segunda-feira, 8 de abril de 2019

Lírica acidental

Pus letras
puzzle
quebrei cabeça.

Veia à louca
sangue violeta
e letras pus.

No momento estanque
louca sobre a mesa:
a lírica perfeita!

CRiga.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Aquele cara dos dedos finos


Sobrevive
à procura de uma nova história de amor.

Desce o escadão de madeira que range
a idade da casa velha,
mais uma garrafa de conhaque a tira colo.

Para em frente ao piano desbotado.
Contempla o porta-retratos,
aquela linda e besta felicidade juvenil.

Senta-se à banqueta de couro ressecado,
o cálice trincado perdido na atmosfera.
Amareladas teclas – até um bom vinho francês
já manchou reputações.

Um indicador maceta o marfim, débil,
ensaia apenas uma melodia sem nexo.

O sexo dos anjos.
A solidão dos deuses.

Num gole mata o conhaque
num ímpeto baixa a guarda do teclado.

A madeira soa todas as notas graves do abandono.
A brisa agora é o cheiro da chuva que chora
um amor que nunca teve rosto.

Mais uma noite –
a morte sorri sedutora na varanda.

CRiga.


Dívida moral


Eu tenho palavras para vender.
Palavras de sabores artificiais.
Saquinhos de Tang na dispensa da cachola.

Às vezes um trago da cerveja artesanal.
O que trago são letras num escudo medieval.
É que nada muda tão facilmente no Brasil.

Ganho a vida no mercado marcado das palavras.
Palavras não para vencer dissabores.
Apenas para não perder terreno.

Às vezes um afago da certeza banal.
O que pago não são meus dividendos.
O que recebo não paga minhas dívidas.

Nem palavras lindas e certeiras
muito bem redigidas num discurso
desnudam as verdades do Brasil.

CRiga.


quinta-feira, 4 de abril de 2019

Pelas tangentes


Você segura a víbora com as duas mãos
abaixo da cabeçona dela,
olho no olho
evitando o veneno do bote fatal.

E com a força vital que ainda te resta
resiste e testa
a arte de sobreviver.

CRiga.


quarta-feira, 3 de abril de 2019

Em uma nota, só


Em cima do piano
um copo de veneno.

Piano da sofisticação
pretão, sério demais.

Embebido morreu em si
menor.

CRiga.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Mapa doméstico


Os dedos passeiam entre querubins
de gesso na estante,
e o pó se digitaliza história confusa
na mão que te procura.

Entre os bibelôs de uma vida que passa
eu apenas adormeço, nas asas de um anjinho,
meus sonhos de voar.

No canto onde deixei reservado um retrato teu,
me procuro como se fosse cura de vírus
ou como se você tivesse deixado a pista
usada pra um dia me reencontrar.

O doce da infância agora faz sentido,
mas a puberdade é dissonante.
São somente fotos velhas desbotadas
guardadas no baú do sótão mal-assombrado
da memória do coração.

Ouço Beatles, reviro cadernos
e álbuns de fotografia,
e a puberdade corre costas
cidades e verões.
Mas me canso e o anjo grita
o famoso ponto final –
é preciso descer, ainda sem fama,
sem grana e sem um par.

Os Beatles da segunda fase
agora fazem mais sentido.
E tudo gira como se fosse
o carrossel do perigo
que meu amigo cantou numa canção.

Meu filho, carinha de anjo
numa estante do futuro me fita, interrogação:
papai, onde está você?

Perdido no pó caminho
só pra te ver crescer.

Perdido só, no cantinho
feito feto quieto no ventre
sem a púbere memória enterrada
que você há de devolver.

CRiga.



segunda-feira, 1 de abril de 2019

O caos do silêncio


Faz tempo que não venho aqui.
Há um tempo que me consome.
Há este lapso, perdi o lápis do coração.
Me ajuda então, um sinal de vida,
de fumaça, a caça ao teu perfume.

Letras sérias me dão metade do pão,
não tem amor envolvido, só um turbilhão.
Então me dá a inspiração que necessito.
Há um bilhão de motivos pra escrever,
mas estrelas se escondem num céu profundo,
num Brasil confuso, num coração sem rumo
e sem raiz.

Faz tempo que não venho aqui.
Faz um tempo desses que a gente
não sente frio nem calor.
Nem dor. Nem amor.
Apenas a rima pobre
que encobre a poesia.

CRiga.