quinta-feira, 5 de março de 2020

Aos quase 45 do primeiro tempo


Espinhosa mata que machuca,
faz tempo que me atravesso.
O excesso não cura, nem o escuro
de um quarto ao meio-dia.

Sei de todos os segredos
até dos que não me contaram.
E eu sei porque sou puro.

Na lente do escritor há uma história,
mas esta fica pra depois –
uma varanda de conselhos e moços,
haverá ouvidos gentis.

Eu sei o caminho, eu já trilhei
com menos responsabilidade.
Sei das pedras, só tenho um sorriso
e a mesma safira sincera
no olhar de confiar.

Vou correr contra o vento,
respirar o bafo gelado, viciado,
prazer em reconhecer!

Não há segredo nem na morte.
Há pedras – e o poeta já sabia muito bem.

Nem que não haja o mesmo sol,
é outono, vou curtir o vento cortante.

Há mesas juvenis na calçada, um convite.
Eu ainda sou o mesmo, me espera,
eu tenho boas novidades pra te contar.

CRiga.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Na volta da meia idade


Descendo a ladeira de paralelepípedo
no salto alto de ponta gasta
no desequilíbrio de gritar o psicanalista.

O apoio amigo são as fachadas
das velhas casinhas da cidade histórica
se desfazendo sem você denunciar.

Mas as velhas às janelas não perdoam
e pincham todos os teus defeitos
em cada muro que esfola as mãos.

A baixada só tem mato crescendo,
está vendo? Um lamaçal e um nevoeiro
cobrindo o brejo dos sapos dinossauros.

Depois...
fica apenas um par de botas enlameada.
Segurar nos troncos mortos, tortos, lindos
que mostram as rugas sorrindo experiência.

Então
você chega ao outro lado da margem!...
De lá você até enxerga o fundo do vale
bem ali perto, menos escuro
nada assustador na verdade.

Mas prefere seguir em frente
subir o morro que resta.
Grama verde, orquídeas que você nunca notaria
no fatídico dia em que começou a descer.

Caminho suave, passo de reaprender
na cartilha que a cada passo
você poderá reescrever.

CRiga.

terça-feira, 3 de março de 2020

Acabou, começou!


Não adiantam dores amores flores rimas –
quando desapaixona já era, meu amigo!

Nem chocolate nem jantar caro de um mês de salário
naquele restaurante da propaganda que vocês ouviam
quando de manhã iam juntos trabalhar.

A comida fica seca e mais cara,
o vinho dá dor de cabeça.
A sobremesa tem as calorias que precisa evitar,
daqui uns dias tem balada com as amigas.

Desinfeta, desidrata então os temperos
a gente nem vai fazer aquele prato da tevê.

Desafasta, me dá ar, pega suas coisas e não demora.
Quer a hora do relógio?
É agora: a hora de você só ir embora.

No guarda-roupa cheirando a mofado tem
aquele vestidinho lindo vermelhinho.
O decote ficou fundo demais
ou eu que me afundei de peito aberto em você?

Vestido mofado? Qual o quê!
Boutique e vendedoras que parecem amigas de infância,
um decote novo e um azul da paz que namoro.

Você aparece pra me pegar...
Arrumou o amassadinho do para-choque
botou cheirinho de carro novo.

Criancinha com fome, chega a dar dó!
Ainda bem que me chega todo mês
o carnê do Médicos Sem Fronteira...

Falando em fronteira cruzo a cidade
num táxi que toca Djavan:
“cair nos pés do vencedor
para ser o serviçal do Samurai
mas eu tou tão feliz”...

Dizem
que o amor próprio também atrai.

CRiga.


segunda-feira, 2 de março de 2020

Gente tangente


Fatal: falta alma de multidão.
Fatal pra quem?

Desconectado, julgador voraz mas calado.
Desinteressado pela massa,
não caça problemas, não compartilha também.

Feliz desconhecido, amigo do fone de ouvido.
Eremita de camisa social, hiberna na rede,
bate perna e não se importa
em por enquanto não chegar a lugar algum.

Nunca virou alvo, abomina compromissos
e eventos sociais.

