sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Por uma carreta cheia de bíblias


Sabe quem foi atropelado?
Aquele maluco do bem aloprado,
do movimento joio.
Zóio vermelho de chorar de arte
e de outras coisinhas mais.

Será que o culpado
foi o cigarrinho do diabo?
Mania de culpar
quem tá quieto do outro lado.

Tá chovendo pra caralho,
e agora ele procura culpados.
Só falta chover esses caras atropelados
caindo de pé, direitinho,
de livrinho preto embaixo do braço,
cabelo engomado feito apocalipse.

O que mata não são os caras
que caem atropelados.
O que mata é o atentado
à arte e à amizade,
é essa encheção de saco
esse papo furado muito chato
de que "só Resgate salva".

CRiga.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Cover song


Vozinha débil.
Jeitinho delicadinho.
Cabelinho bem cuidado.
Sorrisinho mui discreto.

Lindos diminutivos!

Mas no final
um bom psicodélico dos oitenta
te entorta a imagem
no meu caleidoscópio.

E eu não vejo
mais que uma menina...

CRiga.


Chave mestra


Dê duas voltas na chave,
assim dá tempo
de pensar mais uma vez.

No que dizer, que sorriso dar,
porque felicidade é sempre
a gente se encontrar.

Felicidade não mente,
é doente só de resfriado.
Saúde, meu bem,
há um gole ainda do vinho francês
e uma nova versão de Ne Me Quitte Pas.

Abra a porta, o sorriso,
só não denuncie logo de cara
o que de cara você queria dizer.

Tranque a tramela se mais romântico for,
trame com ela um pecado pra mais tarde
e depois goze
com a cara do Senhor Chaveiro –

pra que tanta chave
de buscar felicidade?...


CRiga.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Tubo de ensaio

É na confusão dos nomes
que a gente se revela,
ensaia formas de ir vivendo
com a dor que o Pessoa escreveu.

Ou como já dizia o poetinha –
“e daí?”

CRiga.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O general das batatas


O general me tirou da artilharia que pesava sobre os meus ombros, mas me colocou telegrafando notas sociais de soldados rasos. Hoje, depois da dura batalha ele sorri de novo, mas agora sob um tenso ranger de dentes - tantas estrelas não podem tirar das costas as execuções de caladas de noite. De sua poltrona almofadada, vestindo sua farda reciclada, levanta velhas armas como se pudesse usar.

Telegrafando não desaprendi a atirar - e não há melhor soldado telegrafista de notas sociais. Eu seria o general de descascar batatas, tivesse me enviado ao porão do quartel sob o incêndio implacável do tempo. E sob a dura acusação de sentinela desesperada, telegrafista de plantão, até apaguei algumas chamas que comiam o campo pelas beiradas.

O melhor é me matar de vez do que aos poucos - nem batatas nem notas, verdes, marrons ou sociais, vão conseguir. Sou soldado profissional telegrafista, sempre fiel à bandeira que sirvo. E ainda sei atirar muito bem.

CRiga
(outubro de 2008...)

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Dedo na tomada


Espera de volta
a visita de domingo.
Emagreceu no pescoço,
caiu na calçada, machucou o joelho.

Doeu em mim lá dentro –
parecia eu o vizinho maldoso
trocando o piso do passeio
pra derrubar idosos distraídos.

O cabelo curto, já grisalho,
cresceu um pouco por descuido.
Não cobra telefonemas, só pede mimos,
declara amor a todo momento.

O sábado cinzento foi pouco tempo,
e de fato escureceu à noite –
mas não consegui dormir
de arrependimento.

É assim mesmo, de repente.

Quando senti o dedo na tomada
mamãe e papai estavam velhos,
e não havia mais motivos
para ser eu o consolado.

Quando caí aprendendo a andar
mamãe e papai já não estavam mais lá
pra me levantar.
Não são mais meus
os braços a segurar.

Quando a gente cai em si dá vergonha
esse egoísmo de arranjar culpados
pela tomada descoberta
pelo tapete no caminho.

CRiga. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Quarenta e um e pouco (quarentizar-se)


Precisa mesmo ser uma pessoa “interessante”?
Atrair olhares, elogios, atenção?
É preciso mesmo navegar
na onda? Tudo é tão impreciso.
Imperioso. Desnecessário. Cansativo.

É preciso mesmo se quarentizar de vez.
Minimizar caretice e juventudice.
Curtir a doce criancice.
Inventar palavras e verdades confortáveis
quando der na telha.
Reinventar-se.

Ainda voo no vento, na brisa.
Invento, reinvento.
Tento não ser mais novo.
De novo, não sou mais velho.

CRiga.