero que lá de dentro do seu novo carro
Você me olhe de soslaio
Me redescubra
E me sorria.

Que pare naquela mesma esquina
E abra a porta em câmera lenta.

Como num filme, o cabelo novo esvoaçado
Num falso descuido de mulher
Que pensa que sabe muito bem o que quer.   

Espero que desfile em frente ao velho bar
Me encarando esperando um sinal.

“Incomodo?

Nunca. Senta aqui comigo. Deixa eu te explicar.

Você foi rude...

Não sou eu. Mas foi preciso.

Preciso?

Preciso e necessário.

Não entendi...

Eu sei, você nunca entende mesmo...

Não entendo o quê?

Não entende que você não pode ter tudo.

Mas eu não te quero mais.

Eu sei...”

Mas quer o balcão do meu coração!

Cotovelo se fazendo distraída
Apoiado na fórmica vermelha desbotada
Num lamento do que não deu certo
Apenas pra você.

Mas chegastes atrasada, como sempre.
Agora na porta há apenas uma placa fria
Tinta fresca amiga e sincera –  

 ‘Estamos sob nova direção’.

 CRiga.



domingo, 8 de março de 2026

Falta simplicidade pra gente

 

Passei o dia comprando lâmpadas de led
À noite faltaram velas quando a luz acabou.

Isso não é sobre ligar o interruptor
Nem sobre a cera que estraga o tapete.

CRiga.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Soul

 


Quando a gente esmorece
Quando a gente estremece
Esquece que tudo transita
Inclusive o verbo, o verso
A vida.

CRiga.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ácido de sobreviver

 


Não ligo pra café, não gosto de carnaval
Desligo minha rede social
Tiro minha barba, não quero ser igual
Eu sobrevivo o invisível da multidão.

Eu não te odeio, mas também não te quero mais
Eu só espero que você me deixe em paz
Para trás, que seja, em qualquer porão
Isso não é uma competição.

Eu não vou ao samba porque você resolveu gostar
De sambar, de beijar.
Eu não vou beijar porque você resolveu “curtir”
Não vou sair à procura de substituição.

Eu vou é para o rock que era “nosso”
Apenas pular cantar dançar gritar
Porque é isso que eu sei fazer
Sem precisar me entregar a ninguém.

Sem precisar deixar de ser autêntico
O garoto tímido da paz dos olhos azuis
Que não vai querer usar ninguém
Pra se sentir vivo ou melhor que alguém.

CRiga.




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Apenas o que eu preciso fazer

 


Me deixa claro
Por favor, se puder.

Me olha no olho
Me encara que nem daquela última vez
Se for capaz.

E eu nem me lembro mais
Se teve paz ou última vez.

Eu nem me lembro mais
Da última vez naquele qualquer cais
Que você tirou até sangue de mim.

Eu nem me lembro mais.

E tanto faz.

E tudo bem.

Depois a gente vê.

Porque depois no meu tempo vago
Não reclama –

É só poesia que me chama
É só poesia que eu sei fazer.

CRiga.




domingo, 22 de fevereiro de 2026

Tem um caminho na floresta

 


Eu ainda tenho medo de bruxa má.
Pensei tê-la matado num sonho
Enquanto ela dormia na cama dos meus pais.

Eu tenho medo de sair lá fora.
Encontrá-la passeando leve
Com aquele cachorro bobo e amável.

Ou vestida de um novo black-fake-rock
Pra beijar meninos-homens desavisados da noite escura.

Olha
Ela aprisiona com a chave daquela falsa delicadeza
Aquela da rainha linda precisando de autoafirmação –

Atrás do espelho só existe a confusão
De não saber voar com a vassoura que escolheu.

Por isso eu prefiro ficar em casa
E deixo a carruagem abóbora selvagem
Triste estacionada quase quebrada
Esperando a boa vontade de um cocheiro dela qualquer.  

E eu sei – é tudo fantasia.
Mas eu preciso me defender durante o dia
Durante a noite, durante todo e a qualquer momento.

Eu só preciso é sobreviver.

A lua tá é cheia de ouvir lamento
E eu não vou ficar tentando quebrar feitiços
Dos famosos fajutos para-sempres.

Porque no fim, de noite, na madrugada
Sou só eu que não consigo mais dormir.

