terça-feira, 10 de março de 2020

Imemoriais


Desde tempos que busco na memória
nossa história não é das melhores:

algozes nos matando nas trincheiras
freiras nos amaldiçoando nos caminhos
ninhos de cobras nossa cama
lama nos campos nosso lar
mar de baleias e peixes mortos
tortos anjos bebendo cachaça
praça de guerra nossa derrota
nota fria e falsa identidade
cidade que nunca é nossa
fossa no balcão dos bares
ares de inverno polonês
inglês defeituoso na fronteira
cadeira elétrica e masmorra
que porra de mil vidas nós levamos!

Mesmo assim insistes me acompanhar
porque me amas desse jeito
feito filme
desde tempos imemoriais.

CRiga.


segunda-feira, 9 de março de 2020

Segunda-feira

Solidão é que mata!

A brisa que assovia melancólica
na fresta da porta da varanda.

O sol que ri de sua cara
numa semana que seguirá sem grandes feitos.

O barulho distante do escapamento da moto,
a raiva desses ridículos ainda é a mesma!

Daqui de cima a estrada congestionada
me dá a sensação do cárcere eterno.

Um trabalhador solitário roça o terreno
onde um dia subirão mais alguns edifícios.

Alguém irritante todo dia arrasta os móveis
na sala do apartamento de cima.

A vista que alcança o horizonte
precisa vencer prédios e casinhas mal acabadas.

O silêncio no apartamento é que mata!
Vontade de fazer tudo por você agora
e sempre um pouco mais...

CRiga.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Fotografando espíritos


A espera parece mais longa quando a chuva cai. Meus amores, minhas dores – no asfalto molhado todos perambulam com seus guarda-chuvas, cada um com sua cor em uma via sem volta.

A espera é fera que hiberna nas trevas da alma. Ruge uma dor que ecoa do fundo da caverna úmida e que cheira a mato molhado.

Quem espera sempre dança uma valsa de solidão no silêncio da casa fria. Casa com o padre, reza com o bêbado caído na esquina.

Me espera, não vai agora. Eu tenho cartões postais em branco pra gente sonhar. Um vestido de festa e outro de casamento. Um baú vazio mofando no quarto, uma garrafa intocada de licor. Uma cama de solteiro, a gente joga o colchão no chão.

A chuva da espera molhou toda a minha casa, distraída deixei janela aberta pra alguém me invadir. Eu queria ter asas pra voar até alguém. A espera parece mais alta quando o céu se abre e o sol não traz mais novidades.

A espera se transforma, com as nuvens sombrias em torno da lua, na noite que cai da minha estante e se quebra mil caquinhos, um porta-retratos ainda com foto de revista. Um anjo azul de bibelô empoeirado, lembrança de um sobrinho que nasceu, cresceu e viajou ao estrangeiro.

A espera é acreditar em filho de virgem. Uma prece, me esquece, me marca num muro, prefiro ser Madalena. Me atira na vida mas não me espere chorar. No compasso do ponteiro do relógio parado vou te atraindo pra armadilha: serei a bruxa que vai te transformar no sapo, você será meu anfíbio de estimação e terá que esperar um beijo meu te libertar de novo. Só que meus lábios secarão com o ar cortante de outono. Estaremos presos um ao outro.

A espera é o brejo feio e fedido da floresta negra das fábulas que assustam as crianças. É a impossibilidade de contar belas histórias aos casacos pendurados na cadeira da sala de jantar. É a solidão dos deuses loucos. É o dedo em todas as feridas da trouxa autocompaixão. Rasgar a carne, sangrar líquidos sem cor, chorar lágrimas imaginárias e etílicas de guaraná. E dormir soluçando baixinho esperando o despertador tocar pra espera recomeçar com o dia sem as flores à porta.

Café amargo, janela aberta, estou pronta – que venham as cartas em branco que ontem enviei pra mim.

CRiga.


quinta-feira, 5 de março de 2020

Aos quase 45 do primeiro tempo


Espinhosa mata que machuca,
faz tempo que me atravesso.
O excesso não cura, nem o escuro
de um quarto ao meio-dia.

Sei de todos os segredos
até dos que não me contaram.
E eu sei porque sou puro.

