quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Lugar para chamar de lar


Como acaba, minha cara, esta história de calvário? Um caralho essa coroa de espinhos, esse cristinho falso pedindo logo a cruz. Divida o pão embolorado e deixe que a memória busque dos pés na lama apenas uma doce lembrança de infância no interior.

A dor sempre resistirá, doerá, há congestionamento em nosso lar, a avenida está cheia dos guardas recém-formados na academia de suas ilusões. Não há ruas alternativas e nem tenho mais idade para esconder-me num quarto escuro pensando em suicídio, ou à meia-luz esperando a meia-noite dar-me um dia a menos nessa história fraca de sobrevivência.

Como acabam nossas almas no final do corredor? Haverá um novo projetado até os novos quartos - os quartos de cada um. Mas nunca haverá mais idade para fugir. Nunca haverá cidades, fantasmas ou reais, cujos ventos, feito dunas, enterrem desacertos.

Eu tenho medo da casa congestionada. Tenho medo do novo lar – nele já há fantasmas disputando quem melhor sabe vestir-se de passados para atormentar.

Mas também talvez, eu e os fantasmas, bebamos cachaça. Talvez sejamos bons amigos. Talvez fumemos o fumo proibido do pai chifrudo. Talvez até cantemos uma oração – laia ladaia sabadana ave-maria!

Como acaba esta história, ninguém sabe – cabe a arquitetos, pedreiros, marceneiros e outros tantos eiros ajudarem a enterrar um pouquinho o pó que insiste ficar na impressão dos velhos lares. Cabe à luz saber se ilumina, se é meia ou apagada no momento certo, antes de os fantasmas ficarem brabos ou embriagados. Cabe a nós ocupar-se de viver, beber uma cachaça, fumar uma oração. Compor uma nova canção de amor.

CRiga.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Segredos de pelúcia

Dali a pouco ele chegaria, provavelmente com um buquê de flores, um vinho, e depois da novela fazer amor, na sala, no quarto dos pais ou no seu, cheio de bichinhos de pelúcia nas prateleiras cor-de-rosa. Há quase um mês papai e mamãe viajavam pela Europa, e ela sozinha porque tinha de ir pra faculdade - não ia. Mas o professor vinha na casa dela. Nem novo, nem tão mais velho. Chegava todo dia na hora da aula com um presentinho, um vinho, um licor, flores, jóias... Gostava muito era dos bombons e de sua boa conversa.

Até aqueles seus dezenove anos não tinha experimentado nada assim. Nem sabia o que era se apaixonar. Poucos dias atrás tinha perdido a virgindade na cama dos pais, o professor. Todo dia ele vinha, todo dia ele falava muito, e ela se perdia no olhar dele, no beijo, no sofá, na cama. Aventura. Amor.

Mas aquele dia ele não chegava. ‘Tão pontual, gosta tanto de mim...’ A impaciência dela já chegava à perturbação. Foi pra faculdade procurar por ele. Ligou o carro, acelerou forte.

Na esquina, o escuro, mas ela viu: o professor e aquela loirinha da turma de Psicologia. Beijos e mãos passeando por baixo da saia da menina, por dentro do zíper da calça social do professor. E ela viu tudo, do meio da rua. Tudo parou, menos seu carro. Acelerou forte, muito forte, muito ódio. Dali a muito pouco, menos uma árvore na rua da faculdade, menos gente enganando gente nesse mundo confuso que era cor-de-rosa agora vermelho sangue, antes ursinhos de pelúcia agora ratos de esgoto, antes bombons de licor agora de ácido sulfúrico. Deu meia volta, não voltou pro lar.

Hoje mamãe e papai não sabem em que casa noturna ela vende seu corpo. Uma cicatriz na alma, um mistério, e uma cara de menina que faz sucesso. Por vingança, cobra caro, muito caro. E muitos querem, porque ela chega atropelando com seu corpo de menina-mulher, fala pouco, os homens gostam de suas roupinhas tipo universitária de Moema. No quarto eles sorriem e sentem tesão com a prateleira e um ursinho de pelúcia encardidinho.

Mas ela exige respeito. Quem sabe um vinho, uma flor, menos caixa de bombom, muito lero ou aula de romantismo. Homem bom é o que chega, paga, come, e vai sem falar o nome. Deixa vazio o que vazio está. De manhã vai dormir, consciência tranquila e agarrada ao ursinho encardidinho. Menina-mulher que dorme enfiando a mão naquela bunda de pelúcia, contando os dólares do dia.

CRiga.



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Quem desdenha


A forma de te esquecer é a mais covarde possível – depreciar-te nos mercadões humanos te tirando da minha reta torta.

Você deve gostar da areia fácil dos feriados, da caipirinha doce e das fotinhas no celular pra mostrar às amigas o corpinho em alta.

Deve gostar de pagode ou de sertanojo universiotário, como diz o tresloucado Lobão.  

Deve gostar de Big Brother, novela das oito – agora é das nove!

Deve ter o namorado bombado que gosta de videogame e UFC.