Se a bruxa má voltou pra me assombrar
Que ria
Que viva
Que voe
Amaldiçoe como quase sempre fez.

Que curta, como um dia profetizou.
Eu sei que tenho culpa
Mas houve os dias em que você me perdoou.

Prossigo então na solitude de uma janela aberta
Enquanto a chuva me sussurra verdades nas folhas das árvores
Que estiveram aqui muito antes de você.

Eu te amo, mas não quero mais me perder
Nem na floresta, nem na festa
De um silêncio que só tenta pedir perdão
E dizer adeus
Enquanto você tapa os ouvidos
Com novos amigos, amores e afazeres.

Tem um caminho na floresta
E ele é escuro.

E ainda bem que eu sei
Que ele não leva mais até você.

CRiga.






domingo, 15 de fevereiro de 2026

Substituir, conceito vago

 


Um copo quebrado
É apenas
Um copo que se quebrou.

Não adianta mais procurar
Aquele velho licor
Nos cacos que restaram.
E recolha! Cortar-se é normal.

Tranque-os no quase Para Sempre
De uma caixa quase fechada
Porque no fundo sem fundo
Ninguém mais merece se ferir.

Um copo novo
Na cristaleira que não há
É apenas um copo
Que um dia também vai se quebrar.

CRiga.




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Métrica da vaidade

 


A confortante chuva nestas noites de verão tem acalentado o meu silêncio, tem me devolvido um pouco mais de mim. Aos poucos.  Antes eu não me suportava, agora já me aturo.

Coleciono dias e noites quase iguais numa pasta da data do dia, é tudo do que preciso – uma trilha em círculos imperfeitos (não quero nada perfeito), regando as plantas sem precisar mudá-las de lugar.

Durmo cedo, acordo cedo. Reclamo da nova chefe e das demandas emergenciais – pra não perder o costume. E recebo um elogio no final do dia.

Um livro – uma boa história é minha melhor acompanhante à cama agora. Há capítulos de aventura, amor, drogas e sexo que me lembram que a vida também é e era assim. Mas estou me anestesiando de ar pra sobreviver.

A porta de saída do apartamento raramente me dá um porquê, e todos os outros tenho procurado enterrar. Não estou pronto. Nem pra apenas caminhar.

Eu abri mão de muita coisa – é o preço que pago, cordato e seguro, pra comprar de volta a minha paz. E ela nem é tão cara assim, mas há um especulador nesse mercado de almas querendo tudo pra si. Métricas de vaidade disfarçadas de um pedido de ajuda que, no final, custa muito muito caro só para mim.

Prefiro agora abandonar a casa se consumindo em suas chamas, a casa que não é mais minha, do que sempre me queimar no final. E assim fico bem. Olhando a chuva me salvar.

CRiga.




sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Lista de sobrevivência

 


Signo às coisas
Rumo ao espírito
Corpos aos desejos
Independência ao caminho
Amnésia à dependência
Música à sem-gracisse
Quadros às paredes
Verdade posta à mesa
Um sorriso singelo
Amarelo então que seja.

CRiga.




Me devolve meu verso quebrado

 


O que me dói
Não é a tua ausência.

É remover diariamente o pó de sempre
Dos cantos desse apartamento moribundo
E nem ali eu conseguir me encontrar.

Não é apostar abrigo
Em rasas possibilidades.

É este caminhar num silêncio profundo
Enquanto o mundo nega me devolver
A minha rima, ainda que quebrada
Numa esquina de noite qualquer.

O que me dói é a minha ausência
Minha falta de paciência
De parar e escrever um verso
Que não seja por você.

CRiga.




sábado, 24 de janeiro de 2026

A vida dá um curta a cada semana

 


Quando eu voltar do futuro
Numa blitz à meia-noite,

Eu não quero olhar para o relógio
Nem me comover parado no tempo
Polindo o cinza de um Fork Ka selvagem
Num dia ensolarado
Numa estrada que tem nome de funil.

Eu não espero a abóbora carruagem
Nem a bicicross cruzando a lua cheia.

Eu já aprendi a superar as tragédias do mar.
Já apunhalei a bruxa velha da Branca de Neve
Dormindo tranquila na cama do meu pai.

