terça-feira, 14 de março de 2017

Capturando vento


Preso ao calcanhar do retardatário –
pensa estar entre os primeiros.

Inflando o ego de um balão furado –
pensa ainda ter ar para voar.

Abrindo caminhos aos rincões do nada –
pensa ter estrelas pro seu vazio vazio céu.

Quem preso, inflando, abrindo,
come calado sua pedra no sapato.
Mas sabe bem quem prepara e serve
o prato justo de quem tem a consciência.

O retardatário balão dos rincões no nada
captura vento
e semeia tempestade.


CRiga.


segunda-feira, 13 de março de 2017

Pureza


Eu vejo uma bela história de amor
sem toda tanta dor que senti.

Mas eu nem tenho este direito...
Não se pode querer postar os pares
nos lugares perfeitos da tua fotografia.

Não adianta adiantar-lhe
o olhar aos lábios –
a boca dela por enquanto só denuncia
a pisada na marca da amarelinha.

CRiga.


sexta-feira, 10 de março de 2017

Separação


São as pétalas que descolam,
caem antes tapete ao altar.
Ervas daninhas são o jardim,
antes cúmplice da cumplicidade.

O peixinho morreu, boia no aquário,
e até o gato chora a falta de fome.
O vizinho quer encher o saco,
quer botar o copo na parede...

Não há louça empilhada na pia,
par ou ímpar, não há mais refeições.
Não levaram as crianças pra escola
triste folga, vamos brincar lá fora.

O quarto escuro cheira a suor envelhecido
e o espelho do banheiro foi quebrado –
azar maior é visita sem aviso,
compromisso de diretoria.

Retratos que sorriem pares da memória
estão virados sobre o pó da estante.
Há um instante em que morrer é bom,
mas há também um som diferente
pra cada lágrima que cai –

eu hoje esqueci você um pouco mais
que o quase nada de um ontem qualquer.

CRiga.


quinta-feira, 9 de março de 2017

Um tombo na madrugada


Mergulhado
se esquece que a morte vem
trotando, avisando.
Uma voz rouca ao telefone.

Às vezes apeia o cavalo
deixa aproveitar o chá das cinco
com as rosquinhas de leite
que enganam o espírito.

Mas uma hora volta no pó da estrada
chega de madrugada, silencia os grilos.

Põe as cartas marcadas sobre a mesa
e não adianta protestar –
é sua assinatura ali grafada
as fotos então queimadas
num canto do velho quarto.

Caem ao chão o rosário,
a Nosso Senhora negra que dava medo
e o livro de Alan Kardec –
deixa quem fica defender quem vai,
leva quem nunca perdeu a fé.

Mergulhado nas gotas diárias do ácido,
se esquece que o seu corpo também padece.
Antes a morte leva alguém.
Depois, leva você também.

CRiga.



quarta-feira, 8 de março de 2017

Ao meu surdo coração


Lá em cima do piano
tem um copo de virtude.
Quem bebeu foi um filho meu
por Elisa, São Francisco.
Um menino de sorriso
solto assim no ar.
Um talento pra tocar
até surdos corações.


CRiga.


terça-feira, 7 de março de 2017

13 anos


Não se sabe se existe pior.
Porrada na cabeça. Parada cardíaca
lança-perfume e cocaína.

Vida rasa, perspectiva?
Talvez risse, que alegria?
Talvez nem comesse,
começasse a ser bandido.
Talvez só brincasse,
ninguém nunca viu.

Menino moleque,
pivete menor abandonado.
Criança, criança, criança –
onde estão os braços do país,
os abraços de seus pais?

Mataram, matou-se o menino.
Que importa?
Poderia ser seu filho...

CRiga.

Morte de adolescente no Habib's foi causada por lança-perfume, diz laudo

Proibido falar tirania


A surdez do antigo rei não é nova,
e como todo bom rei na barriga
do trono arrota e esbraveja soberba.

Por isso não precisa dizer ao rei
que o pântano engole o agricultor.
Que ele procura sim um ouvido
só disposto a ouvir, uma mão amiga
que o tire de lama que o envelhece.

Todo reinado acaba, mas a enxada
é só trocar o cabo –  
ninguém pensa em dar com ele
na coroa emprestada.

Só renovar o trabalho no campo
e desatolar as botas já furadas.
Colher das sementes já plantadas
a paz que pareceu um dia tão distante.

Igual àquela paz de varanda,
casal às cadeiras só olhando
almas sorrindo dentro do milharal.

Igual a um reino cujo único decreto
afixado à arvore mais velha,
seja proibir a simples menção
à palavra tirania.

CRiga.