segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Chaminé


Todo dia morro um pouco
e renasço mais dois poucos –  
há pouco tempo pra perder.

Há um pouco de mim no lamento
que o vento canta nas futuras árvores.

Mas há dois poucos de mim na doçura
que anjos insistem plantar nos sorrisos.

CRiga.

Rancho


Enquanto pintam rumores e guerras
rumo à terra prometida,
há uma varanda enterrada no mato
e o sol do meio-dia temperando o domingo,
Dia do Senhor.

Enquanto a vida vive de rumores
uma gaita toca na estrada
a paz do cowboy desarmado.


CRiga.

Sem gosto


Não há mais rosto, onde fui parar? Não tenho grana pra comprar amor, mas amor está escasso feito água e eletricidade.

Não há choque, talvez a arte distante. A gente que é assim meio besta sentimental precisa de uma música, um filme, uma lembrança.

Não há nem dureza no olhar, e quem olha e sorri não sorri pra mim. Sorri apenas a um sem rosto, que necessita manter ares de bom moço.


CRiga.

sábado, 17 de setembro de 2016

Não deixe aquela ideia de poesia fugir!


Está ali, ao lado do sofá que a gente já não curte mais. Cerca, entrou no vaso vazio, preciso comprar uma flor. Mata, correu pra trás da cama, não durmo nunca mais com você! Está no quarto das crianças, corre, brinca, elas vão correr atrás de você também. Não deixa passar pela sala sem perceber, fiz meu cabelo pra você. Não joga fora assim, você pode me machucar. Queima então, mas dois peguinhas só. Desarma a ratoeira, não precisa mais depois de tanto tempo, faz tanto tempo que te amo...


CRiga.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Eu não tenho os pés no chão


Eu caminho sobre ovos, você não precisa saber quem eu sou. Definitivamente, sob esta casca arcaica de um homem que sabe muito bem o que quer, há um carinha aí... Que coloca “Estrangeiro” do Caetano no vinil, mas gosta mesmo é de “Estranged” do Guns no CD. Que procura textos nas velhas anotações, mas que pulsa vermelho a invenção de novas paixões. Que ainda se enrubesce na frente da garota mais bonita. Um viajêro solitário nas canções de 11 minutos.

Eu não ando sobre o teu asfalto. O meu é o molhado pela chuva, o cheiro, o som do pneu contra ele às noites de agradável solidão. E uma sensação docemente melancólica, alcoólica, etérea, sou um bobo feliz, estereofônico. Meu velho walkman ainda passeia sua luzinha vermelha na noite dos dias de semana.

Eu não tenho os pés no chão.


CRiga.

Saia de chita azul


Ela quer fazer teatro,
enquanto quero parar de fingir
que não sinto a falta dela.

Ela dança sem ciência no meu céu,
que chove a chuva ácida sem saber
se o sol virá recuperar o dia
que precisa continuar.

Ela é a arte alegre que canta
os antigos sucessos que venderam
mas não mudaram a história.

Ela é apenas memória.
Uma tonta saia esgarçada
amarrada ao mastro da colina,
bandeira de minha paz.

CRiga.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Vida no campo


Minimizar erros.

Até onde é possível
eles ficaram para trás.

Até onde sei
ainda vamos aprender.

Até onde a vista alcança
há uma nova árvore pra plantar.

Eu não plantei erros,
aprendi com muitos deles.

Cravo as unhas na terra por você,
quero colher contigo
a primeira fruta de estação.

CRiga.