segunda-feira, 10 de abril de 2017

Quarenta e duas léguas


Não há crime o caleidoscópio mirar
a doce psicodelia das cores da rede
que esvoaça à varanda em Piraju.

Dia vinte e sete deste ano –
pra quem enxerga mapas de inferno astral
eu vejo quarenta e duas opções
de não morrer sem ter escrito um livro
ter plantado uma árvore, ter um filho.

Os clichês são belos, amarelos
verdes anis brancos e uma ordem:
falta chão nesse quarenta e dois!

Há quarenta e duas mil cores,
elas brilham no fim da tarde outono.
E o que me incomoda mais, poeta,
neste restim besta de vivência,
é amigo meu eleger a rima pobre
e só enxergar sobrevivência!

A gente pode tanta coisa, meu amor,
até sonhar com rede, rima, cor, caminho.
Me dá carinho, a senha entre as tuas pernas,
eternas pernas de inaugurar histórias.


CRiga.


domingo, 9 de abril de 2017

Domingo, uma raiz


Há coisas que ainda bem
não estragam o domingo.

Com as crianças,
um bom filme, um bom almoço
a companhia de um amigo.

Não precisa vinho nem cerveja,
não precisa acerto nem confissões.
Sílvio Santos ou Faustão,
a ligação de quem você espera.

Há coisas que na pele reencrustam,
são da natureza, raiz ao contrário,
procurar a semente.

À alma que sente que deve voltar
não se deve negar água,
negar reencontrar.

Para Gustavo


CRiga.


Terapia do ódio


Porque se fosse fácil
o fóssil não teria valor.

Ao te ver tenho esta urgência
em não sentir que te devo
que posso mais que você.

Necessidade terapêutica de odiar
como se fosse fácil
como se eu fosse fácil
e eu não sou assim...

Terapia é o dia
em que eu negar por que
cheguei vivo até aqui.

CRiga.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

So I start a revolution from my bed


Decidi negar a cama amargura,
aquela que não quer te largar.

Botei roupa de guerra
e me armei do caderninho.
Lembrei-me de um lugar-destino
e um bom assunto pra esparramar
(assunto mesmo de mesa de bar).

Cheguei veterano apagado
como quem queria apenas um olhar.
Fiz perguntas, estranharam.
Anotei, fui embora.

Sem querências entreguei
as respostas ao correio
de quem quer falar mais alto.

Eu sou da guerra, eu sei
maremotear a calmaria.
Então me reentreguei a meu destino!

Depois disso houve show.
Só queriam, como antes, me responder.
E outros me seguiram, me sorriram
dando asas a uma revolução –
qualquer tipo, não importa.

O importante é sentir o sangue quente
vermelho correndo as veias,
em vez da maresia morna
que afoga aos poucos o talento.

CRiga.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Desejo


A entrega acaba
na morte dos sentidos.

A carne que ferve queima miolos.

Um sorriso de canto, “com licença”.
O perfume tão vivo que te encrusta,
te cimenta no banco duro da solidão.

Calafrios nas ligações elétricas.
Na pele tapete de veludo
brotam doces carocinhos,
braile de explorar
o trigal esvoaçante.

Fogo na terra, raiz que não sossega!
Brota oceano salivando a fruta
que brilha vermelha, úmida,
distraída exposta na fruteira.

Não, mantenha oca a santidade...
Melhor viver assim pela metade
afogado em si em tanto sal de mar...

CRiga.


terça-feira, 4 de abril de 2017

O general das batatas


O general me tirou da artilharia que pesava sobre os meus ombros, mas me colocou telegrafando notas sociais de soldados rasos. Hoje, depois da dura batalha ele sorri de novo, mas agora sob um tenso ranger de dentes - tantas estrelas não podem tirar das costas as execuções de caladas de noite. De sua poltrona almofadada, vestindo sua farda reciclada, levanta velhas armas como se pudesse usar.

Telegrafando não desaprendi a atirar - e não há melhor soldado telegrafista de notas sociais. Eu seria o general de descascar batatas, tivesse me enviado ao porão do quartel sob o incêndio implacável do tempo. E sob a dura acusação de sentinela desesperada, telegrafista de plantão, até apaguei algumas chamas que comiam o campo pelas beiradas.

O melhor é me matar de vez do que aos poucos - nem batatas nem notas, verdes, marrons ou sociais, vão conseguir. Sou soldado profissional telegrafista, sempre fiel à bandeira que sirvo. E ainda sei atirar muito bem.

CRiga.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Pra uma vida qualquer vida (resto é morte na avenida)


Acorda com a segunda-feira
lhe dando segundas chances.
Possibilidades, remotas ou não.
Sem lirismo, sem encanto.
Há também na pele que ferve
a covardia e a doença moderna.
Aquela tristeza tonta
que não tem gosto, morna.
Por que não vomita?
Por que não goza?
Por que não dá voz?
Há segundas chances orbitando
por aí, batendo asas de ir embora.
Mas a pena é tinteiro falso, fede mofo,
dá pena de ver correr atrás.
Agora há tempo pra um poema.
Precisa agora assassinar lirismos.
Precisa do cinismo. Escrever
só a disputa pelo poder.
Não pode nem contar verdades –
o espião te mata, o futuro cai
numa conta muita cara,
a bebida que não satisfaz.
Não sabe se vai pagar,
o gosto é só sangue de barata.
Não sabe se vai chegar a tempo.
Como acreditar em milagres.
Como discar números da agenda –
o socorro é só um barquinho de papel
que desce no fiozinho de água
escorrendo suja na sarjeta quebrada.

Ele antes tinha motivos.
Agora tem coceiras,
olheiras, sono pra recuperar.
E um finalmente virar as costas,
se jogar.

CRiga.