quarta-feira, 10 de junho de 2020

Segure este espírito


A dúvida.

A dívida.

A dádiva
do espírito.

A capacidade
de compreender.

Convencer-me
que só faço isso
pra esquecer.

CRiga.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Dó, Si


Eu não tive o brinquedo que pedi.
Mas vi meu Noel sem jeito
quando contava migalhas do seu bolso.
Ele era muito bravo,
um adulto de dar dó.

Eu comi o x-salada que queria,
ela sacou da condução a ficha no caixa.
No balcão da lanchonete a coca veio quente
pela metade oferecida
por um adulto amigo talvez com dó.

Eu vi meu vô pelado na sala.
Ele assoviava, nu com sua dor.
Criança, eu não sabia
o que era sentir dó nem sentir dor.

Eu com dó de mim, matreiro trapaceiro,
minha vó prometeu me defender:
bola de meia em cheio, vidraça quebrada!
Mas quando mamãe chegasse cansada
não brigaria comigo não.

Dó, ré, mi.
Faz um favor pra mim?
Canta um sol melódico
lá naquele meu futuro melancólico?

Pode ser a partir de si.
Seja lá o que for
sem assim tanto dó de mim.

CRiga.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Todo dia ela faz


É que eu não estou para romances.
Mantenho estandartes da seriedade
os meus óculos de grau.

Natural que faltem versos, prosas.
Nem tem a ver com espelhos
ou mensalidades da academia.

Corpo padece mesmo
é no cordão da multidão
é na falta de inspiração
é quando o pão vira o dia
perfeito na verdade do não.

CRiga.


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Sonhando com mortos


Era então aquele mesmo sorriso da juventude que eu perdi. Passou fingindo-se distraída, quando vi teu rosto e os aros pretos me chamando num abraço, num beijo, o brilho! “Tem certeza?”. Eu tinha!

Outro dia voltei a te procurar, agora eu fingindo assuntos importantes. Você deu novamente a luz da graça, agora amiga conversando num sofá de uma casa de um antigamente na sua vila. Mas esperando minha certeza vociferar leões. Tudo ficou bem, apenas uma visita de bons amigos novamente, eu saí triste como naquele corredor da adolescência em que eu disse não.

Desde então não sei – durmo esta vida, acordo sonhando, sobrevivo. Não sei se coloco na vitrola aquela nova música francesa que tem a cara da manhã que não tem você. Ou se falo a língua morta de te fazer vir de novo me visitar, antigo amor num sonho, com gosto de café amargo pela manhã...

CRiga.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Dias como este


A chuva
vagarosa
cai bolsinhas pesadas
paraquedas furados
Gulliver bombardeio.

E eu brinco de ficar triste
molhado com guarda-chuva furado
no juízo final.

O que me queima à roupa
é o merecido inferno adormecido
que renasce feito vulcão.

O meu medo não é adequado,
e eu sei:
terei sempre que pedir perdão.

Dias assim
todos querem fugir de mim.
Inclusive eu.

CRiga.


Agenda


A tela em branco me desafia:
mais um dia eu preciso te dizer
que a vida precisa de poesia.

Nem que seja assim pueril
rimas pobres, versos fáceis.

Florezinhas coloridas num vaso
no beiral da janela antiga
da ruazinha de paralelepípedos
da cidadezinha que a gente imagina.

Um rosto antigo que vem nos visitar
um espírito que mexe a gaveta na madrugada.

Mãos dadas num sonho meio amargo
chocolate guardado, as dores pela irmã querida.

Frio desafio, notas coloridas
numa nublada quinta-feira de outono.
Mais vale forçar o pulso e deixar-me leve
que morrer no tráfego a caminho da Capital.

CRiga.


quarta-feira, 3 de junho de 2020

Demônios me visitam


Eu bebo um gole.
Esta vida não me pede muito mais
do que isso agora.

Não sei de trilhas
atalhos ou trincheiras –
cedo ou tarde a hora chega
e eu não vou ficar contando estrelas.

O corpo que ferve já nem sente
as unhas que procuram frear a pele
que denuncia um mal que dorme.

Quero logo terminar as obrigações.
À noite sei mais de mim, não saio,
fico em casa, talvez um rock
e mais um gole.

Eu fico em mim com a certeza
que sei fazer o que me proponho,
mas não sei controlar as feras feias
que forçam as grades
como a Monga do Playcenter.

Minha pele são as grades.

Esta vida de criação cristã
me fez ter medo de lobo mau.

Ele bebe comigo
depois vai embora.

Então eu pago a conta
e faço de conta
que Deus vai me castigar.

CRiga.