segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A chuva como um soco na cara



Queria agora que chovesse a chuva confortante
dos fortes que também choram.
Água pesada que faz barulho no asfalto ladrilho,
aquele cheiro fresco que se perdeu na juventude.

Água benta rebatizando o espírito cansado.
Chuva que encharca a camiseta e o casaco
eu e você
em diferentes estações.

Água que dilui lágrimas etílicas,
lágrimas que ardem no machucado.
Meu rosto tem coragem de encarar a tempestade,
a idade tem medo de se afogar num copo vazio.

Queria agora que chovesse a primeira chuva,
aquela água que purifica, perdoa e lava o sangue.

Essa tempestade de primavera 
só condena a gente à louca espera
de se alcançar em algum verão.   

CRiga.

(Primaveras se atracam
e a chuva vira lágrima:
pai e filho se machucam
e dispersam os verões)




O inimigo vem para o jantar (a canção de um sonho bem real)



Durante a ceia escassa de nossa aldeia
Você trouxe o vinho da bebedeira
Brindou como um velho amigo que voltou.

Na noite do nosso sono confiante
Você portou-se como um amante
Roubou o ouro e apenas acusou.

De manhã jogou o velhinho de lado
Cercou o jardim com arame farpado
Botou soldado raso vigiando as flores.

Meio-dia tomou a casa de assalto
Gritou “todos de mãos pro alto”
E fez seu escritório em nosso quarto.

Daí
No novo almoço fez ode à tirania
Enfiou goela abaixo uma soberania
Prendeu padre, parente e vizinho.

Daí
Rasgou a Bíblia e a Constituição
Sorriu arrogante na televisão
E deu de ombros ao que estava escrito.

E aí?
Como aceitar o novo inimigo?
E deixar solto o velho bandido?
Ignorar a verdadeira paz?

E aí?
Como acreditar no falso profeta?
E encarar a face do poeta?
Os nossos dias já não voltam mais.

CRiga.

(Sonhei com invasão de marcianos
e acordei com um Brasil
depois das eleições...)



quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Pra quem quer olhar


Os olhos não mentem. Isso é fato.
Sentem muito quando sofrem
e quando querem riem alto.

Eles olham no fundo da alma,
acalmam, eles também abraçam,
beijam e até te comem...

Os olhos se vestem de lápis e rímel,
óculos escuros e lentes mentirosas –
são perigosas as suas meninas.

Farol no caminho dos cegos,
tortos quando o amor os cega.

São pretos castanhos azuis verdes
amarelos e até vermelhos.
A morte na verdade tem olhos brancos.

São francos quando a alma os aperta.
Os olhos enxergam até a bebida
escondida debaixo do casaco.

Os olhos não negam a facilidade
e nem a doce boba felicidade
quando olham com o coração.

Flecham. Fecham a avenida.
Moem. Destroem a rival.
Sambam no feriado de carnaval.
Rezam fechados pedindo colírio
e perdão.

O padre tem olhos severos
destes que inventam o olhar de Deus.

O diabo tem olhares sinceros
destes que convertem até os ateus.

CRiga.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Poesia sem adjetivos


Olha nos meus olhos, me descubra
me desnuda
mas não bata o martelo –
meu advogado se chama tempo.

Sem metáforas ou adjetivos –
apenas a verdade que sou.

CRiga.



segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Basta chacoalhar


Tem aquele solzinho que resiste,
A necessidade de falar contigo
E dizer que há outras estações.

As fotos me avisaram, o amor é nosso
Mas a vida inteira também é.
Às vezes a gente se atrapalha no passo
Chuta pedra, ignora a flor na calçada.

Mas também tem parque e visita de domingo
Um bom papo, boas lembranças
Nossas ainda eternas crianças!

Todos nós temos medo, é o enredo.
Tem medo que às vezes aterroriza
Pesadelo daqueles de chamar a mãe.

Pode me chamar. Pode me contar.
Nosso coração é do universo,
Basta azeitar as engrenagens –

Ele vai conspirar tão novo
Feito o relógio do vô Inocêncio
Que ainda insiste funcionar.

CRiga.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

terça-feira, 30 de outubro de 2018

O idioma do desejo


Não adianta chorar
sobre a bebida derramada
na noite dos cantores.

Bebida doce,
e a menina enrolava a língua
num púbere castelhano
e num inglês de pop sueco
moreno latino americano.

Nem teve a chance
de enrolar a língua
também por doce embriaguez!

Não adianta se desculpar
pela espanhola derramada
entre os beijos, línguas
que não queriam tradução.

Queriam apenas a luta ardente,
entre as bocas, o desejo –
único idioma então corrente.

CRiga.