quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Toada de um amor vagabundo


Desmazelo
vovó diria
até o dia
que eu pedisse desculpas a Glorinha.

Amor cachorro…

Depois diria: “essa menininha é ouro”.
E eu dando no couro
mas evitando bisnetos dela –
no meu tempo santa é a camisinha.

Bandido!

Depois brigaria de novo.
Glorinha que era minha deu pra outro!
E vovó não sabendo de nada
disse o que parecia tudo:

Glorinha dá pra quem quer
e você que não a trate bem
que vai virar piada também
na cama de quem a comeu.

Peguei um trem.

Então matei Glorinha
e na volta chupando sorvete
apontei a mesma arma para vovó:

Mate que sou mesmo velha...
Pelo menos no inferno onde vou
ouvirei com gosto feito mãe ausente
Glorinha falando que amava você,
que doce diabinha!

Que graça que a vida tinha?

Vovó só morreu de velhice
e nem pito me trouxe na cadeia
antes de a corda amarrada no teto
dar cabo de minha vida
naquela cela fria.

Glorinha?
Virou santa e ganhou devotos
com pôsteres de borracharia.

CRiga.


(4º lugar no Prêmio Barueri de Literatura/2018)



terça-feira, 13 de novembro de 2018

Casa na árvore


Calhou que era sexta-feira 13, e os quatro amigos se encontrariam à noite na casa de árvore. Brincadeira macabra, mas bem propícia ao encontro naquela data – ouija, à luz de uma única vela. Ou o “jogo do copo que anda”, como diziam os mais antigos. Pela falta de um tabuleiro original, foram mesmo na onda dos mais velhos – papeizinhos recortados com as letras rabiscadas a Bic, um “Sim” e um “Não” e um copo americano sujo de guaraná.

Pelos dedos de um dos garotos o copo andou. Depois de anotadas as mensagens do tal espírito, ficou marcado que a brincadeira continuaria às seis da manhã do sábado 14, mas cada um à beira de um edifício no centro da cidade. Um passo à frente ao precipício e eles virariam a notícia que explodiria em espanto e morbidez – “Suicídio coletivo de adolescentes choca o País”. Algo bem mais vistoso que aquele caso de outro garoto que se matara um ano antes também dando um passo ao nada, do topo de um edifício, num sábado de sol. E ninguém nunca soube por que.

Depois do “jogo”, cada um fez seu juramento ante o toco da vela, a juíza que selou aquele pacto estranho. Reviram locais e horários, e cada um foi para sua casa matutando pensamentos. Entre os 13 e 14 anos de idade, quase todos pensam de forma semelhante. Mas o sábado já estava próximo demais – o que rolava na cabeça de cada um daqueles garotos?

O primeiro, o que comandou o copo no joguinho macabro de sexta, estava em seu posto no dia e hora marcados. Olhou para o topo dos outros edifícios procurando os amigos, não via ninguém – e pela distância nem daria mesmo para ver. Trêmulo, deixou escapar lágrimas de um medo juvenil, de uma cabeça confusa com brincadeiras, pactos e notícias de jornal. À beira do precipício só tinha que dar mais um passo. Hesitou. Explodiu num choro convulsivo. Virou as costas e correu de volta, menino assustado, talvez para cama dos pais ainda dormindo, talvez para o cemitério visitar um certo amigo seu.

O segundo chegou com o velho skate a tira colo. Olhou o brilho do sol daquele sábado, lembrou da brincadeira de sexta e tinha certeza que encontraria os amigos na pista do parque municipal. Deu um sorrisinho de cumplicidade, meia volta e foi embora curtir o half pipe com um hip hop no fone de ouvido. Ali em cima, de vontade, apenas a de nunca mais fazer promessas impossíveis de se cumprir. Não esquentou e para sempre foi feliz.

O terceiro nunca ia bem com horários, e como todo o adolescente a preguiça de levantar da cama falou mais alto. Acordou depois das 8 da manhã, olhou o relógio e nem se preocupou: virou o corpo para revezar o sono de outro lado na cama. Acordaria com o grito ao portão de casa e a mãe batendo na porta – “tem um amigo seu te chamando pro parque!” Levantou com cara enrugada e perguntou ao amigo sobre o pacto de sexta. “Da brincadeira? Sei lá! O copo andou empurrado pelo dedo, acreditou que foi espírito? Ora!” Ele confiou e também foi ser feliz.

