segunda-feira, 6 de junho de 2016

Notícias de Hiroshima



Houve a brisa louca, cinza
trazendo notícias e encomendas.

Talvez uma boneca nova
chegando de presente
à menina que já cresceu.

Talvez a maletinha de material escolar
que o garotinho esperou
assistindo desenho na televisão.

Talvez o relógio da moda, o vestido
talvez a cama e até um gemido de prazer.

Ou talvez apenas o noivo distante
finalmente na visita prometida,
pousando leve sobre a pele da moça
distraída na lavoura.

CRiga.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Luz no fim



Sinais que falam alto,
avisos de caveira num sonho estranho.

Depois de morto pela tirana justiça
você foi deixado vivo, envergonhado,
deitado no solo frio
pela Luz que chegou atrasada.
E você só perguntava, atordoado, 
à sua mãe figura sem contorno
qual era mesmo o caminho daquele céu.

Mas você reviveu para espiar seus erros,
pra desapodrecer,
ressuscitar os mortos que você deixou
e recriar-se talvez poeta-luz-de-vagalume
recitando roucas preces cósmicas:

“Quem tem fé
com letras cura.
Quem tem cura,
por favor,
me dê apenas uma…”

CRiga.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Não nos deixam nem sofrer...


Este sol já me chateia,
fosse a chuva me contentaria
ficar assim tão triste neste dia.

Houve outonos que corria
que sorria, me molhava
carregava pra eternidade
uma simples felicidade acesa.

Outros outonos, a uma mesa
a certeza que a poesia nos salvaria.

Este sol não salva nem salga,
não maldiz nem traz conforto,

é só um morto que sorri no céu.

CRiga.


Cigana


Não poderás mais escrever poemas, pois tuas mãos ficaram entre as minhas pernas, e dentro de mim compunha o que poeta nenhum ainda conseguira descrever em palavras.

Não poderás mais cantar tuas canções, pois tua língua ficou nos bicos dos meus seios, na minha língua, nos meus lábios, boca, pescoço, peitos, ventre, púbis, até a eternidade!...

Não poderás mais ver o pôr-do-sol, pois teus olhos viram meu espírito viver no teu corpo, sentir a tua carne, e chorar de prazer quando me tocavas, e de tristeza quando partias...

Tenho certeza, não poderás mais nada. Por isso sei que voltarás, pra buscares tudo o que te pertence. Inclusive eu.

CRiga.


quarta-feira, 1 de junho de 2016

Ética do sim

Um não ouvido de um lado
e um sim dito pro outro.

Enquanto toma seu café hoje mais gordo
lê seu noticiário recheado das cifras douradas,
feito adolescente punhetando uma Playboy.

“sim, sim…”

CRiga.