quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Doxepina


Corredor sem fim
rostos embaçados
vozes abafadas
câmera lenta
areia movediça
calafrio, frio
letras dançam
lábios moles
vida torta
vida acaba
de renascer tão morta...


CRiga.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Carta clichê


Oi,

Não sei isso me faz mal ou se me faz bem, este entorpecente chamado memória do coração. Mas ultimamente até os sonhos têm sido mais legais comigo – não têm trazido você pra me deixar boiando cinza durante o dia. 

Escrevo pra você agora pra te contar como estou indo. Eu vou bem. Sério, vou muito bem. O que esperar de alguém que tem um lugar pra voltar, contas pra pagar? Meu tempo todo está tomado, ainda bem, lembra da história velha de nossas tias sobre a oficina do diabo? 

Tem dias que boto preto no branco, mas na forma de um quarto escuro em que só eu sei onde as coisas estão, as coisas que sinto por você, bem guardadinhas, em cantinhos, protegidas. Essas coisinhas repetidas que não vou repetir agora, prometo. É que faço questão sempre de repeti-las, ressaltá-las, grifá-las, sangrá-las. Exorcizá-las. São espíritos que sorriem rangendo dentes, provocando, cheiro de jasmim e de asfalto molhado – um chamado pra acordar, reviver. Sofrer, escrever.

Então escrevo. Você, sei que entende, sempre vai. Desde aqueles dias que a gente não se reconhecia por “proteção divina”. Ou porque tinha medo. Eu tinha medo.

Já ouvi gente dizendo que chega a esquecer de rostos de pessoas queridas. Eu nunca consegui esquecer o teu. Mas é verdade, eu vou bem. É que a gente se apega em verdades que criamos pra sobreviver. Eu já elegi a minha: não esqueci teu rosto porque ele não faz só parte deste-palco-chamado-cotidiano – tão clichê como multidão. Ele, teu rosto tão lindo que não esqueço, vem do que pessoas chamam de “Plano-Maior”. Eu não me apego a religião, e este palco destrói a oficina do diabo – só por isso sobrevivo. Mas vivo porque adotei essa verdadezinha putinha de esquina – um-dia-em-outro-plano-a-gente-vai-se-encontrar.

Lá de cima, antes, já tinha pulado parágrafos pra cá, e anotei aqui: “Falar das saudades, que eu preferia aquele acordar de manhã bem cedo com nó de garganta clichezado e vazio de poeta trouxa”. E é isso. Prefiro que os sonhos não sejam camaradas, tragam você me olhando lá no fundo, mãos dadas, a gente junto como deveria ser isso não fosse assim. Prefiro as lágrimas que escorrem junto ao asfalto molhado das seis da manhã, inverno, luzes amarelas dos postes que insistem iluminar as ruas sem ninguém. E o que me dá coragem em dias como esses é saber que no pulso da memória do coração, ou no pulso de cada dedo rápido no teclado, é pra você, por você, que exercito o que de mais sagrado e querido eu tenho pra mim: escrever. Escrever-te.

Eu vou indo, mas apareço por aqui nas linhas de vez em quando pra te ver. Houve um tempo que a gente sabia partir. Eu não sei mais. Então vou indo assim, ouvindo um som no fone de ouvido, um sonzinho que serve pra todo mundo, tipo previsão de horóscopo, e agora serviu pra mim: “quando me vi, e tendo de viver comigo apenas e com o mundo, você me veio como um sonho bom, e me assustei, não sou perfeito, eu não esqueço, a riqueza que nós temos ninguém consegue perceber, e de pensar nisso tudo, eu homem feito tive medo” *.

Mas vou conseguir dormir, quem sabe sonhar.

Tchau.

* “Teatro dos Vampiros” – Legião Urbana (“V”, 1991)

CRiga.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Fácil ópio


É preciso purificar o sangue
nem que seja a base
das banalidades que odeio.

O banal tem medo de mim,
não se aproxima,
me olha de lado, de longe.

Ele não se intoxica
das verdades que lhe convêm,
e eu tenho medo de morrer
envenenado pelas minhas próprias.

Assim é preciso cortejar a massa
de um olho só, encarar,
sorrir à facilidade
fingir felicidade.

No final não há verdade,
e tudo vale, até encruar-se
ou bancar o idiota.

O que resta apenas é um aceno,
um sorriso amarelo,
o efeito da droga da falta de compromisso,
que todo dia alimenta
e aliena.

CRiga.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A pele que ferve


Estou louco. Sou. Só agora sei. Suspeitava. Suscitam vulcões na pele. O sangue não é de todo ruim, mas não para de sangrar. Sintomático. Sinto muito, automático provoco feridas. Em mim e em quem amo. Os pés no chão me esfolam o corpo todo. Eu desaprendi a voar fugindo da dor. A fumaça ajuda a brisa, o vento traz a chuva e o doce cheiro do asfalto. De longe, o suspiro ofegante me devolve a mim.

Um rapaz se matou enforcado, na casa ao lado. A vida que é muito louca – a mãe acarinhou seu rosto perguntando-se por que, e o pai quis forrar a garagem pro morto não sentir o chão gelado. Ninguém sabe por que a corda nem sempre arrebenta do lado mais fraco...

Faço um trato – os domingos não serão mais loucos. Apenas eu, à beira dos barbitúricos que mataram Elis. Eles não vão saber por que – nem eu sei por que minhas unhas cavocam sôfregas procurando segredos nus na pele branca, agora em chamas. E me chamam a atenção. 

Eu me chamo louco. Uma pessoa então comum.

CRiga.


Corrido


Muito provavelmente, a maioria das conclusões que se tirou desta pouca história está adormecida sobre a cama que ainda deve abrigar corpos perdidos pedindo socorro, mas nós queremos parecer fortes, donos dos caminhos e das verdades inventadas, inacabadas. Há como se tirar conclusões, meu amor? Há como dizer que o caminho é este, que nãomais novidade? Que é bom pararmos no acostamento esperando a morte chegar? Ninguém nos disse isso, fomos nós que nos sugestionamos, somos seres fáceis, queremos dominar o mundo e as palavras, e nem mesmo a nós mesmos conseguimos dominar. Calma, ainda há caminho corrido nos corredores deste que chamamos lar.


CRiga.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Pequenice, Maria Alice


Cousas do céu que se move,
a gente se comove
porque é tempo
de a gente se comover.

Quando casares contarás
com quantas estrelas
se faz noite sem luar.

CRiga.