Já tive o privilégio de quebrar o vidro caro
Por alguma confusão de amor.

Já falei do vento que te levou.

Já falei do tempo
E de Drummond.

CRiga.




A minha preta



Era um sábado triste
De notícia triste
De tempo triste
De pessoas tristes.

Até os bonitos e as belas
Eram tristes, pobrezinhos.

Os bebês, as crianças, os casais
Brincavam tristes por obrigação.

Apenas aquela preta sorria.

E me enchia de alegria!

CRiga.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Para o meu vermelho preferido!

 


Aproveita que tou fácil, me chama
Praquele depois de amanhã talvez.

Avisa aí de novo o teu novo amor
Que eu pretendo revisitar projetos.

Tem jeito de amar que não é nada pop.
E tem jeito top de a gente ainda se falar.

Tem jeito de a gente se gostar!
Sem querer procurar sarna
Pra você sabe onde é que vai dar.

CRiga.




terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Em mim

 


Nesse labirinto o Minotauro já é um velho amigo
E sair daqui agora nem é mais questão de esforço -
É de se vale a pena me perder de novo
Em outro lugar.

CRiga.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Radioescuta

 

Na noite de tempestade eu te avisei:
“Não te demora!”

Hoje São Pedro me sussurrou no cangote
Dentro daquele meu velho headfone:

“Vou passar forte por aí e afora
E nem sei se é por agora...”.

Se descrês
Procura então a tua nova hora
Num Google relógio da depressão -

Se ele ainda for de graça
Gratuita sempre foi
A flor do meu coração.

CRiga.





 

Você com ela, agora!

 

“Estaria fazendo
Coisas desoriginais.”

CRiga.


Ritual de quebra de ritual

 


Na retina, a rotina.

Rotina quebrada.

Recolar os cacos.

De novo se cortar.

CRiga.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Uma sexta-feira de verão (Paulista)

 

(foto by Cauê Rigamonti. Se conhece, pode usar)

Aí eu não tropeço, é tudo o que te peço - 
Não me chame à janela
Não me deseje nesta noite de verão.

Ficaria aí pra sempre batendo em teu peito
Meu cheiro com teu seu cheiro
Tua lágrima, minha força.

É que daí me deixo
E o sol que você também precisa
Nunca mais voltaria pra te renovar.

Te ofereço apenas a minha brisa leve
Aquela em que a esperança canta breve
Um ventinho que refresca a noite.

Quanto a mim, não se preocupe - 
Amanhã eu chego lá em Sampa
Do meu jeito, intrometida!

Mas não vou atrapalhar a tua conversa -
Esse rapaz chamado Sol é primo querido.

São todas nossas as tardes lindas
De qualquer sábado ou domingo de sol.

CRiga.






Little things

 


Sim, elas me completam
Elas são flashes de memória
Elas contam toda a história
Amigas estrelas cadentes
Do outro lado do monte escuro,

E é lá que vou encontrando
Sempre um pouco mais de mim.

CRiga.




A Deixa

 

A nossa vida tem todos os defeitos
Os pesos que o nosso papel pode suportar.

Mas a mesma lágrima que cai borrando o texto
Também escreve na areia do tempo
No palco, no picadeiro
Do que o espírito primeiro
Precisa pra se reencontrar.

CRiga.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Na distração

 


O que vai ser de você
Quando não tiver mais nada pra fazer?

Vai tentar arrumar algo talvez desarrumado
Mas tudo estará em seu lugar,
Graças a Deus!

E nem o samba você terá como tocar
Nem cantarolar meia letra
Porque não teve tempo de decorar.

E vai lembrar
Que tinha alguém que fazia tudo por você.

E vai se lembrar daquela velha e boa Rita Lee
Dizendo que se livrou de uma vida vulgar,

Mas que agora
Só falta você!

CRiga.




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Vem comigo e retoma o teu atalho

 


Eu não posso mais parar na estrada
Já tive tantas paradas pra me encontrar
E nada...

Eu ainda procuro meu sol nascente
Apenas caminhando para frente.

Não me tente, não me afogue
Eu estou sempre aqui pra te dar meu ombro.

Mas minha alma, essa boba alma de esperança
Ainda dança perdida naquela mesma brisa
Ainda precisa se libertar.

CRiga.