segunda-feira, 13 de junho de 2016

Índia


Rondei capitanias procurando teu vestido
entre bananeiras, seringueiras
nas casas dos índios confusos
cafusos.
Oh, meu amor,
onde foi parar teu corpo
sem o vestido chita que te dei
que tirei?...

Da intriga das terras fundei tua capital
nas matas virgens negras
onde não fulguras mais.

Doce cacau, flor de cactos
desmontei a nau
desmenti rumores
e voltei.

De teu sobrara somente
semente na mata verde
donde brotou o amor que fizemos
à relva molhada de um país tropical.

Odiei meu capitão
meu sol, meu destino.
Escrevi com meu sangue
teu nome na mata triste
que era virgem
agora é morta,

e fui embora
mundo afora
sem rumo
sem mais idioma.

CRiga.


sexta-feira, 10 de junho de 2016

Os peixes de nosso aquário

Trocamos textos na rede,
os peixes de nosso aquário.

Peixes verdes de esperança
de trocar as peles numa cama
sob o mar e o gosto
do sal suor em nosso rosto.

Peixes azuis lembrando o céu
da nossa rompida e velha infância
sob a rígida vigilância dos adultos
que não leram Caio Fernando Abreu.

Peixes neon boiando ébrios no ar
na nossa noite tão belamente negra
matando cerveja de bar em bar,

...ops!...

nossos peixes não bebem mais!...

CRiga.


Agora (ou nunca)!

Estamos nós somente à mesa agora,
este palco de atores sem hora.

Podemos assim dizer o que for
destruir tortos planos divinos
desafiar olhares, desafinar no coro
destoar no voo sem nexo
falar sobre sexo e anjos embriagados.

Tocar os dedos frios, nervosos
armar a calma, desarmar a alma
relembrar o imemorial
e arcar com as consequências.

Voar, fugir
fundar uma seita
fingir sermos versos de um deus
ou ateus
ou o que quisermos ser além de nós.

A sós somente nós no mundo agora
podemos então ir embora, ignorar
ou simplesmente sorrir
e consentir.

CRiga.


Time again

Meu rei abandonou o reino
meu aço machucou o rio
mas o rei acertou o passo
e o aço cortou o fio.

Navalha na carne destino
chorei o passado marcado
bendito, machucado.
O rei não tinha o direito
de partir,
o aço não podia cortar
a minha dor.

Só o medo da solidão incomunicável
ou talvez os ares do velho julho,
é o inverno que dói mais!
Só o sol que não diz
e a lua demais diurética
se apegando a mim
me apagando de mim.

CRiga.


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Um conformar-se


Daqui pra frente a chuva
um setembro
sem a mesma primavera.

Um cavalo cavalga
ares que não sei,
um girassol enfeita
amargura de prateleira.

São dias esta confusão
um encanto pueril
uma nuvem acinzentando
quem do cinza renasceu mil vidas.

Não há desvio seguro
por enquanto apenas é um daqui pra frente a chuva
sem a mesma ternura
de um velho Led na vitrola.

CRiga.



quarta-feira, 8 de junho de 2016

Onde eu possa plantar os meus discos

Espero que dos sinais
da calmaria deste novo lar,
venha aquilo que chamam por aí
“parar de esperar”.

Porque há um momento
em que deixamos de ser aqueles jovens
de petardos literários na ponta d’alma
errando e acertando corações,

é quando deixamos de amar as efemeridades
e nos reapaixonamos
pelas coisas que já são nossas
há muito tempo.

CRiga.


terça-feira, 7 de junho de 2016

Poesia de computador


Precisava cortar a veia violeta
e jorrar um sangue qualquer sangue
sangue da idade, sal da idade,
o vinho é melhor mais velho
só para o velho, só para o velho...

Precisava correr os bares
e manchar um caderno qualquer caderno,
caderno sem compromisso,
hoje a poltrona, poesia de computador
só falta a dor, só falta a dor...

Mas precisava não ser mais velho
e envelhecer a essência qualquer essência,
indecência maior é morrer
sem ter escrito um livro
e sem ter feito um filho.

Eu preciso plantar uma árvore...


CRiga.