quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Sapato velho


Uma das piores sensações de um homem é o estágio em que ele sente vergonha de seus sapatos. É quando toda a humildade que ele sempre cultivou não vale mais que a falta de lustre e couro. Quando o engraxate se torna padre confessor.


CRiga.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Crônica da saudade do que ainda não foi


Eu hoje sonhei que barbeava meu filho. O rostinho era o mesmo, de criança, suave, bonito, pérola de infância aos 12 anos. Apenas alguma “barba” havia, lisinha, e eu era só o medo de lhe cortar. No final deu tudo bem: barba feita, sem machucar. Seus olhinhos azuis me encaravam sérios, sua meninice que sempre me comove me deu força. Afinal, sonhos são assim, estranhos, mas que te pegam de alguma forma.

Acordei, e eu era agora uma triste sensação, o dia em que não mais terei aquele rostinho de criança para olhar, beijar, acariciar. O dia em que seus olhinhos azuis poderão ser apenas os olhos perdidos de um rapaz procurando identidade ou minhas lâminas de barbear. O rosto do cara desviando do meu na festa que não será mais minha, à procura do que será seu. Será o momento em que caída toda a areia do tempo, a ampulheta revelará depois do vendaval da idade: tens pouco o que lhe interessa.

Corri ao seu quarto, cama vazia, ele este ano começou a estudar de manhã. Acorda mais cedo que eu e a mãe, arruma suas coisas, um copo de leite com chocolate, pega a blusa em nosso quarto e corre pra pegar a van que ele reclama nem conseguir fechar a porta, observado pelos adolescentes com olhares sonolentos de irrelevância. E me veio de novo a brisa fria de uma futura solidão: a saudade do tempo em que eu poderia dizer bom dia, boa aula, eu te amo. Depois será boa tarde, onde vai, fica em casa conversar, eu tenho um conselho, deixa eu te falar...

Tomei café, fui trabalhar. Ritmo forte, correria, muita ideia pra ter e executar, o dia a dia que te toma os sonhos e a essência. Mas no meio da tarde, um estalo, me veio a imagem de meu filho e seu rostinho de criança. Parei tudo, parei aqui: será que um dia precisarei ensiná-lo a se barbear? Será que um dia vou me perdoar pelo tempo que insisto em perder?

Mas o engraçado mesmo é sentir saudades do que ainda não foi. Meu filho hoje vai dormir mais cedo, e eu preciso lhe encontrar. Amanhã eu preciso acordar mais cedo, e que bom: ele ainda não precisa se barbear!

CRiga.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Tristeza



Desfila sorrateira
às vezes montada no cavalo
do monumento no Ibirapuera.
Ou estampada nos olhos do anjinho
da fontezinha do bulevar.

É uma respiração profunda
tentando dar ritmo ao dia
e ao coração cansado.

Câmera lenta, você tenta engolir,
é café amanhecido.
Um drama de atores sem fama,
uma cama que não quer te largar.

Pousa nos teus ombros as mãos pesadas
enquanto em frente a um computador
você se pergunta como se deletar dali.

Marca com as unhas por dentro do peito
feito prostituta velha, bruxa fedida.
Gata preta no cio te gritando
lá no fundo da cabeça que pesa bigornas.

Beija sabor sangue, congela o estômago,
amarga a garganta, chuta os testículos.

Sopra um vento polar na nuca,
parece que nunca existiu verão.


CRiga.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Dias eternos de amores modernos


Lídia olhava a caixinha de música quebrada. Deveria chorar, mas não chorava. A bailarina manca e a música desafinada já não afetavam mais.

Lídia não esqueceu o batom vermelho na bolsa, nem o preservativo comprado, em segredo, naquela farmácia de esquina. A inveja da solteirona do balcão podia denunciar. “Foda-se!”, palavra da moda.

Lídia deixou pra trás uma vida de menina. Perdeu vontade de chorar por brinquedo quebrado, perdeu a atenção nos bordões da mãe, perdeu a doce virgindade lenda das conversas de chá da tarde.

Enquanto destoava nos gemidos, misto de dor e de novo prazer, uma bailarina manca fazia as malas. Não havia príncipe nessa história de amores perfeitos, porque nem Lídia esperava telefonemas de dias seguintes. 

Nem mesmo aquele soldadinho de chumbo, herói de outrora a declamar poemas ao pé da caixinha, havia mais – perdeu uma perna na guerra da puberdade, e aposentou-se beberrão numa cadeira de rodas pela cidade dos brinquedos fantasmas.

E o amor, descrito num velho livro de contos de fadas, agora apenas mascava chicletes despreocupado, parado na chuva com guarda-chuva furado, esperando um ônibus qualquer.

CRiga.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Não caia do cavalo, mais uma vez


O dia que começa rangendo os dentes...
À minha frente, desafios de recortes de jornais
onde o papel ignora quem quiser.

Esse contorcer de veias e artérias
acelera o pulso, atormenta o espírito.
Deveria ser velho conhecido de mesa de bar.
Ele é o monstro cotidiano que te come pelas beiradas
e te recria pro novo dia.

Porque o conforto confiante é a espora invisível
que machuca o cavalo manso que te carrega,
e que te derruba.


CRiga.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Atrás dos olhos azuis


Há gente que não acredita que estou lá. Mas cada vez que estou em algum lugar, tenho certeza de onde não quero ficar.

Quando falta o adjetivo costurando o verso que você procura lá no fundo, até forjando doces memórias, é porque morre um pouco de ti no moedor de carne das avenidas, das vidas que não te importam. Adoece o talento de curar feridas d’alma elogiada apenas discreta. Impossibilita o trago na fumaça confusa, fazendo das nuvenzinhas sem graça que pairam sobre teus pensamentos o doce algodão doce com gosto que ousa um Drummond.

Há um poente doente, o dia de sol que não vi, o calor que não senti. O ar condicionado me rouba a tentativa de brisa, porque a briga das máscaras neste sempre carnaval me afasta, me gasta, me dá gastura e vontade de fugir.

Os atores são os mesmos, os cotovelos invisíveis querendo espaço no alto verbo, no alto relevo. Às costas as pás cavam as covas, dê um passinho, por favor... O chão de madeira velha é polido pro tapete bem deslizar.

Ferino, felino, rapina, estou em cima sem você me sentir. Sem braço, mais um João, finge-se aleijado, mais um abraço, beijinho de oi e de tchau. Eu hoje nem beijei meus filhos, me deixe afundado na honestidade que luto pra não se envergonhar.

Faz tempo que não vejo gente assim, aliás, me faz um bem não reconhecer de cara: meus olhos azuis, fiéis como um cão, são estes mesmos que você sempre verá.

CRiga.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Os garotos guerreiros


A vida que segue
também mede a resistência.
Se tem medo, nem vai –
fica em casa debaixo do cobertor!

Até que o barulho ensurdecedor
das crianças brincando na sala
te derrube no assoalho da ilusão:

são elas as donas de sua vontade
dos seus passos, dos seus medos.

Quando eu era moleque
brinquei sozinho de matar dragões.
Meus meninos dizimam exércitos
num jogo de computador.

Diferenças não fazem diferentes.
Por eles suporto qualquer guerra,
não há terra que eu não vasculhe
procurando risadas, sorvetes
e as doces conversas do jantar.

Fossem comigo ao campo inimigo,
cantariam, contariam piadinhas.
A batalha seria mais linda e leve,
seria breve, e a gente venceria.

A gente voltaria tomando sorvete,
contando os dragões que tiveram fim.
Quando eu era moleque, faz tempo,
sempre quis guerrear assim!

CRiga.