segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A patrulha dos chatos


Não me agradam heróis engravatados
ou muito bem barbeados, cara lisa
verniz dos bancos da igreja polidos pro domingo.
Mas também me chateiam as bandeiras coloridas
que se enfiam até num filme de ação
querendo mudar o sexo dos super-heróis.

Me enoja quem me cobra lados
quem exige assumir uma posição
entre o dedo em riste
e a provocação exagerada.

Entre as flechas podres flechas
do caçador guardião que acerta à esquerda
e do falso índio que desfila nu para a direita.
Pender é morrer flechado
pregado na árvore velha da praça.

Aquela da esquina
que desgarra folhas demais
sujando as calçadas dos senhores de bigode
à direita de quem passa com pressa.

Aquela mesma que se parece
um falo enorme capado
culpado, amordaçado, símbolo da opressão
à esquerda de quem corre da patrulha.

CRiga.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A egotrip da vingança


Vou viver no limite íngreme
da minha alma que já não é tão pura.

E se você não vier de branco
feito anjo me salvar do devaneio,
vou ser mármore tão negra.

E se você não sorrir
e se você não me ouvir
e se você não me abraçar
e se você não existir...

E se você não vier?

Se você não vier
vou renascer das cinzas do que já sou.

Eu sou as cinzas que bóiam no teu ar,
que aterrorizam teus olhos sem cor
numa trágica noite de inverno,
depois do vento insano sem direção
invadir a tua casa decorada
morango de prateleira.

Só que você, metódica,
limpa a tua casa com talento,
lava o rosto petrificado
com sabonete neutro, água morna
e vai dormir,
como se não existisse o dia
que você me deu um beijo.

Como se eu não existisse,
como se eu fosse pedra vulgar
ou mármore tão negra.

Como se eu fosse ressuscitar
sem limites
no teu seguro lar tão puro.

Como se eu fosse o retrato velho
sobre a triste escrivaninha de cedro
esquecida no sótão escuro.

Como se eu fosse vírus
esperando tua hemorragia
me libertar do desespero.

Como se eu fosse o fóssil
daquele tiranossauro rex
que um dia quis ser bonzinho.

Como se eu fosse fácil,
como se eu fosse frágil,
como se eu tossisse sangue
feito poeta do Romantismo.

Vou viver no fútil limite
desta alma que só queria
ter você de fato um dia.

E se você vier assistir a meu desespero,
vou sorrir sarcástico,
dar adeus com a cabeça,
virar as costas
e voar sobre o penhasco.

E só sobrará teu eco dissonante
entre as montanhas seculares
naquela trágica noite de inverno:

“eu amo você...cê...cê...”

E ficará esperando resposta
no limite íngreme do penhasco,
e ficará esperando eu voltar de branco
feito anjo,
pra te salvar da tentação
de vir comigo devanear.

E ouvirá só o som da lágrima
contra a rocha seca,
que não ressoa eco
nem alivia a dor.

E rezará por mim
e pedirá minha proteção,

e lembrará os dias
em que nunca fui anjo
e quando roubei um beijo teu.

E desejará com a alma
eu não estar te vigiando
e continuar não sendo anjo
só pra roubar outro beijo teu.

E você viverá no limite íngreme
da tua alma então tão negra,

perdida no vale das pedras
nas mármores tão puras,

perdida nas noites escuras
que eu fundei
enquanto amei você.

CRiga.


terça-feira, 10 de outubro de 2017

Baixinho



Você não sabe sobre o que falar. E também não tem mais saco pra debater a crise no Brasil.

Então você remexe algo que restou de bom, e repara que nem passado ou presente lhe dão letras harmoniosas. É, meu chapa: você perdeu o lirismo.

Enquanto isso só resta disfarçar, então, essa sensação de imensa incapacidade de construir – um poema, um Brasil melhor.

Amargura, calor pra caralho. Uma música que me diz tudo. Uns dias que não me dizem muito. Um perfume selvagem na memória do coração. Uma adolescência, um saudosismo, um medo do futuro dos meus filhos. Uma emergência em mudar o presente, corpo e alma, nem tanto as enferrujadas engrenagens desta politicagem nojenta que nos acerca nas três instâncias.

Tudo se mistura. Fedores, amores calejados, a paixão que pegou a estrada e se nega a voltar, um pé atrás nessa euforia, o dia, o fim do mês, um disco novo pra comprar. Uma boa conversa no trabalho, a cerveja que não há mais nos dias de semana, uma caminhada no parque. Passos que levem a lugar qualquer que não o morno silêncio pra vomitar.

Você simplesmente não sabe sobre o que falar. Mas quer falar. Quer gritar. Baixinho...


CRiga.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Jabuti


Às vezes parece
que todo o oxigênio do mundo
resolve te pressionar.

Mas ele uma hora se cansa
e a gente vence.

Respirando!

CRiga.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Filosofia de tempo


Ando muito sério
com as seriedades deste mundo.
No fundo no fundo eu prefiro
a rima que desconcerta
o que parece mesmo não ter jeito.

Feito colher margaridas que viverão
apenas até amanhã à tarde.
Lembrar o dia na praia na ilha
em que não sabíamos onde o futuro ia dar.
Comprar um novo caderno azul,
motivo pra de novo se encontrar.
Falar do teu cabelo novo na sala
forrar a rua com as cartas de amor
que você nunca recebeu.

O passado é perigoso sim,
nos culpa pelo ponto onde chegamos.
O presente me pressiona,
nem tanto impressiona, chata experiência.
O futuro deve dar nalgum lugar
onde eu preciso querer estar.

CRiga.


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Campari


Você beija e eu não beijo,
e a vida segue...
Amanhã, segunda-feira,
o resto da semana ninguém vai lembrar
nem ligar.
Paguei em dia a conta e ninguém liga.
Ninguém liga pra mim.

Quem não paga a conta que eu pago
usa o fogo que não tenho
pra mandar mensagem, agendar encontro,
sob o meu triste e calejado calcanhar.

CRiga.


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Mochila em missão


Pra você que tá perdido
eu não tenho o mapa,
nem capa de chuva pra você não se molhar.

Pra você que tá sem rumo
eu quebrei o prumo faz tempo…
Sentimento eu tenho, varia,
mas geralmente dá pro gasto.

Basta você mostrar as caras,
qualquer uma, amo todas!

Para o amigo Danilo Amélio


CRiga.