terça-feira, 4 de agosto de 2020

Ensaios de grandes amores


Naquele fim de mundo
eu só ouvia a tua voz me chamando
comparando cores
frutas
texturas.
Era como a pera da Cidade dos Anjos,
feito o morango de Caio Fernando Abreu.

No limiar entre a tristeza profunda
e um piscar de luz no fim do túnel,
você estava lá me indicando um caminho
que nunca ia mesmo dar em nada.

Mas fui te pedindo desculpas,
eu era aquele garoto bobo
confrontado no corredor da escola.
O amor era o mais puro que podia ser,
e eu simplesmente disse não
desviando o olhar
culpando amigos por uma pilhéria juvenil.

Eu era o pré-universitário que sabia
que me arrependeria
de não ter agarrado a tua cintura
e de não me afogar de amor
no eterno verde dos teus olhos.

Cantamos juntos até a bebida cair.
Viajamos de volta e na volta me perdi.
Dançamos a soul music, corpos quentes,
mas não desabotoei a tua camisa rosa
num sábado de um apartamento nos Jardins.

Dormimos juntos e você nua
saíste tão pura como a flor.
Roubaste meu beijo numa esquina
e devolvi meu calor pós-carnaval
num barzinho esquecido de Pinheiros.

Redescobri o Brasil pelos teus olhos azuis
mesmo sabendo que havia
um oceano entre nós.

Aquele fim de mundo ensaiava
romances
no asfalto que ruía
no mar que me engolia.

Enganei a morte nos atalhos,
a sorte sempre quis me dar
um novo grande amor para contar.
 
CRiga. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Cumplicidade, simplicidade


Porque quando eu fico o louco
o pouco que quero não é guerra,
é só fazer uma poesia.

Só a paz dos discos
voadores vinis de uma briga
que já não ouço mais.

Uma viagem de volta sempre é necessária.
Te devolve as coisas e as sensações
que valem a pena carregar.

Você sabe que a paz também é singular.
E que as pazes são plural.

A gente não erra!
Rima bota a roupa no varal
com põe esta poesia pra concorrer.

CRiga.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

Um flashback




O que não te acontece mais aos ouvidos
muitas vezes a alma escuta, lá no fundo,
pedindo um segundo da tua atenção.

Há um tapete de ácaros dores encrustadas.
Debaixo não há o pó do arrependimento,
apenas o piso frio de uma inocente solidão.

O que não te acontece mais nas pontas dos dedos
talvez seja o restinho do doce brigadeiro
que a língua adolescente não aproveitou.

Há um poema que precisa te pegar no rosto,
dizer o quanto sinto muito o desperdício.

Reviro discos e canções,
e a agulha agora falha.
A ilustre amiga traiçoeira
que não deixa me sentir
mais sentimental.

Me dá uma lua risquinho no céu, um sorriso.
Me devolve aquele restinho de eternidade
um dia guardada confiante
na velha gaveta de nossa juventude.

CRiga.



quinta-feira, 30 de julho de 2020

"Brilha que te quero luz, andaluz"


Nesta vida já começo ao bom calejar.E você
começa a cutucar-me a casquinha
fazendo-me sangrar.

Você vai ganhando (acredito)
compreensão sobre este mundão.
E eu vou perdendo o jeito de te compreender
num mundinho perigoso que tem cadafalsos
regados à falta de likes no Instagram.

Tenho medo destas “doenças” da tua idade.
Quero apenas você gente do bem, como já és –
mas insistes conjugar verbos dessa melancólica
e fake modernidade.

São pessoas fracas que só se “fortalecem”
à custa de cuidar dos próprios umbigos
e das crias que crescem sem rumo nem por quê –

distraídos que resultam em tristes zumbis egoístas
que deixam-se comandar por um “ista” da vez.

Nem quero que você seja a fonte maior da força
nem da necessária cidadania:
apenas homem e ser humano de um mundo de verdade.

Você está nos chicotando a alma, tenha calma,
o futuro sempre será seu.

Cabe a mim ajudar-te a crescer.
Cabe a você ajudar-me a não encolher...

CRiga.



quarta-feira, 29 de julho de 2020

Um lugar na eternidade dos teus olhos



Há uma terna urgência nos teus olhos,
e eu vou atrás porque deles brotam vistosos
os alimentos de uma horta reservada no futuro.

Teremos talvez que levantar um muro
cerca viva, vamos sobreviver
vendendo o verde da esperança estampada
num quadrinho da parede.

Eu te acompanho porque tudo é possível,
inclusive mantermos vivas as lagartas
longe das folhas do maracujá.

É possível que sejamos então tão fortes
que movamos de lugar apenas o concreto
deixando as raízes invadir nosso lugar.

É possível que a alma encontre abrigo,
que um amigo venha nos visitar –
cuidado agora é pra não queimar a lenha
sem teus olhos pra me alimentar.

CRiga.


terça-feira, 28 de julho de 2020

Me dá a mão



Crise é quando o semáforo na esquina
chegando à padaria do português
não te dá cor nem rumo.

É o qualquer lugar tá valendo
desde que não atropelado.

CRiga.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Um legado largado no escuro



No futuro, dirão:
“ele tinha um grande amor”.
Tenho vários.

Ou: “ele tinha um grande segredo”.
Tenho vários, também.

Não há nada a se descobrir assim –
entrelinhas
escolas de modernismo
entrevista com amigos e parentes.

Há apenas palavras.
Pontos.
Vírgulas.
E uma vontade louca, porém consciente,
de inflamar a alma novamente
para que ela se lembre de vez quem é,
de quem é.

E isso cabe a mim,
a mais ninguém.

Aqui apenas deixo a forma –
a alma é o meu quarto escuro.
Por favor entre,
mas mantenha a meia-luz.

CRiga.