O quarto garoto... Bem, a história deste era mais triste. Preso ao copo americano na casa de árvore, nunca convenceria seus amigos a brincar com ele num sábado de sol.

CRiga.


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A chuva como um soco na cara



Queria agora que chovesse a chuva confortante
dos fortes que também choram.
Água pesada que faz barulho no asfalto ladrilho,
aquele cheiro fresco que se perdeu na juventude.

Água benta rebatizando o espírito cansado.
Chuva que encharca a camiseta e o casaco
eu e você
em diferentes estações.

Água que dilui lágrimas etílicas,
lágrimas que ardem no machucado.
Meu rosto tem coragem de encarar a tempestade,
a idade tem medo de se afogar num copo vazio.

Queria agora que chovesse a primeira chuva,
aquela água que purifica, perdoa e lava o sangue.

Essa tempestade de primavera 
só condena a gente à louca espera
de se alcançar em algum verão.   

CRiga.

(Primaveras se atracam
e a chuva vira lágrima:
pai e filho se machucam
e dispersam os verões)




O inimigo vem para o jantar (a canção de um sonho bem real)



Durante a ceia escassa de nossa aldeia
Você trouxe o vinho da bebedeira
Brindou como um velho amigo que voltou.

Na noite do nosso sono confiante
Você portou-se como um amante
Roubou o ouro e apenas acusou.

De manhã jogou o velhinho de lado
Cercou o jardim com arame farpado
Botou soldado raso vigiando as flores.

Meio-dia tomou a casa de assalto
Gritou “todos de mãos pro alto”
E fez seu escritório em nosso quarto.

Daí
No novo almoço fez ode à tirania
Enfiou goela abaixo uma soberania
Prendeu padre, parente e vizinho.

Daí
Rasgou a Bíblia e a Constituição
Sorriu arrogante na televisão
E deu de ombros ao que estava escrito.

E aí?
Como aceitar o novo inimigo?
E deixar solto o velho bandido?
Ignorar a verdadeira paz?

E aí?
Como acreditar no falso profeta?
E encarar a face do poeta?
Os nossos dias já não voltam mais.

CRiga.

(Sonhei com invasão de marcianos
e acordei com um Brasil
depois das eleições...)



quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Pra quem quer olhar


Os olhos não mentem. Isso é fato.
Sentem muito quando sofrem
e quando querem riem alto.

Eles olham no fundo da alma,
acalmam, eles também abraçam,
beijam e até te comem...

Os olhos se vestem de lápis e rímel,
óculos escuros e lentes mentirosas –
são perigosas as suas meninas.

Farol no caminho dos cegos,
tortos quando o amor os cega.

São pretos castanhos azuis verdes
amarelos e até vermelhos.
A morte na verdade tem olhos brancos.

São francos quando a alma os aperta.
Os olhos enxergam até a bebida
escondida debaixo do casaco.

Os olhos não negam a facilidade
e nem a doce boba felicidade
quando olham com o coração.

Flecham. Fecham a avenida.
Moem. Destroem a rival.
Sambam no feriado de carnaval.
Rezam fechados pedindo colírio
e perdão.

O padre tem olhos severos
destes que inventam o olhar de Deus.

O diabo tem olhares sinceros
destes que convertem até os ateus.

CRiga.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Poesia sem adjetivos


Olha nos meus olhos, me descubra
me desnuda
mas não bata o martelo –
meu advogado se chama tempo.

Sem metáforas ou adjetivos –
apenas a verdade que sou.

CRiga.



segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Basta chacoalhar


Tem aquele solzinho que resiste,
A necessidade de falar contigo
E dizer que há outras estações.

As fotos me avisaram, o amor é nosso
Mas a vida inteira também é.
Às vezes a gente se atrapalha no passo
Chuta pedra, ignora a flor na calçada.

Mas também tem parque e visita de domingo
Um bom papo, boas lembranças
Nossas ainda eternas crianças!

Todos nós temos medo, é o enredo.
Tem medo que às vezes aterroriza
Pesadelo daqueles de chamar a mãe.

Pode me chamar. Pode me contar.
Nosso coração é do universo,
Basta azeitar as engrenagens –

Ele vai conspirar tão novo
Feito o relógio do vô Inocêncio
Que ainda insiste funcionar.

CRiga.