quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Poema que saiu, foi embora...


Descuido da rota, vou parar bem na porta da tua casa. Antes de bater sabendo que não atenderia, me recebe com flores às mãos. Vinho, uma vela sobre a mesa, o jantar está posto para dois. Eu me confesso, "sou pecador, te esqueci, amaldiçoei teu nome por onde andei". Por onde andei apaguei tuas pegadas me seguindo, eu era mais uma criança com medo da piscadela daquela negra Nossa Senhora Aparecida de barro da minha mãe.

Levanto a flor ao altar, comungo do sangue de Cristo mas o corpo eu mastigo, desaprendi as aulas de catecismo. Eu era mais puro. A igreja ainda é bonita, mas são apenas tijolos e cimento, imagens e vitrais, confessionário e sacristia, fria, fria. Eu tento me sentir em casa, não faço o mal-educado, agradeço. Mas saio à porta aberta, sigo meu caminho deixando você mais uma vez pra trás.

Zeus também me deu o vinho de Baco, um saco essa história, um porre, me embriaguei. Não tenho mais idade pra tomar esporro beático, nem mais paciência pra sair batendo cabeça nos postes à procura de reacender luzes queimadas do caminho. Eu caminho como quem não precisa fazer mal a ninguém – nem a mim mesmo.

CRiga.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Juventudice hippiezinha (“gratidão”)

Forço sorrisos bobos pra devolver
estes hippies pirulitos coloridos
enjoativos
dos olhares que perguntam
“tudo beeem?...”.

Forço bons ouvidos pra ouvir
os “tudo bem, grãçãs a deusss...”,
feito gravador com defeito
que também erra no auto reverse:
“grãçãs a deusss, tudo bemmm...”

Tenho melancólico orgulho
da minha infelicidade aparente.
Ela não mente, não precisa
e não quer mudar o mundo
nem ninguém.

CRiga.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Castelos de areia


Cada punhado nosso
é moldado na esperança de parecer
sempre tão lindo e perfeito.

É um esforço incrível!
Não deixar nenhum grão cair
pelo caminho da areia quente.

É a velha e santa missão:
trabalhar com tanto cuidado,
fazendo o melhor que se aprendeu.
E o teu castelo sempre ali na margem
pra você corrigir alguns defeitos.

Mas você nem sabe
que tudo não passa apenas
de mais um domingo de sol.

Que uma hora a maré avança 
e que você precisa ir embora.

E de repente arrasado você percebe
que o vento natural da tua praia
também vai levando aqueles grãos.

Não adianta correr feito louco pela orla
com palavras bonitas ou ameaças –
já foi, voou, construindo outros castelos
que não têm mais nada a ver
com cuidados de filtro solar.

Resta sim aquela triste areia do fim da tarde
correndo rápido demais –
areia de ampulheta, o tempo é implacável
e você não percebeu.

E no mergulho no balde de água fria
você simplesmente cai em si –
mesmo assim, esperançoso
bobo,
com lágrimas na boca.

E da praia você sozinho apenas descreve
uma tarde do futuro –
um sol ameno, na varanda,
menos praia
a visita de domingo
a ver fotografias.

E aquela areia agora nos olhos
que só faz querer chorar.

CRiga.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Massa de manobra


Um punhado de gente sem cultura.
Uma xícara de assunto polêmico.
666 colheres de malícia.
Uma pitada de maledicência.

Junte tudo e bata em alguém.
Deixe o fermento da fome fazer crescer
e leve ao fogo da intolerância.

Deixe assar reputações,
depois grelhe no fogo das vaidades
e cubra com uma boa verba de jornal.

CRiga.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

As manhãs dos dias de semana


Nesta hora
o sol gargalha da tua cara
lá fora,
mas você só ouve o som sussurrado
da solidão que te martela a alma.

Carros acelerando longe na estrada,
onde vão, por que vão? Embora vão.

Uma criança corre no apartamento acima,
vida que nunca segue tão solta.

Quase almoço, uma panela no fogão,
preciso dividir a depressão em dois. 

Um avião leva alguém pra longe...
Eu também queria só poder voar.

CRiga.


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O circo pelo pão


Tem que gostar,
fingir gostar
ou forçar-se a gostar.

Como a fotografia não mente
todos sorriem e se abraçam pra lente,
num mundo perfeito de flashes
e notas sociais.

