sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Sob o jazigo, a pena e o tinteiro


Nem sei pra quê nasci,
mas vou morrer escritor.

Nem sei qual é a dor,
mas vou morrer sob analgésicos versos
e antibióticas histórias.

Nem sei se dá tempo,
mas vou viver escritor.

Nem sei se sei escrever tão bem assim.
Mas vou morrer
acreditando que sim.

CRiga.



quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Rapadura


Para o sonho acontecer
você tem mesmo que encarar o sol.
Receita de bolo, escuta rapaz:
se desandar, a culpa é da mão.

Tem bolo pra entregar às 4 da manhã.
Não tem pão hoje, estou atrasado.
Ônibus lotado, tem gente que conversa
sobre algumas doces felicidades.

O atalho machuca o joelho.
Ouse na letra, que você convence!
É andando que a dor às vezes
sente vontade de sorrir.

Diga o bom dia da madrugada
com aquele sorriso de sol de meio-dia.
Dê um pó guaraná que seja
pra que ele atenda todos os seus fregueses.

É que depois daquele morro de florestas incertas,
há o vale aberto do teu sonho te sorrindo
e te dizendo

“vem que eu só venho se você for junto”.

CRiga.



Descobrir


Ela também gosta de mim!

Não vem desta vez...

Atrasou a menstruação.
Será menino!

As pessoas amadas também morrem.
Também crescem, criam asas.

Uma fotografia faz chorar.

Pior é machucar o coração, traição.

Eu também posso fazer.
Eu também posso esquecer.
Eu também posso me apaixonar.
De novo
pela mesma pessoa que já amo.

Novidades cobrem a trilha pela frente,
tente não ficar nervoso nem virar o rosto:
a descoberta tem sempre um gosto.

Sabor maior é aprender.

CRiga.



Eterna terra


Tanta gente erra o alvo
e eu, sem-terra, fui acertado.

Tanta gente é herói de guerra
e eu, sem-terra, virei aberração.

No meu bolso, semente da liberdade.
O meu solo foi estuprado
nele plantado um balaço disparado
por quem eu deveria confiar.

Agora tenho terra pra morar
plantado nela feito semente
somente pra brotar injustiça.

Condecorado ignorante da Terra
sem terra, sem teto,
sem moral e sem dinheiro.
Dizem alguns,
brasileiro.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)



quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Render-se


Um velho perde o filho.
Um filho perde a namorada.
Uma namorada perde o encanto.
Um encanto perde a pureza.
Uma pureza perde a esperança.
A esperança fica velha
e um velho morre junto ao filho.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)



terça-feira, 19 de novembro de 2019

Amaresia


João de Nada nadava no mar
tentando juntar
os cacos de sua vida –
pedaços de uma fotografia
rasgada por insensatez.

João de Nada não amava mais
e resolveu abraçar o mar,
feito quem abraçava pela primeira vez
o primeiro amor de uma vida inteira.

João de Nada nadava no mar, lutava –
a vida parecia o horizonte perfeito
e então nadou, nadou e nadou...

João de Nada em sua última braçada,
a fotografia rasgada colada na pedra do cais,
não precisava procurar mais nada.

Porque a vida já não era nada
e João era todo o desencontro existente.

Quando o sol se pôs no horizonte
e João de Nada não era nada mais,
ele também já não nadava mais.

Foi uma última brisa que viera lhe soprar
que sua vida já era tempo
de acabar.

Soprou
que João de Nada
não sabia nadar.

Mas que João de Nada
sempre amou o mar.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)




segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Ponto de fuga


Eu procuro mais!

O que não traz a pessoa ao sorrir.
O que não mostra o corpo ao se despir.
Eu não quero gesto nem carnaval.
Não quero o que completa o plural.

Eu procuro olhos que falem.
Eu procuro vozes que vejam.
Eu procuro um cais na tempestade.
Eu procuro o caos na sanidade.

Vivo sempre a trancar portas pelo caminho.
Vivo sempre a procurar as chaves atiradas.
As aves não me acompanham na viagem
em suas dores de fuga no horizonte.

Na verdade eu também fujo.
Talvez eu seja um velho bruxo
correndo da Santa Inquisição.

Sempre há também aquele tórax nu
e os braços abertos, tão pertos.
Agora não é paz, é a tormenta.
É um morto que tenta
me levar também.

Daqueles olhos me privaram.
Desviaram seu sentido numa obra de arte
tão humana quanto à pluralidade.
Foi quando desaprendi as orações.

E eu procurava aqueles olhos...
Mas um dia eles se cansaram
de me dar as mais simples respostas.

Eu procuro na intolerável distância
o que é distante
e intocado.

Eu procuro a fragrância de um perfume
que perdi na intimidade do ar.
Eu procuro o arrependimento do voluntário
na fragata em alto mar.

Eu me procuro, é tão difícil...
No escuro
tudo parece tão igual.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)