quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Sabe o poder?


A jazz rouca voz.
Uma brisa na tarde abafada.
Um novo romance.

Eu puxar você pela cintura
e a gente dançar pela praça.

Faça as malas que a gente vai viajar!

O solo do rock novo.
Água fresca no final da corrida.
Um olhar que sorri ao cruzar na calçada.

Eu desenlaçar o laço do teu vestido
sob a luz de um sol que entra pela janela.

Trame com ela a trajetória de uma noite inteira!

CRiga.



quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Estrada do Funil


Faróis acesos na noite clara
vamos então cometer enganos
inventar amores
cores sabores rumores
e rimas.

Doce é a canção da água que corre
na margem contra a pedra
no rio das ideias que nos acompanha.

Cuidar nas curvas para não desafinar
nem desafiar a imortalidade
as leis da gravidade
e da relatividade:

melhor vivo do que morto,
torto a um simples careta.

Cometa o ato derradeiro –
me dê primeiro o teu coração.

São quantas estas velhas curvas
pra gente de novo se conhecer?

CRiga.
(fotos de Danilo Amélio)


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Conteúdo impróprio


Giro o seletor das ideias
mas a realidade que me cerca
ainda é desbotada.

Culpa do desafio que acatamos
durante aquele reinado da paz.

Não é a chuva nem a censura
nem o poder nem o não poder.

Apenas o destino já reservado
do copo que vai quebrar.

Apenas os pés molhados
na grama verde do verão.

Giro o seletor das ideias
e me flagro na realidade crua:

temos que martelar letras
lapidar o caco de vidro
e aguentar a pata do elefante.

CRiga. 

    

Dia de chuva, dia de sol


O que resta no final do caminho verde
me testa, monstro manso a rosnar
de trás do sofá perto da saída.

Eu enfrentaria a tempestade...
não, não enfrentaria,
e aqui aceito o desafio:

da sala eu vejo a tarde morrer chorando
coloco uma canção bem triste
e já sei que tudo tudo
vai passar.

CRiga.

“ e o que sinto não sei dizer...”
(“Love in the Afternoon”, Legião)



Secretária eletrônica


Acabou-se o pulso
na desesperada hemorragia
do amor que não passou.

Anjos desesperados gritavam no eco,
naquele apartamento frio, sem madeira,
que não era a sua vez.

Uma garoa louca silabava
a dor suspensa no tempo calado.

O vento gelado girava no quarto
levando os velhos papéis borrados.

Acabou-se o pulso
pulseiras, anéis.

Gritava o telefone
sem qualquer resposta,
enquanto a fria voz feminina
desafiava na metálica gravação:

“deixe o seu recado
só após ter amado
como eu amei...”

CRiga.
(Caderno Azul - 2000)



segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Amor de verão


Uma folha cai
e o amor de verão despenca
no quadradinho do calendário.

Não suportará a graduação alcoólica
do vinho tinto francês.
Não contrairá a doença moderna
do rato conformado com pouco espaço
no apartamento muito bem mobiliado.

Pedirá licença pra fumar uma boa memória,
mas a história da área comum
é uma placa de advertência.

Filme europeu é gente demais vestida.
Na geladeira há uma cerveja esquecida
desde a comemoração do ano novo.

A vizinha vem todo dia apreciar histórias
de um verão como outro qualquer.

A vizinha vem
até quando a vizinha não está.

A mala esteve sempre pronta
pra voltar a viajar.

Não precisa saber desse tal de charme
da noite do inverno na cidade.  

Na praça só há cachorros encoleirados
e gente trotando uniformizada
correndo atrás do tempo
que sempre resiste serra abaixo.

Atrás da página arrancada
do mês que passou no calendário,
escreveu uma despedida:

“meu amor eu tou voltando
pra você.
Guardado quem sabe naquele próximo janeiro
no calendário que ainda nem saiu...”

CRiga.


Um tempo pra pensar


Busco no verde vida da paisagem
iluminada pelo sol do fim de tarde
um porquê continuar.

Desisto de entreter, quase de trabalhar.
Já fui trabalhador mais aplicado,
se me falta ainda a calma da experiência
me sobra a palavra correta no furacão.

Me procura na esquina, vai achar.
Me desnuda na mata verde
há uma ainda nova raiz.

Eu não prometi ser perfeito.
No meu leito de morte enrolo
e fumo esse vivo verde!

Na esquina onde resiste aquele bar
e os velhos amigos a recitar
o brilho que a noite sempre garante
independente
do valor da conta a pagar.   

CRiga.