Nesse circo,
ao lado da querida autoridade paralisada,
os pobres desdentados também sorriem
seu momento de glória maior.

Na manhã seguinte
apreciam as notícias do dia –

uns com seus brioches
rindo e falando mal,

e outros com o pão de ontem
trocado por foto
na coluna do jornal.

Tudo parte
desse grande teatro social.

CRiga.


terça-feira, 1 de outubro de 2019

Approach


– Quer namorar, Fabi?
– Não, eu gosto do Agostinho.
– É... Agostinho, é?...
– Agostinho, eu gosto é dele. Não gosto de você.
– Não acho que seja uma boa escolha...
– O quê?
– O Agostinho.
– Como assim? Até parece que isso vai mudar alguma coisa.
– Então tá, Agostinho, Agostinho... Boa sorte.
– Obrigada, aproveita e se manca.
– Agostinho não é bom partido. Agostinho não...
– Larga mão! Para de ser invejoso!
– A palavra certa é ciumento.
– É inveja mesmo, dele. Se é ciúme, você tá perdido, não tenho nada a ver. Se manca!
– Olha, eu não vou insistir, mas Agostinho não serve.
– O quê?
– Não serve. Gosta de outra.
– Gosta de outra? O que você tá falando? Larga a mão de ser assim!
– Tá avisada. Agostinho não vai nunca querer namorar você.
– Ah...
– Ele gosta da Lídia.
– Que Lídia?
– A Lídia, lá do fundo. A Lídia, que se veste de preto.
– Magina, Lídia nada! Para de querer botar defeito!
– Defeito, eu? Lídia é bonitona, estilosa. Você...
– Eu o quê, fala!
– Você não é assim, é meio...
– Meio o quê, fala se tem coragem!
– ...sem graça, sabe. Não tem approach...
– Apoquê?
– Não tem approach. Agostinho gosta de garotas de approach.
– Garotas de approach...
– Ele também tem.
– Tem o quê?
– Approach. Mais que eu, inclusive.
– Onde compra?
– O quê?
– Approach...
– Ah, isso não se compra. Nem se consegue de uma hora pra outra.
– Então é só eu me vestir de preto também?
– Não funciona. É mais que roupa.
– Cor de cabelo?
– Mais.
– Jeito de andar? De falar?
– Mais, mais...
– Que droga, preciso de approach! Me ajuda?
– Em casa dá pra conseguir.
– Na sua casa?
– É. Lá tem approach. É chegar e ter.
– Vamos lá, vamos lá!
– Sairá de lá com muito approach.
– Vamos, vamos!
– Vamos... é.. sei não...
– Sei não o quê?
– Acho que vou chamar Lídia.
– Quê?
– Lídia, lá do fundo da sala.
– Mas ela não gosta do Agostinho?
– Quem gosta dele é você. Ela gosta de mim.
– De você?
– De mim. Acho que é o meu approach.
¬– Mas e você, não gosta de mim?
– Gosto mais dela. Ela tem approach.
– Ah, me deixa!

***

– Quer namorar, Lídia?
– Eu não gosto de você.
– Gosta de quem então?
– Não interessa. E você nunca adivinharia.
– E Agostinho?
– Que tem?
– Ele gosta de você.
– Coitado... Acho que não...
– Na verdade eu gosto da Fabi. Ela tem mais approach.
– Então por que me pediu em namoro, ô boboca?
– Pra fazer ciúme pra Fabi. Ela diz que você também tem um certo approach.
– Approach?...
– Approach.
– Ela disse isso?
– Disse sim…
– Disse isso de mim?
– Sim…
– Então eu topo.
– O quê?
– Namorar você.
– Mas você não gosta de mim.
– Não, eu gosto dela. Me ensina a ter approach?
– Dela, da Fabi?
– Da Fabi, da Fabi!...
– Mas Fabi gosta de Agostinho.
– E Agostinho gosta de você.
– Agostinho, como assim?
– A-gos-ti-nho. Gosta de você.
– Eu, como assim, Agostinho, como assim?
– É o seu approach. Você tem, me ensina!
– Eu? Eu não, não tenho não...
– Ah, váááá!...
– Eu não gosto de Agostinho.
– De Fabi é que não é...

***

– Quer namorar, Agostinho?
– Quem?
– Escolhe. Quem tem mais approach...

CRiga.

* 4º lugar no Prêmio Barueri de Literatura 2019