A confortante chuva nestas noites de verão tem acalentado o
meu silêncio, tem me devolvido um pouco mais de mim. Aos poucos. Antes eu não me suportava, agora já me aturo.
Coleciono dias e noites quase iguais numa pasta da data do dia, é tudo do que preciso – uma trilha em círculos imperfeitos (não quero nada perfeito), regando as plantas sem precisar mudá-las de lugar.
Durmo cedo, acordo cedo. Reclamo da nova chefe e das demandas emergenciais – pra não perder o costume. E recebo um elogio no final do dia.
Um livro – uma boa história é minha melhor acompanhante à cama agora. Há capítulos de aventura, amor, drogas e sexo que me lembram que a vida também é e era assim. Mas estou me anestesiando de ar pra sobreviver.
A porta de saída do apartamento raramente me dá um porquê, e todos os outros tenho procurado enterrar. Não estou pronto. Nem pra apenas caminhar.
Eu abri mão de muita coisa – é o preço que pago, cordato e seguro, pra comprar de volta a minha paz. E ela nem é tão cara assim, mas há um especulador nesse mercado de almas querendo tudo pra si. Métricas de vaidade disfarçadas de um pedido de ajuda que, no final, custa muito muito caro só para mim.
Prefiro agora abandonar a casa se consumindo em suas chamas, a casa que não é mais minha, do que sempre me queimar no final. E assim fico bem. Olhando a chuva me salvar.
CRiga.
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