Felicidade é relativa.
Você não o verá na vitrine
nem nas selfies da vaidade.

Verdade pra ele é o que de fato faz diferença,
sem crença, lado B ou lado A.
Sua bandeira é apenas um olhar transparente
e discreto.

Odeia convenções, cultos histéricos e acusadores.
Julgador que não condena, não fala,
porque pra ele quem cala
também segue puro e intocado
em frente, independente.

Felicidade é relativa.

CRiga.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Uma vaga ideia


O som do pneu contra o asfalto molhado
é o mais caro som da solidão.

É o som que resgata o garoto que corria
que morria todo dia
renascia de vez em quando.

Aquele garoto sorria
não sabia bem pra quem.

O som do pneu contra o asfalto molhado
é a sinfonia da mais doce melancolia.
É de quando não havia dia
que o garoto não queria
ser apenas um garoto.

Mas ele era.

E era uma vez um garoto.
Não havia chuva que não fosse amiga.
Não havia amiga.
Não havia.

Ele havia de ser alguém,
uma ideia vaga de poesia...

CRiga.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Falta-me


Correr de volta o teu caminho
margaridas na calçada.

Recuperar a lucidez do amor
comprar uma passagem
pra você me acompanhar.

Não deixar teu cabelo novo
passar despercebido pela sala.

Não desviar o olhar
negar um sorriso à facilidade.

Trilhar esta cidade
em busca de um encanto, que difícil!
não o ar fedido que sufoca meu filho.

Correr de volta o meu caminho
um pedido de namoro, rosas e romance -
a poesia em meu alcance
esquecida nos cadernos.

CRiga.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Eu sou um velho palhaço


Muitas já foram as histórias de palhaços apaixonados. Aqueles que já sem a maquiagem vão à porta do circo esperar a amada, que passa lotada dizendo “que palhaço idiota”. E assim nasceu a lágrima desenhada junto à tinta colorida de um rosto que preferirá sempre esconder a dor.

Eu não espero que você me ame. Pra ser sincero, nem que você ria. Tentei ser mágico só pra poder usar smoking preto, mas o coelho da cartola mordeu meu dedo e riram de mim do mesmo jeito. Tentei acrobacias no ar, caí na rede e depois, de ricochete, no chão de pó de serra. Até o leão nem se moveu quando fui eu o domador.

A dor do palhaço ninguém vê – afinal, a ideia é ver só alegria mesmo. Pobre palhaço, não pode nem se apaixonar! Fora do circo anda de bar em bar, ainda colorido, descolando um trago aqui outro ali, até cair embriagado na sarjeta e crianças chutarem seu traseiro de manhã. Hora de ser sombra.

Minhas rugas não somem mais com a maquiagem. Agora nem minha dor. Meu número no picadeiro mudou – uma tragicomédia que ninguém entende. Ninguém mais ri. Enfadonho espetáculo, eu me equilibro nos minutos e meu olhar vago denuncia a falta de saco de fazer criança rir.

É quando vê o milésimo amor da sua vida lhe sorrindo. Pula, sacoleja, cambalhota, grita. As risadas reaparecem. Ele é o palhaço do cartaz novamente! Vem a sirene, o balde de água na cara, deveria acordar do devaneio incontrolável, mas algo de arte ainda o move. Ou seria amor?

Eu te amo, você não vê nestes olhos? Não, volte pra trás, ainda tenho truques pra te conquistar. Quem é esse rapaz loirinho do seu lado? Porque você tá de mãozinha agarrada com ele? E esse beijo, não era pra ser meu? Volte, mata essa bicha louca do caralho e vem que a gente foge com o alazão do circo!... Sua puta!...

Muitas já foram as histórias de palhaços apaixonados. Poucas aquelas que deram certo. De volta ao camarim de terceira grandeza, dois por dois, um balde d’água e um espelho trincado, já nem mais chora as desilusões de cada noite. O dono do circo lhe dá a mixaria da quinzena e mais uma bronca: “um espetáculo mais esquisito que o outro. Se endireita, seu palhaço velho!”

Eu sou um velho palhaço.

CRiga.