sábado, 29 de março de 2025
domingo, 23 de março de 2025
Sertralina
Querer algo é o primeiro passo!
Eu quero fugir
Fugir
Fugir
Fugir...
Depois só dormir.
Descansar.
Porque ninguém é de ferro.
CRiga.
sexta-feira, 21 de março de 2025
Dizer das adolescências que nos salvam numa tarde
O teu jeito meio apressado de tirar a roupa
E se deitar ao meu lado numa cama de solteiro
Enquanto eu fingia dormir num sábado à tarde
À espera do teu pequeno corpo junto ao meu.
O teu jeito de me esperar acordada no quarto da praia
E tirar contigo nossa roupa num fogo de assassinar o sono
Enquanto o verão rangia numa velha cama de casal
A urgência do amor sem hora pra amar.
Uma árvore perfeita na mata da chácara.
O chão do banheiro da madrinha do interior.
O sofá, macacãozinho frouxo debaixo do cobertor.
À janela do sobrado fingíamos olhar as casinhas sem reboco.
Uma letra do novo disco da Legião lida ao telefone.
Gravar nossas vozes em conversas à toa no escuro.
Amar tudo tudo o que dizia respeito a nós.
Acreditar que nunca nunca um dia na vida
A gente iria se separar.
CRiga.
Despedida
À meia-luz a morte loira caminha tranquila
Vestido branco na cozinha ainda morna.
Vagalumes bêbados flutuam
Não há saída de emergência.
Madrugada é a brasa que se confunde
Moribunda na solidão do fogão à lenha.
A velha na cama sussurra preces de perdão
Estende a mão ao vazio do quarto escuro.
O vento leva embora lençóis surrados do varal
A rosa murcha doa pétalas perfumando o ar.
A madeira no chão range abandonos
Cinzas são o tapete da visita.
Jesus chega manso à porta entreaberta
Sorrindo a paz de um quase dia qualquer.
Indicador nos lábios sugere silêncio
O som é apenas um click de interruptor.
O sol nasce apagando a dor.
Hoje não tem cheiro de café.
CRiga.
quinta-feira, 20 de março de 2025
Dedo na tomada
Espera de volta a visita de domingo.
Emagreceu no pescoço, caiu na calçada
Machucou o joelho.
Doeu em mim lá dentro
Parecia eu o vizinho maldoso
Trocando o piso do passeio
Pra derrubar idosos distraídos.
O cabelo curto, já grisalho
Cresceu um pouco por descuido
Não cobra telefonemas, só pede mimos
Declara amor a todo momento.
O sábado cinzento foi pouco tempo
E de fato escureceu à noite
Mas não consegui dormir de arrependimento.
É assim mesmo, de repente.
Quando senti o dedo na tomada
Mamãe e papai já estavam velhos
E não havia mais motivos para ser eu o consolado.
Quando caí aprendendo a andar
Mamãe e papai já não estavam mais lá
Pra me levantar.
Não são mais meus os braços a segurar.
Quando a gente cai em si dá vergonha
Esse egoísmo de arranjar culpados
Pela tomada descoberta
Pelo tapete no caminho.
CRiga.
terça-feira, 18 de março de 2025
Falta simplicidade pra gente
Passei o dia comprando lâmpadas de led
À noite faltaram velas quando a luz acabou.
Isso não é sobre ligar o interruptor
Nem sobre a cera que estraga o tapete.
Melancolia
Letras soltas me desafiam
A pintar a nuance que destoa
Embeleza e acaricia a alma.
Mas há um enorme vazio
Vazio enorme.
O homem que dorme não sabe
Por que então acordar.
As entranhas gritam fogo
O corpo implode, explode
As doenças são modernas.
Frases prontas me denunciam
No tribunal das autoajudas
Já matei o carpinteiro e o cientista,
Não tenho a que recorrer.
Letras tontas se negam
A lavar em lágrimas compulsivas
O chão frio da solidão.
Correr à poesia pouco adianta
Nada sai do nada que corrói.