Faz tatuagens das mais batidas possíveis, estrelas, golfinhos, borboletas, nomes, aquelas frasesinhas fraquinhas de autoajuda, ou rosa mal feita igual a tantas outras, sem originalidade alguma.

Deve contar nos ponteiros a hora de ir embora do trabalho.

Deve ser dos mulherões mais comuns dos mercadões de hoje.

Deve ser tão linda enquanto dorme. Enquanto come. Enquanto é comida. É tão linda que perdôo, eu como com farinha os teus pecados de mulher de multidão – e até compro um vinho branco gelado, à temperatura da sedução.

CRiga.





sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Grito abafado


Parto do ponto onde você partiu meu coração. Além do asfalto, rude praga que ficou pra trás, tem meus óculos escuros disfarçando tristezas, desafiando os domadores de leões, mas, principalmente, procurando você na multidão.

Parto do tempo em que você pariu minha oração. Além da fumaça cinza que borra esquinas em que você passou, tem meus pés que correm depressa disfarçando o cansaço, desviando-se de vira-latas sem espírito, mas cruéis feito a plebe que condena apedrejando pelos muros vários Cristos com medo de amar Madalena.

Parto do ponto onde você partiu. Onde você quebrou esquinas e promessas e depois voltou bruma venenosa típica dos sonhos tristes fazendo nada, absolutamente nada, além de sorrir maliciosa à beira do abismo, mergulhando relâmpago, bem fundo, onde se ouviu apenas ecoar o triste som da lágrima contra a pedra, a lágrima que encerra, a lágrima do parto, do feto morto, do anjo torto, sem arpa, sem prece...

Então me leve, eu não pertenço a mais ninguém.


CRiga.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Metendo a colher


Não tenho muita certeza quanto ao pranto, se lava, se amarrota a alma com a calma de um câncer. Também não sei se é fácil seguir em frente como que faltando o dente e comendo a pedra.

Siga os cartazes: há uma lágrima pra cada coração partido! Pelo menos uma, ou pior, a lágrima etílica. Então jogue na pia os litros de uísque escocês e deixe um CD de músicas clássicas à mesa, de manhã, pra um filho lembrar da serenidade que é você.

E mesmo que os ares de uma juventude distante te sufoquem tanto agora, te machuquem os dedos loucos fincados num teclado de computador, assim aos poucos, deixe de lado reinventar a história, não existe amor errado, apenas resiste essa falta:

Da arte, cadeiras juntinhas num cinema, num teatro.

Dos bares, dois chopes e olhares eternos cruzados sobre a mesa.

Da música dos lares, talvez uma dança como antigamente sobre o piso novo da sala mais espaçosa, com saudades dos pés descalços roçando a madeira.

Da cama desarrumada, a preguiça às manhãs de domingo.

Do caminhar num dia lindo, mãos dadas nas ruas com árvores verdes dando bom dia.

De um passeio logo ali, no Pari ou em Paris.

De uma nova poesia, uma nova “nossa música”.

Ou só falta a morte – fatalmente, finalmente, fielmente – nunca mais separar vocês.

CRiga.



terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

É hora de você achar o trem

Corri atrás do teu perfume na alameda mais longa. Atrasei, você estava morta enterrada com direito a fotinho oval desbotada na lápide de mármore de quinta categoria. Nós somos assim, ricos só de espírito, mas eles aqui não gargalham nem bebem cerveja. O silêncio da perda é o comum.

Há ratos em volta. As pétalas escureceram, apodreceram. Você não vai voltar, então eu vou embora, me desculpe. Não vou morrer contigo. A chuva já castiga, aquela chuvinha tonta de filme de romance europeu, o cara com os pingos caindo pelo sobretudo preto, encharcado, o rosto parecendo derreter. Aqui, verão, eu de bermuda e havaiana, uma camiseta regata que às vezes uso pra dormir.

Lembra? A gente dormia junto, e você tirava sarro dela. Tinha Nossa Senhora, minha tia me deu depois de voltar de Aparecida. “Ai, Santa!”, você gargalhava, embriagada na nossa cama. Depois, nem santa nem roupa alguma – o diabo nos corpos!

Há ratos em volta de nossa casa, como numa música do Clube da Esquina que você ligava na vitrola. Não quero voltar pra lá. É só um barraco, velho, lá ainda tão todas as tuas coisas. Eu me atrasei... nunca houve mesa pronta, mas esperava te encontrar. A gente se esquece das coisas.

Eu vou embora da tua nova casa, meu bem, ela é fria demais demais, apesar de não ter (e querer) onde voltar. Antes, vou quebrar a garrafa pros cacos decorarem tua nova casa. Assim parece mais ainda com a gente. E os ratos: gente boa! Esse cheiro de mijo, você não deu bola pra mendigo, né? Tudo bem, em casa ninguém limpava nada... Mas tudo incrivelmente brilhava. Até esta mesma foto desbotada.

E, por favor, esqueça de apagar a luz – não é agora que você vai se lembrar. Afinal, meu bem, você está morta e enterrada. Só eu que ainda não saquei...

CRiga.