sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A cicatriz que diz

 


Mergulhe em si e crave as unhas

no touro que corre desenfreado
galopando a noite escura da tua alma.

Encare os olhos vermelhos
e cometa o ato necessário:
faça sangrar, mas não o mate
nem queira tornar-se amigo.

Arranque das entranhas do feroz
a energia pra gritar nos versos
todas as suas verdades.
As mais maldosas também.

Serás finalmente poeta
dono das tuas letras
ferida aberta
futura bela cicatriz.

CRiga.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Proibido colher flores

 


Daqui só vejo o cinza do asfalto
onde apenas pombos sujos
decoram a melancolia.

As poucas árvores que há
são bonsais de estimação
quase engolidas pela “paisagem” –
palavra demais bonita
não combina com a cidade.

Olhos vidrados no movimento dos carros.
Pássaros maliciosos cortam a travessia
mudos – ou o barulho suga seu palavrão
contra o carro do ano
em excesso de velocidade.

Procuro sobreviver nisso
que se convencionou chamar-se de selva.
Preferiria procurar cipós pra doce amiga
artista que molda apanhador de sonhos.

Procuro o sentido de Manoel de Barros
mas aqui a simplicidade está apenas
na placa que me proíbe
e não me explica
por que não posso colher as flores
do jardim da Prefeitura.

Para os amigos Andreia Medeiros e Danilo Amélio

CRiga.

(foto de Flávio Costa)


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Letras raras

 


Tenho vergonha de expor tristezas,
recônditos incompreensíveis.

Ninguém compra a flor que começa a murchar
deixando um perfume de morte no ar.

A maçã com aparência da pele idosa
mas ainda saborosa
dependendo do desejo dos dentes
e da língua.

Há na garrafa empoeirada do boteco do Centro
impregnada a história de um dia
em que o alcoólatra era um cara legal.

Há na foto desbotada colada no relicário
aquele mais doce segredo
que o viúvo já esqueceu.

O casaco que arranha a pele no brechó
já aqueceu um poeta em seu auge.

O vinagre já foi vinho
e a cruz a redenção –
mas o padre desistiu.

Hoje não tem missa
porque o coral do corpo de Cristo
se vendeu ao rock inglês.

E a multidão no estádio grita
a feliz unanimidade
de um ingresso muito caro.

Raro
é o pulso magoado
escrever um dia melhor.

CRiga.



terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Pedras no caminho

 


Chuto uma pedra
como quem quisesse
atirar para longe
todos os problemas
e me machuco mais.

Fugir dos problemas
é como chutar uma pedra
de esmeralda mal lapidada
e ignorar uma vida melhor.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O vale escuro

 


Aquele profundo puxar
e soltar de ar.

Você não vê o abismo dentro dos olhos.

Uma cordinha te segura,
pescoço a prêmio.

A pele vermelha diz mais que o âmago amargo.
Mal-amado. Paga dívidas pesadas.

As asas imaginárias foram quebradas,
amassadas.

Dentes trincados à boca aberta no asfalto
malcuidado, cheira a mijo de mendigos.

Amigos são rimas que não rimam mais.

Aquele profundo não sei o quê
atalhos perdidos, um vagar vagabundo.

Um mundo inteiro pra se preocupar
e uma vontade imensa de dormir, sonhar.

Fugir.

Apenas boiar.

CRiga.



sábado, 5 de dezembro de 2020

Quem sabe o fim da história

 



Ando ouvindo músicas bonitas
que eu sei a tua paciência
não aguenta mais.

Tem cada coisa bonita!

A vida nem pretende ser tão longa
pra só cinco minutos de canção.

CRiga.




Novela das Oito

 


Eu te esperava pra mais cedo...

Antes que eu te traísse
com o galã da televisão.

Me deixa ver novela!
Ela não é de nada!

A gente termina essa história
daqui a pouco,
depois.

Cenas dos próximos capítulos.

CRiga.