quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Desclichês


O fim do arco-íris
não é o pote de ouro.
É só o fim do arco-íris.

O que é fim não é feliz,
o que importa é a viagem.

Na viagem eu te conheci,
ainda viajo te conhecendo
não quero chegar ao fim.

Não quero pote nem ouro,
quero apenas virar ao avesso o arco-íris
ou numa cambalhota-brincadeira
ver tua boca colorida sorrir pra mim.

O fim do arco-íris
é só o canto da tua boca
me chamando assim de lado
quando beijo o teu sorriso.

Para Clau

CRiga.  


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Nos salvaremos?


Tempos cinzas da crise que nos bate,
cabe a nós forçar na terra a raiz da paz
e sorrir às crianças que nos esperam em casa.

Andamos tempos só na corda bamba
sem providenciar a cama elástica
caso uma tempestade nos derrubasse.
Demos ao doce refúgio nosso gosto,
construímos o que é nosso abrigo
e precisamos agora nos despir daqui.    

Mas é tudo tão difícil, vender as roupas,
ficarmos nus apenas com a alma.
De onde retirar a energia, ela se esvai,
a cada madrugada o rosto atônito
sentinela engole o escuro da agonia.

São tempos confusos, eu quero a liberdade,
mas ela é tão cara quanto inalcançável.
Eu quero fugir desta cidade,
eu tenho a idade pra ser feliz.

Nos salvaremos.
Mas a custa de quantos anos envelhecidos
nestes parcos dias cinzas de confusão,
nestas duras noites de solidão
que martirizam o espírito em vigília?

Eu espero. O monstro não.

CRiga.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Passado


Distribuiu poesias
entre os beijos da doce juventude.
Mãos macias dobraram a folha
nas gavetas da inexperiência.

Com o tempo que passa
as letras fizeram mais sentido,
mas os tempos eram outros:
o poeta aposentara o caderno,
não era mais o romântico jogral
belo maldito das esquinas.

Sobrou um quê de queria mais,
não soube te aproveitar.
Eu ainda tenho a poesia
que você fez pra mim naquele dia.

Cai a ligação, cai o sinal.
Tudo cai, também a ficha.
Tudo bem que a gente cai,
mas eu queria tanto você
só pra agora me segurar...


CRiga.


Caixeta


Mais destes olhos que te procuram –
a paz parece brincadeira de criança,
esconde-esconde, rouba-monte.

Eu vi nos olhos dos garotos
que tudo pode dar muito certo.

Janeiro passa, menos as horas,
eu sinto falta dos anos que perdi
nestes dias de letargia, eu envelheci.

A esperança é engraçada,
ela alimenta mas dá medo.
Ela se senta pra jogar e sorri
com os lábios dos meus filhos.

Ela tenta fugir,
mas é voo de passarinho
que volta com alimento para o ninho.

CRiga.



sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Resignação operária


Você não tem pra onde correr
vai sofrer, já está.
A gente nem tem como te ajudar
agora é moda fechar as portas,
você tem sorte de estar onde está.

Tem juiz marcando muito pênalti,
torcedor querendo invadir o campo.
O cartola continua no camarote
tomando um drink com o novo craque.

A guilhotina nunca tanto trabalhou,
mas sua cabeça não foi exposta –
foi reposta ao corpo enviado longe
onde ninguém pode te julgar.

Tudo é início, todos dizem
é preciso esperar o início acabar.
Mas os fins já planejamos,
escrevendo as preces neste escuro.

A vela um dia apaga,
a gente acende outra
e incendeia o cais da vigília.

Ninguém sabe mesmo o que será,
mas é preciso antes querer
do que apenas esperar.

CRiga.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

“Vamo que vamo...”


Desculpe eu não tenho a energia
de acompanhar mais as terras arraigadas
prometidas
destes velhos discursos de início
dos montes das bens-aventuranças.

Este filme eu já vi, esta vontade de fazer,
de mostrar, de sentir-se anjo de um deus,
que sabe tudo antes da criação.

Desculpe o bafo no teu vidro,
aqui a respiração é realista.
Vejo que logo você verá o sol nascer
do mesmo jeito que ontem ele nasceu.

Este teu novo dia eu já acordei,
arrastei as mil pedras para ver Lázaro voltar.

Eu já vi esta insana necessidade de provar,
de sorrir fingindo se importar.

Desculpe a saída pela porta de emergência
minha ânsia é correr correr correr...
Agora é só a tua ladeira aguda e repetida
que por enquanto me impede de voar.

CRiga.


Aquarela seca


Talvez tenha pisado uma flor
negado um sorriso
não notado o novo centímetro
no tamanho dos meus filhos.

Novas estações
não emprestarão peculiaridades.
A falta da mágoa
na verdade enfraquece.
O brio só é a bruma.

Talvez tenha chutado a chance
negado sentir a ira
não notado que você me espera
como também os nossos filhos.

Novos sonhos emprestados,
os juros parecem caros.
Eu já plantei a árvore
já escrevi num livro
já tive dois filhos.

Os garotos só sorriem, deuses!
Procuro colorir, rir das meninices.
Eu preciso é procurar
mais flores pra você.
Estou cansado de chutar latas
nossas tintas pra reforma.

CRiga.