Na lente do escritor há uma história,
mas esta fica pra depois –
uma varanda de conselhos e moços,
haverá ouvidos gentis.

Eu sei o caminho, eu já trilhei
com menos responsabilidade.
Sei das pedras, só tenho um sorriso
e a mesma safira sincera
no olhar de confiar.

Vou correr contra o vento,
respirar o bafo gelado, viciado,
prazer em reconhecer!

Não há segredo nem na morte.
Há pedras – e o poeta já sabia muito bem.

Nem que não haja o mesmo sol,
é outono, vou curtir o vento cortante.

Há mesas juvenis na calçada, um convite.
Eu ainda sou o mesmo, me espera,
eu tenho boas novidades pra te contar.

CRiga.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Na volta da meia idade


Descendo a ladeira de paralelepípedo
no salto alto de ponta gasta
no desequilíbrio de gritar o psicanalista.

O apoio amigo são as fachadas
das velhas casinhas da cidade histórica
se desfazendo sem você denunciar.

Mas as velhas às janelas não perdoam
e pincham todos os teus defeitos
em cada muro que esfola as mãos.

A baixada só tem mato crescendo,
está vendo? Um lamaçal e um nevoeiro
cobrindo o brejo dos sapos dinossauros.

Depois...
fica apenas um par de botas enlameada.
Segurar nos troncos mortos, tortos, lindos
que mostram as rugas sorrindo experiência.

Então
você chega ao outro lado da margem!...
De lá você até enxerga o fundo do vale
bem ali perto, menos escuro
nada assustador na verdade.

Mas prefere seguir em frente
subir o morro que resta.
Grama verde, orquídeas que você nunca notaria
no fatídico dia em que começou a descer.

Caminho suave, passo de reaprender
na cartilha que a cada passo
você poderá reescrever.

CRiga.

terça-feira, 3 de março de 2020

Acabou, começou!


Não adiantam dores amores flores rimas –
quando desapaixona já era, meu amigo!

Nem chocolate nem jantar caro de um mês de salário
naquele restaurante da propaganda que vocês ouviam
quando de manhã iam juntos trabalhar.

A comida fica seca e mais cara,
o vinho dá dor de cabeça.
A sobremesa tem as calorias que precisa evitar,
daqui uns dias tem balada com as amigas.

Desinfeta, desidrata então os temperos
a gente nem vai fazer aquele prato da tevê.

Desafasta, me dá ar, pega suas coisas e não demora.
Quer a hora do relógio?
É agora: a hora de você só ir embora.

No guarda-roupa cheirando a mofado tem
aquele vestidinho lindo vermelhinho.
O decote ficou fundo demais
ou eu que me afundei de peito aberto em você?

Vestido mofado? Qual o quê!
Boutique e vendedoras que parecem amigas de infância,
um decote novo e um azul da paz que namoro.

Você aparece pra me pegar...
Arrumou o amassadinho do para-choque
botou cheirinho de carro novo.

Criancinha com fome, chega a dar dó!
Ainda bem que me chega todo mês
o carnê do Médicos Sem Fronteira...

Falando em fronteira cruzo a cidade
num táxi que toca Djavan:
“cair nos pés do vencedor
para ser o serviçal do Samurai
mas eu tou tão feliz”...

Dizem
que o amor próprio também atrai.

CRiga.


segunda-feira, 2 de março de 2020

Gente tangente


Fatal: falta alma de multidão.
Fatal pra quem?

Desconectado, julgador voraz mas calado.
Desinteressado pela massa,
não caça problemas, não compartilha também.

Feliz desconhecido, amigo do fone de ouvido.
Eremita de camisa social, hiberna na rede,
bate perna e não se importa
em por enquanto não chegar a lugar algum.

Nunca virou alvo, abomina compromissos
e eventos sociais.

Felicidade é relativa.
Você não o verá na vitrine
nem nas selfies da vaidade.

Verdade pra ele é o que de fato faz diferença,
sem crença, lado B ou lado A.
Sua bandeira é apenas um olhar transparente
e discreto.

Odeia convenções, cultos histéricos e acusadores.
Julgador que não condena, não fala,
porque pra ele quem cala
também segue puro e intocado
em frente, independente.

Felicidade é relativa.

CRiga.