quinta-feira, 29 de julho de 2021

Foi numa noite de inverno

 


Minha aposta comigo mesmo é ver se esse frio que vem por aí vai vencer o que eu senti num dia cinza em Curitiba.

Eu tento sempre me reconectar a você e ao trabalho que dá me preparar feito formiga à espera dos gafanhotos.

Eu vou guardar alguns 15 beijos nestes dias até novamente eu ter vontade de cozinhar.

Arte é que não pode faltar.

Nem a lenha preparando uma receita só pra se esquentar.

A realidade é que estou só neste inverno.

E só vi estrela cadente sem ter pra quem gritar.

Minha alma ainda ensaia resistência.


Meia-noite caindo nos graus.


CRiga.


sexta-feira, 23 de julho de 2021

Um engano de vida

 


Na sua solidão de fila no caixa-eletrônico, pensava em relatórios e contas.  “Oi!”, ela disse, tão linda menina. “Não se lembra de mim, não é?”, emendou, logo com um beijinho no rosto. Não se lembrava. “Ah, devem ser os óculos novos...”. Tirou.

Ele ainda franzia levemente as sobrancelhas, como quem se esforçava em tentar lembrar. “Puxa, não se lembra?”, insistiu ela, olhinhos tristezinhos. Os óculos dele, de aros pretos, também eram novos - por isso os tirou pensando estar com a vista atrapalhada.

“Ai meu Deus, me desculpe... pensei que fosse um amigo meu... desculpe”, foi-se, encolhida, correndinha.

Ele ficou olhando ela ir, parado no tempo, esperando um beijinho de volta. Desabou na decepção de se lembrar quem ele mesmo era. Devagar, vagando, colocou de volta os óculos novos, e reafundou-se em sua solidão de filas, relatórios e contas exatas do salário. Tudo consumido no sustento do lar materno, nada sobraria no fim do mês. Nada.

Só a voz da mãe, irritante: “bonitos óculos, meu filho... você ficou muito bem”.

CRiga.



quarta-feira, 21 de julho de 2021

Militância de flores

 


Há um Brasil que insiste
invadir minha história de amor.

Trocam-se flores multicores
pelo amarelo e vermelho –
as flores não ficam tão tristes
desde os tempos de Vandré.

Trocam-se poemas por discursos.
A carta anônima romântica
depositada na caixinha do correio,
vira fraca denúncia estampada
em qualquer página de jornal.

Troca-se perfume por gás lacrimogêneo,
vestido chita por camiseta chiita.
Troca-se convite a um passeio
por convocação a passeata.

Eu prefiro sim a flor colhida
à morta pisada no canteiro.
Um coração partido
a tomar partido do terror.

Há um Brasil que resiste
se reinventar histérico
na minha história de amor.

CRiga.



segunda-feira, 19 de julho de 2021

Um legado largado no escuro

 


No futuro, dirão:
“ele tinha um grande amor”.
Tenho vários.

Ou: “ele tinha um grande segredo”.
Tenho vários, também.

Não há nada a se descobrir assim –
entrelinhas
escolas de modernismo
entrevista com amigos e parentes.

Há apenas palavras.
Pontos.
Vírgulas.
E uma vontade louca, porém consciente,
de inflamar a alma novamente
para que ela se lembre de vez quem é,
de quem é.

E isso cabe a mim,
a mais ninguém.

Aqui apenas deixo a forma –
a alma é o meu quarto escuro.
Por favor entre,
mas mantenha a meia-luz.

CRiga.



quinta-feira, 15 de julho de 2021

É hora de você achar o trem

 


Corri atrás do teu perfume na alameda mais longa. Atrasei, você estava morta enterrada com direito a fotinho oval desbotada na lápide de mármore de quinta categoria. Nós somos assim, ricos só de espírito, mas eles aqui não gargalham nem bebem cerveja. O silêncio da perda é o comum.

