sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Setembro como que um tapa na cara


Este ácido que corre
dos cantos das bocas distantes
é que mata a poesia que eu queria.
Os dias de semana, os clichês.
Você não sabe se arma a tempestade
se desiste, insiste sorrir sarcástico
dar adeus com a cabeça e seguir voando.
Não pediste um punhal gelado pra vomitar?
Um não-sei-o-que pra sentir um sentimento?
O vento bate uma porta lá longe, eu só sinto,
meu coração bate acelerado uma angústia
saudades dos fantasmas amigos
não os reais de carne e osso.

Este é o setembro
um tapa na cara
um aceno, vou vivendo
me aguarde primavera!


CRiga.


Esse filme eu já vi...



Cine aventura de quinta categoria, paredes vão se fechando contra o raquítico protagonista, um poeta cujas letras se encaixam ao necessário metal de fim de mês. Ou numa redoma-armadilha sob os olhos da vilã pantera-humana, a água vai subindo junto à torcida pelo afogamento da vítima preferida. Novela cujas bobagens são o principal assunto na hora do jantar, enquanto quem saliva quer mastigar coadjuvantices sem importância.

Pior que a fritura do fogo amigo é manter a calma e engolir pequenezas. E não poder dizer de maiores caminhos percorridos, aconselhar: procure calejar-se antes de conseguir abrir feridas com faquinhas de 1,99...


CRiga.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O caroço da falange


Da torre me abandono,
minha névoa de romance.

Há um belo e explosivo apocalipse,
boas pessoas me pedindo ajuda
e desculpas.

Missão cumprida, minha nave
precisa agora me deixar pra trás –
aqui sou terra seca, inabitável.

Viajar galáxias até a morada
onde dedos afundem na terra a energia
e nos teclados só o preço do adubo.

Nestas mãos que contam histórias,
conto os carocinhos, agosto é 31!
Mais um dia, mais um
não sei saio tão vivo assim.

Mas há primaveras-ficções que salvam
insistem na raiz, são trepadeiras
forçam espaço dentro de mim.

É estranha e boba a esperança...
Setembro já grita entre as falanges
anunciando coloridas novidades
na minha alma
o meu jardim.

CRiga.



terça-feira, 29 de agosto de 2017

Boneco de areia


Falta-me o aroma de flores selvagens,
espinho de flor no coração,
gota de sangue manchando o papel.

Há muito ácido corroendo os dias
e hoje sou um devedor aos jardins.

Inverno, agosto, falta tempo.
Uma nova canção, o fogo da paixão.
Falta a tempestade me irrigando.
Sementes secas gritam socorro.

Terra árida vira pedra,
e eu prefiro chorar solto no cais
a não sentir nada mais.

CRiga.



quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Antolhado


Há um ritmo de trem no trilho
que coloca as coisas no lugar.
Que envenena a carne
congela a cama
entorpece a idade.

Hoje um sol de dia de semana
veio me lembrar que ainda há o que fazer.
E eu voltei a trabalhar lá fora
na varanda menos fria
olhando o mundo acontecer
cada coisa em seu lugar.


CRiga.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

De tempos em tempos (mitologia)


O piso mármore do inevitável mausoléu
quer apresentar mais um Deus pra mim.
Uma provação, uma oração.
Baixe a cabeça, cordeiro,
só quem tem cruz no peito
é que tem jeito pra chegar aqui.

O caminho que busco dali
é porque não quero chegar a lugar algum -
este, escrito linhas de um livro humano
que já matou quem não quis ler.

Caminho meu é porta dos fundos,
saída de emergência.
Não preciso das auréolas de liquidação
brilhando luz de led na escadaria principal.

Que falta fazem os pés no chão,
as mãos agarradas aos problemas
pra quem só pede solução.
Que falta fazem os deuses do Olimpo
muito mais lindos que os feios hebreus.


CRiga.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Seco


Se apertar o peito é “crec”,
espremer a alma
não é lágrima que cai.

Amigo é o aroma do asfalto molhado,
mas a estiagem tão cedo já silencia.

É pouca, rouca esta poesia
que gritava louca todo dia
me liberta desta alma
desta pobre rima que salva.

Jardim de terra empedrada
rosa marrom enrugada
cheirando a velório sem cheiro
na gaveta emperrada no coração.


CRiga.