CRiga.
segunda-feira, 17 de março de 2025
Melancolia em quatro estações
Folhas caem corações partidos
No asfalto muito caro da cidade feia.
Houve outonos em que os poetas fugiram
Poetar nas mesas de outros bares.
Há um cravo amassado no bolso do casaco.
Barba a fazer, inverno no passeio público.
Um olhar entre procurar rostos conhecidos
E amores imperfeitos.
A moça que colhia flores na praça
Não acha mais graça na primavera.
Ontem ela chorou uma lágrima quase seca
Saudades do primeiro namorado.
No último dia do verão, dizia uma canção,
“Nunca me senti com tanto frio”.
Não houve nem amor pra subir a serra
Pombos decoram o mar impróprio para o banho.
Quem sabe os céus do outono.
Quem sabe o cobertor do inverno.
Quem sabe a leve chuva da primavera.
Quem sabe a breve folga no verão.
Haverá um dia
Em que a melancolia
Não falará mais tão alto assim.
CRiga.
sexta-feira, 14 de março de 2025
Os noturnos
Os noturnos sabem bem
Onde apertam todos os calos.
Alguns
Simplesmente se calam.
Outros falam. E falam!
Ensaiando teorias.
Mas na madrugada serena
Quase na primeira fornada de pão
Sempre têm tempo de pedir perdão.
E com a mão acesa
Incerta seta apontada ao infinito
Também pedem sem maldade
A santa saideira da saudade.
Para Carlão
quinta-feira, 13 de março de 2025
Um pet-panfletário
Não aposte tua vida na engravatada loteria.
Nem reposte a fácil verdade de graça da mercearia
Teu pão é amassado pelo amor do português
Não pelo ódio do diabo numa rede social.
Não aponte dedo nem arma
Nem monte o cavalo mais fácil
Sangre se preciso for a ferida da incompreensão
Pior é cavalgar ao lado de um fake capitão.
Não é questão de dar com o pau da bandeira
Na cabeça de qualquer um
Nem de rezar o texto improvisado e mal adaptado
Do Livro Sagrado das conveniências.
O tempo não é de coroar messias
Nem as tias do partidão.
Às vezes é melhor aceitar uma certa demência
Ou a decência de assumir-se apenas gente
Aquela que luta olhando pra frente
Sem passear na rua com político de estimação.
CRiga.
quarta-feira, 12 de março de 2025
Farpado
Foi um quase caí naquela doce armadilha...
Eu sorria, acompanhava a música no refrão
Havia de novo um verão momento
O tempo em que eu docemente não sabia
O que de fato era poder ser livre.
Foi um quase, daí caí...
Lembrei que sou triste
Sem música, verão
Sem tempo, coração.
Apenas uma cova fria no peito
Um sorriso sem graça no escuro.
Uma taça de cerveja trincada
Um caco pontiagudo no velho muro.
Não pula que eu te corto.
CRiga.
segunda-feira, 10 de março de 2025
Eu
Eu, quando quero,
Não quero ser eu.
Eu, quando preciso falar de mim,
Prefiro a lucidez incomunicável.
Eu, quando existo no cotidiano,
Sou o perdido pedido de atenção.
Eu, eu, eu.
Eu, quando eu morrer,
Serei comido pela terra
Pela tua fera, tua era
Teu verbo.
Éramos e sempre fomos
Apenas um pronome.
CRiga.
terça-feira, 4 de março de 2025
Soul Music
Eu sou invisível, alado
Calado cruzo a fronteira
Doutro lado cheiro o asfalto molhado
Brado intempéries, adolescências
Mais do mesmo
Mas eu sou o mesmo
Só você ainda não vê
Só você ainda não crê
No fantasma que me tornei.
CRiga.
Lírica acidental
Pus letras
Puzzle
Quebrei cabeça.
Veia à louca
Sangue violeta
E letras pus.
No momento estanque
Louca sobre a mesa:
A lírica perfeita!
CRiga.






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