Há ratos em volta. As pétalas escureceram, apodreceram. Você não vai voltar, então eu vou embora, me desculpe. Não vou morrer contigo. A chuva já castiga, aquela chuvinha tonta de filme de romance europeu, o cara com os pingos caindo pelo sobretudo preto, encharcado, o rosto parecendo derreter. Aqui, verão, eu de bermuda e havaiana, uma camiseta regata que às vezes uso pra dormir.

Lembra? A gente dormia junto, e você tirava sarro dela. Tinha Nossa Senhora, minha tia me deu depois de voltar de Aparecida. “Ai, Santa!”, você gargalhava, embriagada na nossa cama. Depois, nem santa nem roupa alguma – o diabo nos corpos!

Há ratos em volta de nossa casa, como numa música do Clube da Esquina que você ligava na vitrola. Não quero voltar pra lá. É só um barraco, velho, lá ainda tão todas as tuas coisas. Eu me atrasei... nunca houve mesa pronta, mas esperava te encontrar. A gente se esquece das coisas.

Eu vou embora da tua nova casa, meu bem, ela é fria demais demais, apesar de não ter (e querer) onde voltar. Antes, vou quebrar a garrafa pros cacos decorarem tua nova casa. Assim parece mais ainda com a gente. E os ratos: gente boa! Esse cheiro de mijo, você não deu bola pra mendigo, né? Tudo bem, em casa ninguém limpava nada... Mas tudo incrivelmente brilhava. Até esta mesma foto desbotada.

E, por favor, esqueça de apagar a luz – não é agora que você vai se lembrar. Afinal, meu bem, você está morta e enterrada. Só eu que ainda não saquei...

CRiga.



quarta-feira, 14 de julho de 2021

Cafajestes

 


Eu me vejo manchando o teu vestido de casamento com o vermelho sangue de meu ciúme doentio – calma, sem páginas policiais: apenas a taça do vinho que a gente não tomou porque você estava tão atrasada pro fatídico dia da noiva, eu te dei carona e nem cobrei a gasosa. Então vai meu bem ficar tão lindamente atrasada pra gente brincar de rasgar vestido no ato consumado da festa da tua felicidade muito bem disfarçada pela pesada maquiagem cara, champanhe e padrinhos que gastaram uma graninha besta em presentes pra te ver feliz nas fotos do futuro álbum. Nem aquela cena ridícula de novela das oito existe mais nas igrejas pra eu te condenar, aquela que o padre pergunta se há alguém que tenha algo a dizer contra esse casamento que fale agora ou cale-se para sempre – diria mataram o mensageiro do amor com um tiro certeiro no peito, e, menos poético, teu noivo comeu tua prima por trás na tua cama ainda quente de manhã enquanto você tomava banho, tua família é uma farsa de corruptos e gente de passados duvidosos, você é a única que presta um pouquinho pra uma traiçãozinha nada demais antes do casamento... Mesmo na Santa Igreja não saberia mentir tanto. Casamentinho de merda! Me devolve então a grana Maria gasolina, Maria mãe de um deus que não acredito, Maria vai-com-as-outras-foi-comigo, ah, Maria! Eu te amaria tanto se você não dissesse sim, carregaríamos garrafas pelas ruas e cairíamos esquinas pelas noites sem fim até que alcançássemos a cama mais uma noite, a gente gritando urros de prazer na madrugada até o amanhecer te chamar praquele empreguinho de merda e o meu eterno vagabundear fingindo trabalhar numa redação de jornal. E só te trairia com escritos mais românticos, não marginais. E você se ofenderia. E por vingança finalmente se casaria, certa de querer ser eternamente infeliz.

CRiga.


terça-feira, 13 de julho de 2021

Com "X"

 


Há um cara desconversando.
Desafinando.

Um cabelo que passa sacudindo ideias
fervendo as fadas e guardando um fel.

Às vezes há um céu de estrelas
ou uma jam session em casa
pra ensaiar se inspirar.

Mas eu sei que falta o mar,
falta amar e falta até o ar.

Não há nada,
apenas um vírus que faz a gente
desaprender as boas coisas dos livros.

Terra pra ele é um pó marrom
onde seus pais semeiam apenas ilusões.

CRiga.